sexta-feira, 17 de julho de 2020

Os Responsáveis são Felizes

Livro: Mereça Ser Feliz
Autora Espiritual: Ermance Dufaux

Capítulo 27

" Deus não dá valor a um arrependimento estéril, sempre fácil e que apenas custa o esforço de bater no peito. A perda de um dedo mínimo, quando se esteja prestando um serviço, apaga mais faltas do que o suplício da carne suportado durante anos, com objetivo exclusivamente pessoal.”

O Livro dos Espíritos – Questão 1000

O sentimento de culpa é um aprendizado profundamente enraizado nos recessos da vida mental. As experiências religiosas nas vidas sucessivas dos últimos quinze séculos insculpiram fortemente a conduta autopunitiva como forma de solucionar nossas questões com Deus e a consciência.

Passando de geração em geração, constata-se na atualidade uma trágica manifestação coletiva da culpa nas sociedades sustentando o sofrimento humano.

Não fomos educados para ser responsáveis, fomos “educados” para sermos culpados: perante as falhas, castigos; perante os êxitos, recompensas. Prêmios e punições representam o coroamento das ações, como se nada mais existisse ou fosse possível existir entre os extremos que denominamos "errado e certo".

Pedagogicamente, os instrumentos do castigo e da repressão vão ganhando novas e mais ajustadas conceituações. Melhor que punir é ensinar, melhor que gratificar é promover. O ato de ensinar implica na arte de fazer uma viagem pelas ignoradas paisagens da vida interior descobrindo valores, pesquisando sentimentos, criando ideias novas, ajudando a pensar. A ação de promover, por sua vez, será o desafio de delegar, demonstrar confiança irrestrita, oportunizar a chance de assumir novas responsabilidades, quando o educando - seja um filho ou um funcionário, seja um vizinho ou um parente, seja um amigo ou transeunte - mostra-se apto a assumir novos caminhos.

Assim, à luza da pedagogia da esperança e do bem, ensinar é abrir caminhos para a liberdade e promover é convocar a maior maturidade através de obrigações mais amplas. A criança educada nesses moldes aprenderá a lidar melhor com suas emoções perante as falhas, buscando responder por seus atos, reparando caminhos ao invés de manter-se na postura de queixume e desvalor pessoal. Será alguém ativo perante si mesmo. Arrependerá, mas não se consumirá em maus sentimentos, ao contrário, procurará trabalhar consigo as legítimas emoções  que caracterizam uma ação de caridade a si próprio. Eis a palavra que define com exatidão nosso remédio nos problemas da culpa: caridade.

Quando o senhor Allan Kardec perguntou aos Bons Espíritos, na questão 886 de O Livro dos Espíritos, sobre qual seria a visão de Jesus sobre a caridade, tivemos uma das mais vivas e completas indicações para a felicidade humana, nos seguintes termos: "Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições dos outros, perdão das ofensas".

Um completo guia para a paz, isso é que representa essa resposta.

Ante a esse vício afetivo da culpa, encontramos nessa sábia colocação uma reflexão a ser feita. Percebamos que o perdão e a indulgência referendados nessa resposta são manifestações internas de sentimentos que haveremos de aprender. Trata-se de duas medidas essenciais na arte de administrar os sentimentos, sobre como vencer mágoas e lidar harmoniosamente com os defeitos alheios. Mas vejamos que há um terceiro item na fala do Espírito Verdade, diz Ele: "Benevolência para com todos (...)". Um aspecto muito importante para pensarmos... Ou seja, aqueles sentimentos relativos à indulgência e ao perdão só serão concretizados nas relações pródigas de ação no bem; isso é a benevolência aplicada. Portanto, a benevolência é a consolidação das etapas que, inicialmente, operam-se no coração.

Em nosso caso, em que buscamos a renovação espiritual, a culpa surge com frequência. Não conseguindo ser o que sabemos que deveríamos ser, somos "obrigados", naturalmente, a ter que aceitar nossa "realidade temporária". Aprendemos com os ensinos novos da doutrina a verdade sobre nós mesmos e queremos mudar. Todavia, entre a propostas alentadoras do Espiritismo e os desejos de melhoria por ela estimulados, temos uma fortaleza de imperfeições a superar, um homem velho a transformar, por isso nem sempre correspondemos aos ideais iluminados que começamos a desenvolver tão recentemente. Desponta então a autocobrança, uma batalha impiedosa na vida íntima contra nós mesmos.

Em psicologia, esse desajuste entre "realidades" chama-se neurose. É quando a criatura tem um relativo controle sobre suas potencialidades mentais e afetivas, mas sofre uma pressão interior que o constrange a algum sofrimento em razão desse desajuste. Essa inaceitação da realidade individual traz uma penosa angústia existencial, levando à criação de mecanismos de defesa para amenizar o sofrimento decorrente do encontro com essa "parte" que não gostaríamos de encontrar. A disparidade entre o modelo proposto pelas diretrizes doutrinárias e aquilo que somos na atualidade gera uma aflição, um desespero mudo, uma insatisfação. É por esse motivo que muitos corações abandonam os ideais logo de início; não querem levar as coisas tão a sério; asseveram que é muito doloroso ter que se olhar e preocupar com essas responsabilidades de conduta.

Portanto, para "encobrir" nossa inferioridade criamos o orgulho, que nos leva a pensar que somos aquilo que ainda não somos, reduzindo nossa angústia.

Isso, porém, não basta. Precisamos compreender que toda essa etapa descrita acima tem sido a causa de muita dor. Culpa é dor. Amigos sinceros e dispostos ao crescimento mantém-se apenas nas faixas de evitar o mal, participam das realizações de esclarecimento e amparo, e, contudo, sentem-se vazios, deprimidos, infelizes...

O que está acontecendo? - perguntam muitos companheiros entristecidos depois de intenso labor. Asseveram que estão firmes nos compromissos espirituais, mas guardam a sensação de estarem piores que antes de os assumirem. A resposta para esse drama existencial está no trecho de apoio acima, "só por meio do bem se repara o mal (...)". Fácil concluir que a dor impulsiona a saída da comodidade e da omissão, todavia somente a realização nobre é capaz de sedimentar valores novos que contribuam para o equilíbrio e o júbilo da alma. É a benevolência!

