terça-feira, 20 de setembro de 2016

Conclave de Líderes - Parte 2

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 30

(CONTINUAÇÃO de "Conclave de Líderes - Parte 1")



Após os cumprimentos finais, vimos que extensa fila de cooperadores formava um corredor indicando por onde regressariam os que estavam emancipados do corpo. Devido à condição de semitorpor, não ofereciam condições favoráveis ao diálogo, a não ser um ou outro que já demonstrava melhor habilidade nas incursões noturnas fora da vida corporal. Desfeita rapidamente aquela aglomeração, cada um retornava a seus afazeres. Rosângela, Sérgio e Pedro Helvécio, jovens com os quais sempre contávamos nas atividades do Hospital Esperança, solicitaram-­nos alguns momentos de prosa com Dona Modesta. Para nossa surpresa, quando percebemos, ela própria espontaneamente deslocava-­se da mesa onde se encontrava em nossa direção, a nos dizer:

— Teremos alcançado nossos nobres objetivos, Ermance?

— Creio que sim, Dona Modesta. O ambiente estava apropriado e, no que pude avaliar, as disposições psicológicas de nossos irmãos com a transposição do milênio, de alguma forma, infundiam-­lhes um ânimo especial para que arquivem desejavelmente a mensagem em seus corações. Precisaremos de tempo para aferir com exatidão as promessas deste momento, aguardemos. No entanto, Dona Modesta, nossos jovens, como de costume, ficaram muito motivados e querem experimentar sua vivência com algumas indagações.

— Estou à disposição.

Com sua natural curiosidade, Rosângela foi a primeira a interrogar:


— Notei certa inquietude entre os participantes nesse “estado de graça” fora da matéria. Em alguns casos, era visível o desagrado com algumas falas do professor Cícero. Como pode isso ocorrer entre os “mil escolhidos pelo Senhor” para ouvir essa preleção? Não deveriam estar alegres e demonstrado mais satisfação com a ocasião em razão da grandeza que possuem como líderes religiosos?

Ela ainda externava suas questões tomando por base a recém-­finda experiência reencarnatória nas fileiras do Protestantismo. Suas expressões ainda deixavam claras suas visões evangélicas. Seu desejo de aprender, no entanto, era enorme.

— Rosângela, minha jovem, não são “escolhidos do Senhor” e nem estão em “estado de graça”. São almas que lutam tenazmente com suas tendências. De fato, não deveriam estagiar ainda nesse psiquismo de desagrado quando ouviram as claras advertências do professor. Todavia, essas criaturas que aqui foram trazidas são os mil líderes espíritas encarnados que mais padecem de um terrível mal, o qual assola a maioria das fileiras de serviço do Cristo nas expressões religiosas de todos os tempos.

— E que mal é esse, Dona Modesta? — atalhou Rosângela, ansiosa.


— A doença da autossuficiência espiritual ou o fascínio com a importância grandiosa que muitos corações supõem possuir nos serviços de Jesus. Os amigos espíritas, especialmente os mais experimentados na arte de liderar, precisam vigiar com muita cautela o encanto que têm devotado a suas folhas de serviço. Bastas vezes confundem quantidade de tarefas e realizações com ascensão evolutiva, como se fizessem carreira nos ofícios de sua espiritualização. Ocorre que muitos corações de ideal, em todas as atividades doutrinárias, têm passado pelas tarefas sem se educarem por meio delas, e quanto mais expressivas elas são, mais aumentam os riscos de vaidade e ilusão. Temos por aqui vastos pavilhões de médiuns, divulgadores, escritores, evangelizadores da juventude, presidentes de centros espíritas, dispensadores da caridade pública, todos abençoados com as luzes da Doutrina Espírita, entretanto, sem conquistarem sua luz própria. Sufocaram-­se no orgulho com a cultura e a experiência doutrinárias e negligenciaram o engrandecimento moral de si mesmos pela reeducação dos hábitos e da aquisição de virtudes eternas. É um engano milenar da ilusão humana, ainda afeiçoada a vantagens exteriores sem a consolidação dos ensinos Cristãos no próprio coração. Como disse o Senhor: “O Reino de Deus não vem com aparência exterior” (1).