Convenhamos que muitos de nós apenas nos empenhamos em evitar o mal; tentamos fazer um trabalho interior a custa da informação amealhada pelo estudo ou em movimentações de imitação nos serviços fraternais. Digamos de passagem que tais iniciativas são escolas de despertamento e que jamais deveremos dispensá-las, entretanto, se não descobrirmos nessas iniciativas a postura íntima da "missão individual" que nos insere no contexto das mesmas, ou seja, o motivo profundo pelo qual ali nos encontramos, ficaremos na condição da rotina, sem ação consciente, distanciando-nos da criatividade, da empatia e do auto-conhecimento - únicos caminhos para transpormos a condição de apenas evitar o mal e penetrarmos nas vivências educativas da criação do bem que nos libertará definitivamente.

Evitar o mal é a etapa da contenção, da volta para dentro de si, uma volta sob brumas de incompreensão e sem nitidez de auto percepção. Somente quando partimos para a etapa da "benevolência para com todos", a que se referem os Sábio Guias, é que excursionamos nas paragens da reparação, da atração para a felicidade e da responsabilidade real, assumindo os caminhos do crescimento real e renovador.

Evitando o mal ficamos na culpa. Reparar inclui esforço, sacrifício, comprometimento e amor.

Portanto, queremos tratar de uma nova ótica sobre responsabilidade com a tarefa espírita. Responsável não é somente aquele que tem boa assiduidade e disciplina. Além disso, é aquele que vive a tarefa de amor para os outros enquanto ela se realiza, e a internaliza para si quando encerra para os demais.

Somente quando levamos a tarefa espírita no coração, para fora dos seus horários de realização é que abrimos nossas experiências para a criação do bem, candidatando-nos a novas e maiores responsabilidades, que ensejarão clima e ocasião para a conquista definitiva da tão sonhada felicidade. Mister criar o hábito da meditação sobre os efeitos das ações espirituais no bem de nós mesmos, a fim de não sucumbirmos na hipnose fantasista do personalismo que nos inclina a ver o bem tangível no lado de fora, impedindo-nos de semeá-lo por dentro, nos refolhos do sentimento. Esse é um perigoso ardil do egoísmo que leva a criatura a fazer muitos "cálculos matemáticos" com seu amor, sendo que o amor é algo muito subjetivo para compor a "folha de serviços" de alguém...

Se queremos realmente vencer os estágios enfermiços da culpa estéril que em nada colabora para nossa harmonia, pensemos em como criar o bem.

Comecemos por indagar: o que é o bem? Onde ele está para cada um de nós?

Verificaremos que o bem não está nessa ou naquela tarefa, porque ele é uma questão interior, consciencial, e essa deve ser a meta de todo aquele que foi bafejado pelas brisas consoladoras da Nova Revelação.

Não podemos iludir ninguém. Criar o bem, enquanto "missão individual", não é das tarefas mais fáceis na escola da espiritualização humana. Exige o gesto incomum, o risco, a quebra com o padrão, o servir incondicional, a disposição para experimentar o novo sem medo de normas, aprender a respeitar todas as experiências alheias por mais imaturas que sejam, e muita vontade de ser útil à vida na pessoa do próximo e da sociedade.

O ato de ser responsável significa assumir nossa vida e parar com o hábito de colocar no mundo de fora as razões de nossos fracassos; é assumir o "chamado específico" de Deus para conosco; é desvendar quais os sábios Desígnio do Criador para com nosso destino.

Ante tudo isso, somos convidados a reformar o modo de pensar sobre tudo que fazemos. Como destaca a Codificação, muitas vezes a perda de um dedo mínimo será mais valorosa para nós que toda uma série de sofrimentos; isso ocorre porque nossas perdas foram um ato responsável.

Sem dúvida, os responsáveis são mais felizes, porque descobriram seu papel divino no Universo simplesmente pelo fato de que resolveram experimentar não seguir o rumo da maioria, procurando ouvir a voz da consciência, onde se encontram as Excelsas Mensagens de Deus para cada um de nós.

sábado, 11 de julho de 2020

Traços do Arrependimento

Livro: Mereça Ser Feliz
Autora Espiritual: Ermance Dufaux

Capítulo 26

“Que consequência produz o arrependimento no estado corporal?
“Fazer que, já na vida atual, o Espírito progrida, se tiver tempo de reparar suas faltas. Quando a consciência o exprobra e lhe mostra uma imperfeição, o homem pode sempre melhorar-se.”

O Livro dos Espíritos – Questão 992

Que adjetivo melhor definiria a nossa condição de Espíritos perante o mundo? Virtuosos, trabalhadores, esclarecidos, caridosos?...

A qualidade comum que estimula os passos da grande maioria das criaturas que agasalham a convicção nos princípios espíritas é o arrependimento. Almas arrependidas - essa é condição espiritual que fielmente nos define perante a vida.

Para muitos, arrependimento seria apenas um estado emocional, todavia, é também um estado mental consolidado, que funciona como uma âncora de segurança e um impulso para a caminhada evolutiva das almas submissas aos grilhões da culpa, adquirida no mau uso da liberdade.

Muita vez, para alcançar semelhante estágio, a criatura precisa padecer longamente até saturar-se no “cansaço espiritual”, passando a nutrir algum desejo de melhora e progresso em novas linhas de crescimento para Deus.

Três são os traços que caracterizam o arrependimento: desejo de melhora, sentimento de culpa e esforço de superação. Se tirarmos o esforço de superação dessa sequência, teremos o cruel episódio mental do remorso, ou seja, os arrependidos que nada fazem para se melhorar. As tendências mais marcantes dessas experiências interiores podem ser percebidas em algumas manifestações de “dor psíquica corretiva", que se diferencia da "dor psíquica expiatória". O arrependimento impulsiona, o remorso estagna. Esses três traços psicológicos e emocionais que determinam o ato de arrepender-se passam por metamorfoses infinitas, conforme a personalidade que o vivencia. Destaquemos alguns caminhos mais comuns dessa sua transmutação íntima para facilitar o entendimento de suas manifestações:

O desejo de melhora no estágio em que nos encontramos está, quase sempre, sob o jugo da vaidade e pode expressar-se por mecanismos psicológicos variados. Desejar melhorar é ter que reconhecer a própria penúria moral, assumi-la livremente em razão do idealismo nobre. É doloroso o encontro com as sombras interiores, mesmo quando queremos sinceramente nos ver libertos delas.

O impulso para crescer espiritualmente para nós é um desafio de proporções sacrificiais. Chamemos de "neurose de perfeição" ou perfeccionismo a necessidade obsessiva de fazer o bem com exatidão, uma profunda inaceitação de suas falhas e as dos outros, gerando melindre e intolerância, face ao nível de exigência e cobrança para consigo e com o mundo à sua volta. A angústia decorrente do contato com o ego, o homem velho que queremos transformar, leva a ativar mecanismos de defesa para "acobertar" essa inferioridade que detectamos em nós; então entra em ação o orgulho, criando uma falsa imagem, uma imagem idealizada com a qual procuramos nos forrar de ter que olhar e admitir a pequenez da qual somos portadores. essa luta nos recessos dos sentimentos e do pensamento traz à baila o conflito, a insatisfação e todo tipo de incômodo interior, deixando a vida íntima em estado de intensas comoções e mudanças. Damos o nome de sentimento de culpa a todo esse conjunto de reações emocionais, quase sempre "indefiníveis" para quem os sofre.

O sentimento de culpa tem camuflagens e nuanças muito versáteis. Deixemos claro que em nosso estágio de aperfeiçoamento podemos tomá-lo como um fator de impulsão para a melhora. Se a criatura arrependida não sentisse culpa, hão garantiria a continuidade de seu progresso e desistiria, optando pela loucura ou pela queda moral. Digamos que a culpa é uma energia intrusa, porém, necessária na sustentação do desejo de melhora. Jamais tomem-la, no entanto, como essencial, porque é um sentimento aprendido, um resultado de vivências anteriores e não uma virtude com a qual tenhamos sido criados. Suas manifestações podem ser percebidas na autopunição, no sentimento de desmerecimento e desvalor, nas fantasias de carma e dor, nas posturas de vítimas da vida, na inconformação, no azedume sistemático, nas crises de autopiedade ou ainda nos hábitos da lamúria e da queixa. É só estudar com atenção e perceberemos as relações entre esses processos de culpa e o orgulho que gerencia os mecanismos de defesa como, por exemplo, a “projeção”, que se constitui de transferir para fora aquilo que não estamos suportando em nós mesmos, constatando nos outros o que não queremos ver em nossa intimidade.

O esforço é a ação que promove o equilíbrio no processo do arrependimento. Não existe arrependimento real sem reparação. Querer melhorar, sentir-se culpado e nada fazer é muito doloroso. Eis aqui a importância dos serviços de amor ao próximo que alivia e consola alguém, mas que também estabiliza os níveis energéticos de quem o realiza. É comum verificarmos companheiros de ideal doutrinário orando compungidamente e indagando o que falta para sentirem-se melhor e mais felizes, considerando que estão no esforço educativo e no trabalho do bem. Oram sofregamente e com certa dose de desespero, sem saber as razões de seus sentimentos de culpa, insatisfeitos com a sua realidade inferior diante de tanta luz que possuem no cérebro com os conhecimentos espíritas. Todavia, assinalemos, a quantos vivem esses instantes de angústia e solidão das experiências evolutivas, que esse é o caminho dos arrependidos. A felicidade vem logo a seguir quando se consegue superar as refregas, sem desistir dos ideais. Sem exageros, digamos que esses estados doridos assemelham-se a uma “loucura controlada”. Especialmente os corações dotados de sensibilidade mediúnica os padecem com larga intensidade de dor. Só existe uma solução: a oração do alívio seguida da perseverança libertadora.

Sofrem muito as almas arrependidas, eis as razões dos sofrimentos dos verdadeiros espíritas!

Temos o desejo da melhora, mas o orgulho afeta a imaginação levando-nos a crer que já estamos redimidos com poucos esforços, cria uma sensação de que já somos o que deveremos ser, gerando a auto-suficiência espiritual, ou seja, hábitos milenares de presunção do conhecimento aliado à crença estéril causando-nos agradável sensação de superioridade, uma falsa superioridade...

Se observarmo-nos, com cuidado, veremos que desejamos o bem, mas ainda não o sentimos. Desejamos esclarecer, mas não sentimos alegria em estudar. Desejamos união, mas não sentimos bem na presença de qualquer pessoa.

Um ufanismo ronda nossos passos, e nada de especial temos para apresentar ao Pai na nossa condição de Filhos Pródigos senão o arrependimento. Não equivoquemos com virtudes e credenciais... o arrependimento, embora se possa contestar filosoficamente, é uma virtude por se tratar de um estado essencial para o progresso de almas que peregrinaram intensamente pelo mal.

Somos apenas espíritos arrependidos; ativos no bem face ao remorso que nos sensibilizou; cansamos do mal; lamentamos os erros cometidos.

Nada mais somos, os espíritas verdadeiros, que almas profundamente desejosas de recomeçar. Porém, entre os ideais novos e nosso destino de paz interior está a milenar bagagem que organizamos na "maleta das experiências" inferiores, o orgulho. Por isso, em muitas ocasiões, a despeito de cansados e arrependidos, ainda ensaiamos algumas "peças" no teatro da vida querendo passar por quem ainda não somos, adornando-nos de virtudes que ainda não possuímos e ansiosos de que os outros acreditem nessas ilusórias conquistas.

Em razão do personalismo, confundimos a luz que existe no Espiritismo com a luz que imaginamos deter, ostentando qualidades que começamos a desenvolver primariamente. Cegos para nossa real condição, mesmo cansados de sofrer, ainda queremos ser quem não somos, razão pela qual somente no espírito da lídima humildade as almas que arrependeram encontrarão descanso e um pouco de paz interior. Por isso não permitamos nos enganar com virtudes que ainda não conquistamos, guardando a certeza de que evitar o mal é uma parte do retorno para Deus, porque o que realmente nos conferirá autoridade e paz perante a consciência será o volume e a qualidade do bem que fizermos o quanto antes.

Em Lucas, capítulo quinze, versículo sete, O Sábio Nazareno enalteceu a conquista do arrependimento dessa forma: "Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento".

Ave a humildade! Lembrai-vos disso, todos os que se encontram em luta sob o guante das dores psíquicas.

sábado, 4 de julho de 2020

Obsessão e Orgulho

Livro: Mereça Ser Feliz
Autora Espiritual: Ermance Dufaux

Capítulo 25

“Todas as imperfeições morais são outras tantas portas abertas ao acesso dos maus Espíritos. A que, porém, eles exploram com mais habilidade é o orgulho, porque é a que a criatura menos confessa a si mesma”.