Sérgio, não contendo seu desejo de aprender e participar, externou:

— Dona Modesta, qual a principal imperfeição desses líderes que estaria redundando em problemas para os ofícios da seara?


— São excessivamente controladores por julgarem enxergar mais. Carregam consigo uma das mais antigas mazelas humanas: o desejo de serem servidos – uma faceta emocional sutil do desejo de serem amados ou da necessidade de serem queridos e aprovados pelos outros, a qual termina por ser transferida para o costume de serem bajulados e incensados pelos que os rodeiam. Esse velho monstro da alma surge sorrateiramente como um hábito doentio de ordenar e comandar pessoas, já experimentado em muitas e muitas vidas sucessivas, uma forma de satisfação do egoísmo humano. Considerando o vício de prestígio que carregam esses corações, são intensamente atraídos para posturas de destaque. Adoram os cargos e o poder e, embora possamos encontrá-­los também distantes dos títulos, estes são por eles possuídos no campo psicológico. São criaturas que realizam muito e têm significativa visão de conjunto das necessidades do movimento social em torno das ideias espíritas, apenas pecando pelo orgulho em que se inspiram por suporem possuir todas as respostas e caminhos para todas as necessidades e percalços da seara. Isso os torna úteis em certas situações e extremamente rejeitados pela arrogância em outras, quando excedem na atitude com sua suposta sapiência e grandeza. Verdadeiramente, nossos irmãos que aqui estiveram guardam conquistas apreciáveis, porém, nem sempre conseguem deixar de se enganar pelo personalismo que ainda carregam. Uma vez nessa postura, fica fácil reconhecer-­lhes as imperfeições prejudiciais ao serviço da obra cristã, porque não ouvem opiniões por julgarem ter as melhores, guardam convicções pessoais exacerbadas, não dão atenção às críticas, quase sempre decidem sozinhos, tornam-­se poucos afetivos, muito racionais e adoram mandar sem fazer, ordenar sem cumprir. O conjunto dessas características os promove a uma das condições mais inaceitáveis na atualidade para qualquer grupamento que se proponha a crescer espiritualmente: o autoritarismo.


— Mas, Dona Modesta — continuou indagando Sérgio —, o que lhes tem faltado para agirem com essa atitude de supremacia?

— Visão imortalista, meu filho. Lembro-­me como fosse hoje que, quando encarnada, o Espiritismo prático ou a mediunidade espontânea era de uma riqueza incomparável, conduzindo os homens a uma visão da vida afinada com a ética de imortalidade. Hoje, há uma priorização do assistencialismo e da preservação filosófica, na qual a grande maiorias dos núcleos distanciou-­se das vivências de intercâmbio sadias e educativas nos horizontes da mediunidade santificada. Falta-lhes o Espiritismo com espíritos, na expressão de Yvonne do Amaral Pereira. O exercício mediúnico sério tem sido escasso nas casas do Espiritismo, e o que prepondera é o consolo nas sessões de intercâmbio. Embora com seus méritos, a transcendência da faculdade que liga os mundos não tem se convertido em chances para que os benfeitores do além possam transmitir sua experiência e participar com mais assiduidade das vivências dos homens. Não foram poucas as vezes que Bezerra de Menezes teve  de contar com Centros de Umbanda e Candomblé, nos quais se encontram muitos corações afeiçoados ao amor, para fazer seus ditados ou operar suas curas. Lá, a espontaneidade e o desejo de servir muitas vezes sobressaem como qualidades indiscutíveis em relação a muitos centros doutrinários do Espiritismo, os quais têm fechado as portas mentais para o trânsito dos bons espíritos. Tem havido um engessamento voluntário do exercício mediúnico, surgido a partir da tese animista, em meados do século passado. Sem visão de vida imortal, acomodam-­se e deixam de descobrir horizontes novos. Estacionam na paralisia do pensamento em conceitos e não se permitem reciclar práticas. Muitos, além disso, infelizmente, perderam o gosto de aprender, esbaldando-­se em seus histórico de serviços, sem apresentar algo de útil para os reclames do momento atual.