O Livro dos Médiuns – Capítulo 20 – Item 228

A obsessão é um fenômeno da vida mental independente da mediunidade. Podem ser obsidiadas quaisquer pessoas, desde que haja um processo de domínio mente a mente. Conquanto essa seja uma verdade clara e assentada no princípio natural das leis vibratórias, costumeiramente associa-se a presença da obsessão somente naqueles que são portadores de faculdades extra-sensoriais.

Nos médiuns, graças à sua facilidade de captação que foge da escala comum das percepções humanas, podem ser verificadas com maior ostensividade nos seus efeitos e associadas aos transtornos mentais e desequilíbrios de conduta.

Contudo, essa patologia espiritual expressa-se de formas subliminares em quem não possua a sensibilidade mediúnica, tornando-se um quadro de difícil diagnose pelas expressões sutis que alcança. Existe uma “loucura silenciosa” ou “loucura controlada” acometendo muitas criaturas - fortes indicadores da presença de um adversário que torpedeia os campos do pensamento e do sentimento.

Como sempre, a base para a existência da obsessão é a presença de um elo justificável entre quem se encontra no corpo e quem se encontra na erraticidade. Pode ser um insucesso de outras vidas, um vício do presente, uma busca comum de ideais inferiores, uma sintonia decorrente de más escolhas, um interesse partilhado por ambos e outras tantas causas que unem as almas na paixão e na vingança, no ódio e no egoísmo, gerando dependência e posse.

Considerando a realidade espiritual dos habitantes da Terra, raramente alguém estará totalmente livre de um acometimento psíquico pelas malhas da obsessão, ainda que esporadicamente. Os hábitos, as tendências e o estilo de vida do homem facilitam esse contato, atraindo para perto de si os espíritos que ainda se apegam aos costumes sociais. Assim, a alimentação, a diversão, o sono, a vida social e familiar, as profissões, a formação escolar e tudo que envolva as atividades humanas na sociedade sofrem o cáustico das frequente explorações espirituais de natureza enfermiça.

Equívoco enorme será pensar a obsessão apenas como lago escandaloso e de proporções evidenciáveis. Existem interferências obsessivas muito particulares e únicas, conforme os temperamentos e a trajetória evolutiva das almas que dela fazem parte.

Até mesmo nas tarefas doutrinárias encontramos aspectos muito graves dessa enfermidade da vida mental.

Os centros espíritas tem se tornado um "enxame de almas" nos dois planos da vida em razão de sua maior procura para solucionar problemas e doenças, que não encontraram respostas em outros valorosos caminhos.

O amor, mesmo sendo a divina virtude da vida, compra-nos a inimizade e a revolta naqueles corações fora do corpo, porque buscamos beneficiar suas vítimas em nossas tarefas de alívio e orientação. É da Lei que o sacrifício faça parte de algumas vivências daquele que ama, a fim de poupar temporariamente o sofrimento de quantos estejam abatidos sob o peso das lutas provacionais de cada dia. É quando então o trabalhador do bem é convocado a assumir parte do ônus psíquico do outro,  em nome da caridade que amenizará a dor e a tormenta alheia. Naturalmente, esse processo obedece ao controle da Divina Providência, mas os amigos espíritas necessitam ter um tanto mais de atenção no monitoramento e na ampliação de sua visão acerca das responsabilidades que assumiram na lavoura doutrinária, para não acolher como sendo suas as induções de desânimo e deserção que muito frequentemente advém de semelhantes episódios do labor fraternal.

Sentimentos variados ou quadros psíquicos incomuns e estranhos poderão surgir como reflexos das presenças espirituais que estão se beneficiando das realizações doutrinárias.

Temos um orgulho sutil, o de achar que não seremos obsidiados porque estamos no trabalho do bem e do amor. Outros, porque nunca viram ou ouviram nada de “sobrenatural”, desconhecendo os sensíveis mecanismos da vida paranormal, asseveram que se encontram livres e protegidos de semelhantes sintonias espirituais infelizes. Esse é um conceito muito dogmatizado para os assuntos da vida espiritual: crer-se protegido a troco de algumas “penitências”, uma reminiscência do religiosismo milenar.

A lógica espírita ensina-nos exatamente o oposto. A resistência moral e a maturidade só serão alcançadas à custa de muito esforço e na medida de nossa capacidade individual de vencer a nós mesmos, embora alguns corações embevecidos pelo ideal da transformação de si mesmos esperam, ingenuamente, a “harmonia de empréstimo” ou “transformação por osmose” através de orações, tarefas, passes e outros benefícios de fortalecimento. Decerto a misericórdia nunca escasseia e ampara a todos por esses meios, mas não pode em tempo algum mimar nossos pedidos para que não acostumemos a receber sem manifestarmos a decisiva coragem de enfrentar-nos.

Harmonia interior é o fruto sadio da valorosa semeadura de esforços auto-educativos exercidos no cumprimento fiel dos roteiros de crescimento.

Nesse prisma a obsessão é teste de aprimoramento e reeducação.

O pensamento fixo, as decepções prolongadas que se tornam mágoas, o rancor que guardamos por alguém, as tendências que lutamos para superar, as intenções desonestas e ocultas, o interesse pessoal à custa de prejuízo de alguém, os gestos menos felizes, o excesso de velocidade no trânsito, a intransigência em não aceitar as faltas alheias, a presunção de supor-se o melhor em tudo, a irredutibilidade nas opiniões pessoais, a fofoca, o costume de enxergar pontos negativos na tarefa do próximo, a indisposição para o perdão, o vício de prestígio, os sonhos de vida fácil na abundância material, a preguiça e a ociosidade, o atraso nos compromissos, a indiferença com a diferença do outro, o excesso de alimentação, o imediatismo para alcançar metas, o apego à televisão, o relax pelo alcoolismo, o excesso de trabalho são pequenas portas abertas diariamente para a instalação de um processo obsessivo que pode ou não ter uma sequência a níveis mais acentuados de domínio e intensidade.

Será muita pretensão e inexperiência pensar que a devoção aos ideais ou tempo de experiência serão suficientes para livrar-nos da possibilidade das interferências obsessivas. Mais uma vez o orgulho comparece trazendo-nos prejuízo nessa questão.

A ingerência ardilosa dessa imperfeição na vida mental provoca um bloqueio que impede a auto-análise sincera e desprovida de defesas, no contato livre com a intimidade de nós próprios.