Pedro Helvécio, sempre muito paciente, vendo o rumo da conversação, perguntou com sabedoria:

— Que objetiva a tarefa dessa noite, em que foram trazidos para ouvir essa linha de raciocínio sobre a reforma íntima?

— Em fazerem uma autoavaliação. Notem que o professor não lhes chamou a atenção diretamente em nada, porque senão regressariam ao corpo imediatamente com forte indisposição emocional. Nesse caso, ao recobrarem a lucidez física, alegariam que estiveram em tarefas de auxílio nas regiões inferiores. O professor, com os cuidados que exigiam o momento, tangenciou os problemas morais de nossos irmãos conclamando-­os ao tratamento. Não destacou suas doenças, e sim o remédio. Ao convocá-­los a um projeto de humanização, concede-­lhes a chave dos seus problemas porque terão que se igualar, terão de se fazer gente comum e despir-se da aura de santidade que tanto lhes apraz. Os líderes espíritas, quase sem exceções, asilam enorme sentimento de serem úteis à causa, mas se tornaram, como é natural acontecer em nosso estágio evolutivo, vítimas de si mesmos na medida em que usaram sua habilidade de gerir para interferir. Fazem uma liderança a gosto pessoal, e não conforme os imperativos do Evangelho e da pedagogia moderna...

— Quais são as chances de sucesso da iniciativa de trazê-­los aqui?

— Apesar do êxito deste momento, Helvécio, as chances de que nossos irmãos aproveitem a ocasião tanto quanto necessitam são muito reduzidas. Eles já perderam o gosto de ouvir, adoram mesmo é falar muito. Seus ouvidos não estão conforme a assertiva evangélica, ouvidos de ouvir (2). Muitos, em suas crises de autossuficiência, em verdade, zombam, inconscientemente, da inexperiência alheia expedindo prognósticos e avaliações sem considerar o valor que possuem para a tarefa do Cristo. Quando alguns tomam caminhos diversos dos seus, fazem previsões futuristas pessimistas para os outros e chegam, em alguns casos, a dizer que perderão até a reencarnação caso façam isso ou aquilo. São apaixonados pela ideia de ser os proprietários da Verdade, até mesmo do que virá a acontecer, apoiando-­se, frequentemente, em teorias e produções mediúnicas de valores duvidosos ou interpretadas por suas leituras tendenciosas e bem pessoais.


— Dona Modesta — interveio Helvécio —, observei em sua resposta à Rosângela que esses mil dirigentes são os que mais sofrem desse mal. Seria certo deduzir, portanto, que a seara doutrinária tem sido atacada por essa doença moral?

— Certamente, meu jovem. Independentemente das iniciativas coletivas como a dessa noite, os esforços se multiplicam no campo individual com cada trabalhador. Uma cultura de grandeza tem estimulado esse drama ético entre os coidealistas no plano físico. Grande distância medeia entre possuir uma grande missão e ser um grande missionário. De fato, quantos foram iluminados com a Doutrina Espírita e são como a luz do mundo, contudo, temos que ser honestos e considerar que boa parcela dos irmãos tem sucumbido aos golpes sutis do orgulho, julgando-­se bem mais valorosos que realmente são para os ofícios da causa. Descuidaram de se converter a crianças em espírito. A criança é curiosa, nunca se imagina além do que é, reveste-­se de simplicidade, sem pretensões pessoais de ser a melhor, tem a alma aberta para o novo e a mente livre do que já passou e do que ainda virá, vivendo intensamente o momento presente. Não somente esses mil, mas uma infinidade de homens e mulheres da direção nos centros espiritistas se encontram nas garras da autossuficiência, fascinados por seus feitos e com sua bagagem, nutrindo pouca disposição para ser avaliados e criticados em suas ideias e ações. Gostam mesmo é de serem admirados e aprovados sem restrições, sendo que alguns adoram impressionar.


Percebendo a fala oportuna, lembrei-me das tarefas intercessoras que temos participado em companhia de Dona Modesta e Eurípedes juntamente à crosta e resolvi sugerir:

— Dona Modesta, poderia nos trazer algo sobre as obsessões nesse terreno?

— Sim, Ermance, bem lembrado! Quando a postura de nossos companheiros raia para esses despropósitos da conduta, os adversários do bem se aproveitam a largamente. Muitos e graves episódios de fascinação coletiva rondam a seara Espírita em razão desse lamentável quadro de personalismo e vaidade. Por essa razão, nosso Senhor Jesus Cristo colocou uma criança no meio dos discípulos e disse: “... se não vos converterdes e não vos fizerdes meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus” (3). O resto da história vocês já conhecem, basta olhar os pavilhões do Hospital Esperança, lotados de dirigentes que não souberam se diminuir para que o Cristo crescesse (4). Ajudaram muitos a se renovar, mas não cuidaram tanto quanto careciam da mudança interior de si mesmos. Lembram-­se do episódio da mulher adúltera, quando Jesus pediu para atirar a pedra? Quem foi que saiu primeiro?

— Os mais velhos — respondeu de pronto Rosângela, pois tinha os versículos na ponta da língua.

— Os mais velhos saíram primeiro porque traziam mais condicionamentos e menos disposição de rasgar suas folhas de serviço perante a vida. Será preciso muita humildade dos líderes cristãos para que assumam o importante papel que lhes compete nas tarefas da Doutrina. Precisarão de muita coragem pra desapegar do que sabem, não envelhecer com suas ideias, ter a habilidade para deixar de ser repetitivos e aprender como se recicla sem se sentir desmoralizados ou menos amados. Muitos deles, para manter as aparências, abandonaram a capacidade de sentir a alegria e de ser simpáticos, tornando-­se estereótipos de rigidez, com a qual pretendem ser imponentes e expressar ideias de sábios e homens da autoridade, essa é a doença da autossuficiência espiritual.


Helvécio, desejoso de dar novo rumo ao diálogo, inferiu:

— Apesar das lutas morais, nossos irmãos são valorosos na semeadura do Cristo!

Atalhou Dona Modesta, incontinenti:

— Os esforços dessa hora só se justificam por essa razão. Eles são depositários de expectativas alvissareiras de Mais Alto. São corações que merecem o refrigério da misericórdia em face do calor das refregas que enfrentam. Ao destacar seus traços enfermiços, o fazemos com unção e desejo de amparar. O Espiritismo penetra seu terceiro ciclo de setenta anos, no qual se concretizará a maioridade das ideias espíritas (5). Nossos companheiros, se souberem se adequar, serão excelentes operários de um tempo novo. Uma geração nova regressa às fileiras carnais da humanidade para arejar o panorama de todas as expressões segmentares do orbe, interligando-ase e projetando-­as a ampliados patamares de utilidade. O movimento espírita não ficará fora desse contexto, sendo bafejado por um processo de atualização de metodologias, comportamentos, práticas e conceitos, o que ensejará uma cultura cujos traços serão o pluralismo e a lógica. Apesar desses avanços, o livre ­exame e o raciocínio científico que consolidam essas características só terão valor quando se destinarem a criar o humanismo e a ética, o afeto e o bem-estar. É tempo de renovar. Os Decretos Celestes são tufões de purificação que esterilizam todos os rincões da Terra. O fogo renovador dos Embaixadores do Bem está ajuntando o joio em molhos para queimar. As almas que cristalizarem o pensamento nos redutos do preconceito ou do dogmatismo enfrentarão sofrida crise de impotência, amargando o vexame e o desânimo. É por amor aos nossos líderes espíritas que aqui os trouxemos. Mais que nunca precisarão sedimentar em seus atos a tolerância construtiva, visão futurista, empatia com o próximo e desapego de suas realizações pessoais – quesitos essenciais para formarem o clima do diálogo e do entendimento com alteridade, as únicas vias de acesso ao paradigma do século 21, que estabelece a parceria solidária e pacífica como alvo de todas as aspirações sociais e humanitárias. Se eles se rebelarem e se fixarem na condição de apaixonados pelas suas obras, experimentarão a falência e a angústia quando aqui se aportarem. Mesmo que tenham realizado muito, talvez não terão edificado os valores essenciais para a garantia da paz consciencial no altar divino dos sentimentos elevados. Se os avisamos agora, é para que não se queixem depois.