O personalismo, filho predileto do orgulho, arquiteta uma imagem exageradamente valorizada de nossas qualidades e conquistas, e quando somos convidados a uma incursão no mundo íntimo, através de críticas ou situações que nos obriguem a admitir a presença de determinada imperfeição, esquivamo-nos de todas as formas, não as confessando a nós mesmos e quanto mais aos outros.

Esse mecanismo sutil do orgulho cria dotes que não possuímos, mas que, obstinadamente, imaginamos possuir.

O orgulho não deixa de ser uma defesa para nossa angústia básica, a angústia que decorre da nossa insatisfação em conhecer a inferioridade da qual ainda somos portadores e que tentamos camuflar e esquecer a todo custo.

Não se admitir em erro ou isento das interferências de adversários do bem é uma atitude invigilante e perigosa que, por si só, já é uma porta aberta para o acesso dos maus espíritos.

Examinemos cuidadosamente nossas ações. Admitamos e estudemos como superar a inveja, a vaidade e a pretensão em nossas vidas, especialmente entre companheiros do ideário espírita, se desejamos verdadeiramente encontrar as pistas deixadas pela personalidade orgulhosa que está dentro de nós em contínua fuga para não ser capturada.

Fujamos da capas com as quais queremos esconder os conflitos e sentimentos.

Humildade é a láurea de segurança para quantos anseiam por êxito nos seus investimentos de aperfeiçoamento.

Nós espíritas estamos precisando de muita coragem; coragem para ser humildes, confessar nossa condição, ouvir nossa consciência, conhecer nossas obsessões e trabalhar produtivamente para erradicá-las.

Prossigamos confiantes nessa busca.

sábado, 27 de junho de 2020

Silenciosa Expiação

Livro: Mereça Ser Feliz
Autora Espiritual: Ermance Dufaux

Capítulo 24


"Fazer maior soma de bem do que de mal constitui a melhor expiação".

O Livro dos Espíritos – Questão 770 A


Todo esforço de transformação interior gera reações penosas no controle dos impulsos do automatismo. Renovar é uma operação mental de contrariar a rotina, o habitual, gerando incômodos e dores variadas. São as dores psíquicas, dores íntimas. Efeitos naturais da ação transformadora, constituindo verdadeira expiação, silenciosa expiação.

O vulcão é o fenômeno natural que melhor recorda esse estado de convulsões interiores na criatura em reforma espiritual. Um estado de agitação nas “lavas mentais incandescentes” que queimam as ervas daninhas do mal no calor das altas temperaturas do conflito e da dor.

A mudança interior significa o desapego de símbolos, mitos, costumes, ações e emoções. Essa ação leva a sentimentos de perda que se assemelham a verdadeiras “amputações psíquicas e afetivas”, causando, inicialmente, muita insatisfação, insegurança e revolta. Naturalmente, no caso da transformação à luz das propostas espíritas, a criatura é convidada a uma “perda do homem velho” para fazer a “aquisição do homem novo”, jamais permanecendo sem ideal, sem vida. Essa mudança, aliás, tem como único propósito nossa adesão consciente e espontânea à verdadeira fonte de vida e felicidade: a harmonia com o Pai que nos criou.

Certamente alguns quadros mentais, incluindo doenças, podem conjugar-se aos efeitos do processo de reforma íntima, agravando ainda mais os episódios de sofrimento daquele que optou por tomar conta de seu patrimônio espiritual. Entre esses quadros vamos encontrar as questões traumáticas da infância, o estresse, as depressões, as influências espirituais, as recordações do passado em forma de tendências e ideias. Todavia, independentemente da natureza patológica da dor, chamemos de "pressões psíquicas" essas dores aparentemente inexplicáveis e catalogadas por muitos psiquiatras humanos como desajustamento ou fragmentação da personalidade.

Particularmente, os portadores de sensibilidade mediúnica percebem mais facilmente tais fenômenos da vida mental, sofrendo com mais intensidade esse doloroso "expurgo vibratório" sob intenso "estado de pressão", conquanto sua aptidão também permite exonerar níveis mais volumosos dessa "matéria deletéria" de seu cosmo orgânico e perispiritual.

Destaquemos alguns sintomas típicos desse mecanismo sutil do mundo mental que ocasiona a dor-evolução:

- Estado íntimo de desconforto e desassossego quase permanente.

- Sensação de perda de controle sobre a existência.

- Preocupação inútil sem causas justificáveis.

- Desordem nos raciocínios.

- Conflitos afetivos sem participação da vontade.

- Tendências acentuadas para a culpa.

- Processos físicos de drenagem de energias.

- Ansiedade de origem desconhecida.

- Medos incontroláveis de situações irreais.

- Irritações sem motivos claros.

- Angústia perante o porvir com aflição e sofrimento por antecipação.

- Excesso de imaginação ante fatos corriqueiros da vida.

- Barreiras emocionais na relação interpessoal.

Perda do controle de si, causando um desespero mudo na vida interior! Um desespero silencioso e cansativo! Nisso se resume esses sintomas.

A reforma íntima é um período de transição em que deixamos de ser "donos" daquilo que não nos convém para aprendermos a nos apropriar daquilo que sempre foi nosso, mas nunca optamos por tomar conta. Nessa transição, o ser sente-se ostensivamente inseguro e infeliz.

É um sofrimento muito sutil, que dificulta para a maioria das criaturas uma identificação plena do que ocorre consigo mesmo. Somente as incursões constantes e perseverantes na auto-análise ensejarão, pouco a pouco, o discernimento e a constatação de semelhante prova da vida íntima. É tão sutil que muitos corações “acostumam-se” com os traços expiatórios descritos, supondo serem imperfeições integrantes da sua personalidade, quando, em verdade, são reflexos e efeitos que podem perfeitamente ser educados e extirpados no tempo, utilizando-se adequadamente as forças íntimas que dormitam à espera da vontade ativa e consciente.

A intensidade dessa expiação tomará graus diversos, conforme os compromissos e qualidades de cada individualidade, nunca ultrapassando o limite das forças de resistência e de sua capacidade de superar. Para uns será um período curto e inesquecível. Para outros terá um prolongamento em razão de sua rebeldia em aceitar os convites de renovação a que é chamado. Outros tantos, mesmo aceitando os alvitres da reforma, necessitam de um esticamento face ao volume de “matéria mental mórbida”, acumulada em milênios de repetição no erro, que vai escoando lentamente de seu psiquismo.