Finda a conversa, saímos todos pensativos sobre a urgente necessidade da campanha pela humanização de nossa seara. Mais que um projeto de serviço moderno, é um convite para a retomada de posições e reciclagem da cultura. Que a humanização nos auxilie a estar acima dos papéis de heroísmo espiritual, permitindo-­nos ser gente, gostar de gente e viver como humanos falíveis sem neuroses de perfeição, sempre dispostos a crescer.

Fizemos todos os registros pensando em enviá-­los ao plano físico algum dia. Tornava-se imperioso informar ao mundo físico algo sobre a natureza das provas enfrentadas pelos dirigentes, os quais subtraíram de si mesmos a bênção de dirigir afinados com a Mensagem do Cristo.

Muito desapego e coragem serão exigidos de todos nós para que deixemos as fantasias da autossuficiência, que nos fazem sentir um pouco melhores diante de nossa inferioridade, e assumimos, enquanto é tempo, a condição psicológica prenunciada há mais de dois mil anos pelo Mestre do amor, quando assinalou:

“Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve” (6).

1. Lucas, 17:20.
2. Mateus, 11:15.
3. Mateus, 18:3.
4. João, 3:30.
5. Vide mensagem “Atitude de Amor” na obra mediúnica SEARA BENDITA (diversos Espíritos), psicografada pelos médiuns Maria José C. S. Oliveira e Wanderley S. Oliveira.
6. Lucas, 22:26.

sábado, 10 de setembro de 2016

Conclave de Líderes - Parte 1

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 30


“Expulsai da Terra o egoísmo para que ela possa subir na escala dos mundos, porquanto já é tempo de a Humanidade envergar sua veste viril, para o que cumpre que primeiramente o expilais dos vossos corações.”

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 11 - Item 11


Faltavam apenas dez minutos para as duas horas. A madrugada revestia-­se de intenso trabalho. Era a última semana do segundo milênio da era cristã. As expectativas criavam um clima psicológico na Terra de rara amplitude – uma virada de ano na qual as esperanças se renovavam coroadas de júbilo e fé.

Cumprindo mais uma de nossas programações no Hospital Esperança, reunimos influente grupo encarnado de pouco mais de mil formadores de opinião no movimento espírita. Trouxemo-­los para uma breve e oportuna advertência. Radialistas, unificadores, médiuns, escritores, oradores, dirigentes, apresentadores, jornalistas, expositores, diretores, estudiosos e muitos presidentes de centro espírita estavam sendo devidamente preparados havia quase três dias para que pudessem cooperar com o desligamento perispiritual e ampliassem sua lucidez quanto ao tentame.

O professor Cícero Pereira foi encarregado de fazer os comentários em nome de Bezerra de Menezes e Eurípedes Barsanulfo.


Observávamos a chegada de cada um dos membros, todos em estado de emancipação e acompanhados de pelo menos três cooperadores que se revezavam em variadas tarefas junto a cada um deles. Alguns ofereciam dificuldades até para se assentar nos lugares a eles reservados no salão, contudo, no horário previsto, tudo era calmaria e prontidão para o serviço da noite.

Aos dois minutos para as duas horas entraram Eurípedes e Dona Maria Modesto Cravo ladeando o amado Bezerra e o professor.

Em brevíssima e sentida prece, Eurípedes ordenou o iniciar dos trabalhos. Dona Modesta tomou de um microfone para explicar o objetivo da ocasião, dizendo:

— Amigos, paz e esperança a todos. Nosso tempo é curto em razão das condições especialíssimas a que foram aqui trazidos pra guardar registros nítidos e úteis ao regressarem ao corpo. Portanto, que fiquem claros nossos objetivos nesse encontro. O momento psicológico nessa última semana do milênio enseja sentimentos elevados em relação ao futuro. A mensagem que vos queremos endereçar diz respeito à necessidade imperiosa de propagarem uma noção mais realista e estimuladora do processo de crescimento espiritual entre vós. Sem fé nos esforços e sem a crença sustentável nos ideais de renovação interior, a caminhada do discípulo do Cristo fica entorpecida e fragilizada. Atendendo aos ditames proclamados por Bezerra de Menezes em sua magistral palestra “Atitude de Amor” (1), convém-­nos tecer considerações sobre o coração dos temas morais do Espiritismo: a reforma íntima. Abram a coração e dilatem o raciocínio para ouvir a mensagem de Cícero Pereira e, em retornando ao corpo, arregimentem energias na difusão de uma campanha sem precedentes em torno do tema. Por ora, nos comprometemos em lhes enviar no futuro uma resenha desse nosso encontro pela via da mediunidade, a fim de acordarem vossas lembranças. Vamos ao labor.

Dona Modesta fez um sinal ao professor, o qual assumiu a tribuna:

— Declinarei de quaisquer detalhes que nos desaproximem do tema. Desejo que todos enriqueçam as almas nesse conclave com a paz e a esperança.

“Constatamos um ascendente número de adeptos que tem desistido dos ideais de melhoria em razão do ônus voluntário que carreiam para si mesmos ao conceberem a reforma íntima como um compromisso de angelitude imediata. O momento exige autocrítica e vigilância. Além do ônus do martírio a que se impõem, ilusões lamentáveis têm povoado a mente de muitos espíritas sobre o porvir que os espera para além dos muros da morte, em razão dessa angelitude de adorno. Aqui mesmo, nesse hospital, enfrentamos situações severas da parte de homens e mulheres, os quais foram agraciados com o conhecimento e o trabalho nos campos educativos da seara espírita e que, a despeito de suas honrosas fichas de prestação de serviços, encontram-­se envergonhados uns e atormentados outros, porque descuidaram do erguimento dos valores eternos na sua intimidade. Muitos deles, aliás, não esqueceram a reforma íntima, mas não souberam edificá-­la.


“Os espíritas que desencarnam em melhores condições trazem em comum a persistência que nutriram no idealismo superior até o último dia em seus corpos físicos. Essa, porém, não tem sido a marca moral da maioria, que, variadas vezes, tem se equivocado com padrões de conduta espírita consagrada nos círculos da doutrina entre os homens. Tais equívocos existem porque os modelos erigidos como referências, quase sempre, conduzem o discípulo à acomodação e ao desculpismo, que produzem o desleixo na avaliação íntima das causas de suas imperfeições. Nessa passarela de perfis de comportamento socialmente aceitos dentro da Seara, a criatura sente-­se excluída e falida quando não consegue transpor os umbrais de seus impulsos, nem sempre conhecidos de si mesma, para atender aos quesitos que a inserem na condição de verdadeiro espírita, conforme os critérios espontaneamente aceitos pela coletividade dos seguidores. A partir de então, se não conta com a fraternidade e a compreensão alheia, desiste dos seus ideais ante os assédios da dor psicológica decorrente da autocobrança.