Passada a etapa de maior conflito, vem a calmaria, a condição mental de paz e tranquilidade para mais amplos voos de ascensão. Lavrada a terra mental é hora da semeadura produtiva. Passada a dor é tempo de maiores responsabilidades no trabalho. Essa exoneração é apenas o começo de uma longa caminhada, e sem ela o homem não se habilita aos requisitos para assumir com proveito as oportunidades na marcha do progresso, ante a coletividade na qual está inserido. Primeiro cuida de si, mesmo estando servindo ao próximo, posteriormente terá mais êxito e experiência para penetrar no desconhecido mundo do outro e auxiliar-lhe com o consolo e o roteiro, fazendo da caridade um ato de libertação e amor.

Ao descrevermos a silenciosa expiação, objetivamos esclarecer, a quantos estejam buscando os novos ideais espirituais de crescimento, que algumas disciplinas tornam-se insubstituíveis e urgentes, a fim de amenizar o ardor da batalha interior. Queremos recordar a menosprezada terapêutica da prece. Menosprezada, porque não é usada com a utilidade e proveito que se poderia, inclusive pelos próprios espíritas que possuem largos  conhecimentos sobre seu valor.


A prece é um bombardeio de luz rompendo o campo tóxico da aura e alcançando o corpo espiritual nesse caso das expiações interiores. É uma limpeza provocada por impulsos “mento-eletromagnéticos” na corrente dos chacras e dos nadis (1), restaurando o equilíbrio e causando uma agradável sensação de sossego na intimidade. Alívio, esse é o melhor efeito da oração. Mas a prece também descortina forças sublimes no superconsciente, energias ainda ignoradas por nós e que são capazes de tonificar o corpo e a alma.  Além disso, ela recolhe no universo do fluido cósmico  a "matéria rarefeita" que resulta do pensamento dos espíritos superiores, armazenando farto suprimento de "flocos de saúde e vitalidade".


O problema que costuma ocorrer na aplicação da terapia da oração é que o doente não se lembra de tomar a medicação na hora exata em que dela mais necessita. E não podemos deixar de assinalar que, no caso das "dores psíquicas", toda dose adicional será sempre um benefício a mais na preservação da qualidade de vida do paciente. É uma questão de disciplina e cumplicidade com o bem pessoal.

Excelente abordagem das Vozes da Verdade: "Fazer maior soma de bem do que de mal constitui a melhor expiação".

O simples fato de desejar o bem dói muito, porque nosso desejo é sincero. Entretanto, entre o desejo e nosso passado existe um "monturo" de imperfeições a ser removido com muito trabalho. Um "monturo" que apresenta todas as condições insalubres para uma vida saudável e equilibrada, mas somente quem o construiu poderá transformá-lo em terra rica para o plantio sublime. Transformar o lixo em adubo fertilizante, essa é a tarefa.

Para nós que nos afastamos da Lei Divina será sempre assim: o bem tem um preço alto na conquista da felicidade!

Apesar disso, jamais desistamos de buscá-lo com muita humildade no reconhecimento de nossa verdadeira condição. Deus não faltará com o indispensável para esse projeto de ser feliz, beneficiando-nos sempre com o que merecemos ou precisamos.

1. Nadis: Canais de condução de energia no corpo vital, "nervos sutis". Também conhecidos como meridianos, são como pequenos chacras.

sábado, 20 de junho de 2020

Fuga do Mundo

Livro: Mereça Ser Feliz
Autora Espiritual: Ermance Dufaux

Capítulo 23

"Não julgueis, todavia, que, exortando-vos incessantemente à prece e à evocação mental, pretendamos vivais uma vida mística, que vos conserve fora das leis da sociedade onde estais condenados a viver. Não; vivei com os homens da vossa época, como devem viver os homens. Sacrificai às necessidades, mesmo às frivolidades do dia, mas sacrificai com um sentimento de pureza que as possa santificar."

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 17 - Item 10

Fuga do mundo! Fenômeno comportamental que vem avassalando alguns companheiros beneficiados com o conhecimento espírita. Sua característica mais marcante é a de querer conviver somente entre companheiros de idealismo, com extrema limitação para entender perfis éticos e sociais que destoem da "performance doutrinária-evangélica".

Afora os conflitos naturais, sofridos em razão da necessária adaptação do homem depois que toma contato com as diretrizes espirituais,podemos classificar essa fuga do mundo, quando se torna persistente e sistemática, como verdadeira inconformação com as vicissitudes corporais.

Cataloguemos tal episódio da vida mental de "síndrome de além túmulo" pelo motivo de ser a vida espiritual o "objeto de desejo" de semelhantes casos.

A "síndrome de além túmulo" pode ser classificada como um comportamento neurótico de transferir para um "mundo ideal" as esperanças e expectativas do dia a dia no mundo real. É uma fuga, uma transferência como mecanismo de defesa de questões íntimas não resolvidas e dolorosas, resultantes principalmente de frustrações e insatisfações para o homem encarnado. Faz-se algo hoje pensando em colher na imortalidade, no futuro, sem nutrir-se dos benefícios dessa ação no hoje e no agora, vivendo um mundo imaginário “desconectado” dos sentimentos. Seu traço principal é a negação dos prazeres humanos com os quais seu portador carrega sofríveis desajustes. Apresenta-se esse conflito interior com variados assuntos como a riqueza, a beleza, a inteligência, a virtude e outros temas existenciais; por isso é comum projetar julgamentos estereotipados e repreensivos à conduta alheia, exatamente naqueles embates que a criatura carrega.


Doentio nesse lance da vida mental é a suposição que se elabora para si mesmo sobre os futuros frutos que obterá na vida dos espíritos, simplesmente pelo fato de “aguentar resignadamente” as dores pelas quais vêm passando, quando tais dores nesse tipo de vivência são desajustes de inaceitação e rebeldia, provas morais adicionais e distante das provas reais, ante os quadros de aferição terrena a que todo espírito reencarnado está submetido com mais ou menos intensidade.


O conhecimento espírita para agregar valor espiritualizante precisa ser contextualizado, ou seja, adequado à vivência prática de quem o possui, respeitando sua individualidade, seus problemas e suas qualidades. O acúmulo de informações, sem a devida renovação da experiência de viver e conviver, poderá, em algumas situações, servir ao interesse pessoal na sutil fuga dos deveres que a Terra “impõe” como planeta expiatório.

Abençoada é a literatura espírita, mas a cultura humana, que é construída a partir das informações e experiências entre os homens, transportou com certo exagero as avaliações de boa parte dos adeptos espíritas para o mundo espiritual, as existências passadas e a influência dos desencarnados. É a velha dicotomia passado, presente e futuro no campo da fragmentação da “realidade mental”.