“Somente sentindo-se aceita como é nos grupos de sua participação é que a criatura encontra motivação para se burilar nos campos do espírito. Essa não tem sido a realidade de muitos grupamentos que, lamentavelmente, em muitas ocasiões, ao invés de cumprir a aspiração de serem Casas de Consolo e Verdade encarceram-se nos desfiladeiros de templos de hipocrisia e intransigência.

“A reforma íntima não pode mais se circunscrever a mero artigo de discurso, para que haja um sentido evangélico nas ideias espirituais que construímos na tarefa da comunicação de nossos princípios. Precisamos examiná-la minuciosamente com mais clareza para que a imaginação humana, limitada por ilusões, não a converta em fórmula salvacionista, mensurando-a por esses padrões de pouco ou nenhum valor moral.

“Tivemos três fases bem marcantes e entrelaçadas no movimento humano em torno das ideias espíritas: o fenômeno, a caridade seguida da difusão e, agora, mais que nunca, a interiorização. Entramos no período da maioridade, preparando-nos para a aquisição de valores incorruptíveis. Nossa meta é o Espiritismo por dentro, o intercâmbio de vivências morais à luz das bases que consolidam a lógica do pensamento espírita. Na etapa da caridade em que predominou a ocupação com o próximo, muitos corações se inspiraram nos conceitos doutrinários para transferir a outras existências a continuidade de seu progresso na melhoria espiritual. Raramente ouvimos esse enfoque descuidado nos dias atuais. Por outro lado, uma nova postura extremista desponta-­se com vigor: a santidade instantânea. Se ontem havia um descuido em razão de fugas, hoje temos uma nova invigilância por causa da ilusão em saltos evolutivos.


“Inspirados em padrões de comportamentos rígidos da religião organizada, muitos discípulos da boa nova espírita asseveram seguir os exemplos de Jesus e Kardec, guardando cenho carregado e distância das atitudes espontâneas de alegria e afeto, alegando seguir as orientações doutrinárias, como se houvesse um estilo exterior e predefinido de reconhecimento dos espíritas. A grandes malefícios tem levado essa cultura de santificação de adorno por impedir as criaturas a uma incursão nas profundezas de si mesmas, objetivando identificar as necessidades individuais de aprimoramento. Cada Espírito tem imperfeições próprias, únicas, e, também, qualidades em diversificada intensidade e características, não sendo útil nem sensata a adoção de um elenco de convenções religiosas de fora para dentro para serem seguidas.


“Espiritismo é a mensagem da Boa Nova para os tempos atuais. Boa Nova quer dizer boa notícia, boa novidade, e o principal sentimento de quem comunica uma boa notícia é a alegria. Por mais avançadas sejam as conquistas humanas, o Evangelho continua sendo a Grande Novidade desprezada pelos homens para que reine a paz e a equidade social, o caminho esquecido e protelado por se tratar da porta ­estreita que exige conduta austera e vigilância permanente. Boa conduta e vigilância, no entanto, não significam que se deva cobrir de tristeza e carranca e pretexto de ser responsável e íntegro.

“Trabalhamos para que o movimento espírita se alinhe com os demais movimentos humanos que colaboram para o apressamento da regeneração. A despeito de suas valorosas conquistas, não poderá triunfar ante os desafios sociais da atualidade sem assumir o compromisso de projetos orientados para o crescimento pessoal. A solidez da moral que sustenta os fundamentos do corpo doutrinário espírita constituirá o grande diferencial entre todos os métodos até hoje utilizados pela religião para conscientizar o homem. Fechar os olhos para essa necessidade poderá prolongar e fortalecer as primeiras sequelas palpáveis do processo de institucionalização, o qual tem inspirado nocivos episódios de estagnação e dogmatismo nas concepções e nas atitudes no seio desse movimento”.


Nesse trecho da palestra, o clima do início sofreu significativa alteração. A platéia mantinha-­se atenta aos comentários do palestrante. Alguns companheiros ofereciam certa dificuldade para se manter aquietados, o que logo era contornado pelos atentos cooperadores que se espalhavam aos milhares em funções previamente definidas para o encontro.