Verdadeiramente, o presente é a nossa realidade, contudo o atavismo do reino dos céus, ressumando do passado conjugado às esperanças futuras na vida extrafísica, determina ampla soma de desencontros com as desconfortáveis experiências que todos temos que passar para aquilatar valores e vencer imperfeições.

Essa “síndrome”, portanto, gerou uma cultura de supervalorização das questões do mundo extrafísico trazendo como consequência a negação da relação com o mundo físico.

Três são os resultados éticos e emocionais de semelhante postura
mental:

- A transferência de responsabilidade sobre os insucessos pessoais, imputada a espíritos e carmas.

- Negação do passado da atual existência pela camuflagem de medos, frustrações, desejos, culpas e sentimentos; são as máscaras emocionais.

- Foco dos pensamentos centrado no tipo de relações sociais da colônias de além túmulo contidas na literatura espiritista.

Ante essa cruel vivência da vida interior, torna-se escassa a auto-estima, enfraquece-se o desejo de progresso e espera-se resultados ótimos na vida além túmulo, pelo simples fato de apenas pertencer à fileiras de serviço ou frequência das casas doutrinárias, como se assim todos os problemas estivessem solucionados. E quando encontra decepções e surpresas desagradáveis na própria convivência com os companheiros de tarefa, melindra-se ostensivamente, afogando-se em mágoas e deserções irrefletidas, supondo que "novos carmas" surgiram para elevá-lo ainda mais na escala de sua suposta ascensão!

Muita oração e paciência requisitam tais corações em nossas fileiras. São doentes graves e podem carecer de tratamentos especializados dos ramos da psique, quando essas desarmonias são persistentes e progressivas.

Evita, desse modo, fugir de teu mundo. Não espere um grupo de cooperadores Celestes na esfera de tuas ações espíritas, relegando o trabalho educativo de ti mesmo ao preço da insipiência e descuidos alheios.

Os dirigentes conscientes e comprometidos ensejem um ambiente doutrinário que conecte o tarefeiro com seu mundo, interagindo sempre o centro espírita com a sociedade e seus problemas, fortalecendo seus irmãos para viverem no mundo sem serem do mundo, e para serem espíritas sem desejarem ser anjos"...

Vemos assim mais uma faceta sutil das batalhas do espírita na Terra que apela com urgência para a arregimentação dos grupos espíritas mais humanos e acolhedores; grupos que saibam estender mãos e coração a essas desarmonias provacionais, tonificando o necessitado de forças novas e soluções realistas e libertadoras; grupos que tenham competência de demonstrar socorro e rota a quem lhes busca, independentemente da natureza de sua problemática, de educar para entender que cada criatura é o arquiteto de seu destino, o construtor de sua felicidade, apontando-lhe o estudo e o trabalho indispensáveis para seu reajustamento ante as dores do mundo.

Indispensável constatar que semelhantes grupos só podem ser construídos se seus condutores forem criaturas que vivam o mundo da realidade física com coerência e possuam respostas para os conflitos humanos, porque as buscaram para superar suas próprias lutas íntimas. O bom dirigente é aquele que passa experiência e expõe seus caminhos sem, contudo, acreditar que eles sejam os melhores ou que vão servir para todos.

Certamente, conquistando a harmonização afetiva consigo mesmo, o homem conseguirá sentir com mais exatidão e realismo a vida que o cerca, seu pensamento refletirá a nobreza dos seus desejos, as atitudes falarão de sua compostura moral e, então, ele assumirá suas responsabilidades com mais empenho e dedicação, aprendendo a amar a todos e a tudo como são e estão, por sua vez prosseguindo seu caminho de compromissos com a consciência, inderrogavelmente, praticando o bem sem cessar, o que nos faz recordar a sábia alocução entre Allan Kardec e os Espíritos Superiores, assim descrita na questão 642 de O Livro dos Espíritos:

“Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?”

“Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem.”

§§§§§

Companheiros da jornada carnal,

a Terra é uma universidade prodigiosa para nossas necessidades. Fugir de contribuir com o progresso e o crescimento desse planeta é ingratidão e inconsciência. Para almas em nosso estágio, nós que já recusamos o mal, mas ainda temos o desejo do bem embrionário, ela é farta despenseira de bênçãos.

Aprendamos a amar as leiras terrenas.

Conquanto os conflitos que carregamos, mesmo com os anseios não satisfeitos, inconformados com as lutas e com tendências para a “reclusão opcional”, sigamos sempre o ideal da melhora, cultivando resignação ativa sem acomodar, ampliando os sonhos sem deixar de trabalhar e esforçar. A desistência ou a fuga fazem-nos jornadeiros insensatos e desculpistas, covardes e indiferentes à riqueza da vida.

A insatisfação crônica não será remediada com vida ascética e puritanismo, porém com nobre devoção ao dever, levando-nos, paulatinamente, a redescobrir a alegria de viver e o fulgor glorioso da paz através dos sacrifícios em equilibrar-se, enfrentando nosso infeliz passado onde se encontram as causas reais das dores que nos atormentam.

Vigiemos a conduta para não transportarmo-nos para as compensações ilusórias das viciações ou na aceitação desonrosa de "vender a alma" a novas formas de prazer, nas derrapagens morais da corrupção no ganho fácil.

E jamais esqueçamos, em tempo algum, que a solução definitiva da "síndrome de além túmulo" será aprender a amar a oportunidade do renascimento, por mais escassez e dureza nas provações, fazendo o melhor que pudermos e com muita fé na abundância da misericórdia de Deus...

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Desafio Afetivo

Livro: Mereça Ser Feliz
Autora Espiritual: Ermance Dufaux

Capítulo 22

"Podem dois seres, que se conheceram e estimaram, encontrar-se noutra existência corporal e reconhecer-se?"

"Reconhecer-se, não. Podem, porém, sentir-se atraídos um para o outro. E, frequentemente, diversa não é a causa de íntimas ligações fundadas em sincera afeição. Um do outro dois seres se aproximam devido a circunstâncias aparentemente fortuitas, mas que na realidade resultam da atração de dois Espíritos, que se buscam reciprocamente entre a multidão."

O Livro dos Espíritos - Questão 386

Ímpetos de afeto repentinos com essa ou aquela pessoa irromperão inúmeras vezes face aos complexos automatismos pertinentes ao mundo do coração, contudo, constituirá isso motivo para fuga e temor? Certamente que não, pois que, em verdade, a vida nessas ocasiões conclama-nos a mais amplos voos na busca da maturidade no difícil aprendizado de transformar paixões em valores de libertação da alma, quais sejam a fraternidade, a alegria de conviver, a felicidade de amar sem possuir e depender.

Apreciar a beleza, gostar da companhia, exaltar as qualidades ou surpreender-se com a cultura são reações naturais ante aqueles que apreciamos. O cuidado nesse assunto deve situar-se nos sentimentos que permitimos ebulir a partir desses encantamentos passageiros.

Nas experiências da afeição assenhoreia-se, frequentemente, um fenômeno de negação dos sentimentos, adornando-se de atitudes de aparente equilíbrio, sendo que, intimamente, em muitos lances, a criatura está amargando dolorosa prova no silêncio do mundo afetivo "amando perdidamente" alguém, impingindo impiedoso freio às atrações, às fantasias e aos pensamentos. Repressão, porém, não basta para educar.

Uma das maiores fontes da infelicidade humana é não entender a linguagem dos sentimentos. As gerações do alvorecer do terceiro milênio sabem comunicar com países distantes em línguas diversas, mas não conseguem decodificar as mensagens de seu próprio mundo emocional, mantendo-se reféns de muitos processos que lhes imputam dolorosas vivências.

No terreno da vida afetiva, observa-se na atualidade um drama de proporções gigantescas que tem dilacerado almas honestas através de silenciosa expiação. Particularmente o coração feminino, graças à maior sensibilidade, tem resvalado para esse pântano de dor e desespero. Trata-se da prova afetiva. A criatura que devotou seu amor a alguém em legítima entrega e fidelidade vê-se, de hora para outra, sem qualquer explicação justificável pela lógica, com fortes apelos de atração por alguém fora da união esponsalícia.

Inicialmente, tomada por agradável encantamento, permite-se fruir a fantasia e a emoção, para depois, em instante de reflexão e siso, tomar-se de intensa culpa. Posteriormente vem a fase do pânico e do desespero, por analisar a situação em pauta como sendo o fim de todo um investimento de esforço e devoção na vida familiar. Acredita que tenha “acabado o amor”. Sofre em silêncio e sem coragem de dividir seus sentimentos com alguém. Imagina-se apaixonada por outra pessoa e sente tremenda hipocrisia. Verdadeiro desafio afetivo prenuncia uma etapa de experiências repleta de insegurança e tristeza. Novamente na presença da pessoa por quem sentiu essa repentina paixão, ficará desconcertada e completamente à mercê das ocorrências. Se o outro for alguém na mesma situação ou perceber-lhe o estado interior, a prova é ainda mais agravada.

Os dias prosseguem e a falta de habilidade em lidar com o mundo do afeto instala um quadro de solidão emocional, tombando para múltiplas manifestações que poderão chegar ao ciúme, irritação, depressão e revolta. Adversários espirituais cruéis na espreita poderão incendiar-lhe os costumes e promover a desordem do comportamento.

Essa leitura errônea da linguagem dos sentimentos tem provocado infelizes dramas passionais na humanidade. A deseducação para o trato com a vida emocional é, sem dúvida, uma tragédia social.

Depois de milênios na poligamia, o sistema afetivo sofreu agressões consideráveis que criaram lesões e feridas profundas. Traumas e conflitos, vingança e decepções, mágoas e traições, quase sempre, foram as escolhas da maioria dos homens nas experiências da vida a dois em regime de infidelidade, posse e dependência.

Portanto, é concebível que na atual vivência conjugal alguém sinta em dado instante algum tipo de atração não conveniente ou algum impulso repentino de aproximação e permuta. Isso em absoluto significa que o amor votado a alguém tenha acabado ou que se esteja em traição. O caleidoscópio dos sentimentos é algo imprevisível e regido por complexos mecanismos da mente, colocando a criatura diante de si messa. E sempre que necessário, tal mecanismo convida a retificações no mundo interior, à educação do afeto de profundidade, cujas nascentes encontram-se nas vidas pregressas. Emerge então, ao consciente, forças ignoradas da criatura apelando para a sublimação através dos corretivos da disciplina, da oração e da conduta reta.

Não é o fim de nada. Pelo contrário, é o início de novas lições. Decerto haverá incômodos e aflição, mas essa é a razão dos estágios depurativos na matéria, melhoria pelo autoconhecimento.

Outras causas adicionais ou coadjuvantes desse processo educativo da afetividade são os reencontros com almas com as quais já se partilhou instantes de ternura e permuta erótica, ou simplesmente a complementação magnética no terreno das expectativas que se carrega na escala dos anseios ocultos.

Pouco importando as origens, é preciso a quem passe por esse teste afetivo muita sinceridade consigo mesmo, conhecer melhor sua vida sentimental, buscar confidenciar seu drama com quem tenha maturidade e êxito no casamento e procurar rogar a Deus maior compreensão acerca do ignorado mundo do coração.

Alguns casos mais graves, havendo persistência e surgindo ímpetos incontroláveis, será imperativo o auxílio profissional, a tarefa de atendimento fraternal nas casas espíritas e, possivelmente, o socorro mediúnico com integração mais responsável junto às frentes de serviço ao próximo.

Devemos ainda acrescer que nem sempre essas fortes atrações representam passagens malsucedidas em vidas anteriores, podendo mesmo serem velhos e bons amigos que retornam aos caminhos atuais e por quem se tenha nutrido sincera e saudosa afeição, embora, mesmo objetivando o aprimoramento, ainda assim, poderá confundir suas reações emotivas filtradas conforme as viciações adquiridas no tempo, tendendo a entreter laços menos nobres com quem lhes causa tanto bem-estar nos roteiros da afinidade. Saber o que se passa conosco nessas ocasiões será um avanço em termos espirituais, permitindo-nos situar na postura adequada de proximidade sem intimidade.

Da mesma forma, toda vez que surjam desafeições, antipatias, desagrados, desgostos, repulsa e rejeição em relação a alguém, devemos mergulhar nas águas abissais do mar subconsciente e buscar conhecer as “espécies” viventes nessa imensidão de valores e imperfeições, da qual todos somos portadores. Nesse universo ignorado surgirá, certamente, a pérola reluzente da felicidade que tanto desejamos em meio às ostras de nossas dores de cada dia.