Pelo olhar do professor para a mesa onde se assentavam Eurípedes, Dona Modesta e Bezerra, sentimos que abordaria delicada questão em sua fala. E como se buscasse aval, assim continuou:

— Motivemos os núcleos espiritistas a uma campanha de esforços pela implantação da noção de escola do espírito, erguendo trincheiras seguras e generosas para o entendimento mais consistente do ato de educar a si mesmo. Mais do que Espiritismo curricular, nobre em seus fundamentos universais, necessitamos de esperança e consolo na alma para estabelecermos um clima de otimismo e entendimento na superação dos percalços do caminho de transformações íntimas a que fomos todos convocados, integrando nossa ação, definitivamente, com todos os paradigmas descerrados pela proposta cósmica da Doutrina Espírita.

“Nessa escola da alma pensemos os valores humanos como metas possíveis, e não como virtudes angelicais, as quais permanecemos muito distantes da possibilidade de experimentar. Iniciemos claramente uma cultura de autoestima e fé em nossas potencialidades, sem receio dos tenebrosos assaltos da vaidade e do orgulho. A mensagem da Boa Nova é para todos os que desejem adotá-la como roteiro de vida. Conceber as propostas Sábias de Jesus como um convite para um futuro longínquo é agasalhar desânimo e desvalor para com nossas habilidades latentes. O Mestre não nos traria um convite ao qual não tivéssemos condições de responder. Mesmo passados tantos séculos depois de Seu exuberante Ministério de Amor, Ele nos aguarda confiantes na decisão de segui-­Lo.

“A ausência de horizontes novos sobre velhas lutas, enfrentadas pelos discípulos espíritas no campo íntimo, tem lhes desmotivado em relação aos nobres ideais de crescimento. Buscam respostas e caminhos, mas eis que os vigorosos reflexos da esteira evolutiva teimam em se apresentar, provocando desgosto e baixa autoestima, subtraindo o vigor da sinceridade nos compromissos de melhoria assumidos perante a consciência.

“Dura realidade precisa ser avaliada em favor de nosso próprio bem: mais do que práticas e instituições, é necessário preparar o seguidor da doutrina para aprender a gostar de relacionamentos. Com raríssimas exceções, o espírita, assim como a maioria dos homens reencarnados, não aprendeu a gostar das pessoas com as quais convive, descobrir-­lhes as virtudes, encantar-­se com suas diferenças, cultivar a empatia. Muitos agem como se pudessem se beneficiar das práticas que tanto amam sem ter de suportar o peso das imperfeições alheias – o que muito lhes agradaria. Ama-­se, muitas vezes, com mais alegria, o Centro, suas dependências e tarefas do que aqueles que nele transitam. Há companheiros com mais cuidado com seus livros espíritas que com os amigos de tarefa.”


Novamente constatou-se a inquietude entre os ouvintes. Algo lhes desagradava profundamente. O professor não se fazia surpreso e prosseguia sem temor:

— No que diz respeito aos núcleos espíritas, especialmente, convenhamos que o excesso normativo tem levado a prejuízos incalculáveis na criação de relações autênticas e educativas. Necessário resgatar o foco central do Espiritismo: o amor entre os homens antes de ritos e práticas, os quais não passam de recursos didáticos de aprendizado e enriquecimento das vivências.

“A proposta do amor contida no Espiritismo cristão não deve ser circunscrita a meros discursos estéticos na tribuna, tampouco a ocasionais doações de fins de semana no tempo que sobra às tarefas caritativas. O lar e a vizinhança, a rua e a empresa, a escola e as instituições humanas de recreação, os grupos sociais em geral aguardam-­nos na condição de sal da terra para operar a inadiável metamorfose espiritual da regeneração.


“Consolidemos projetos de humanização nas agremiações da Terra em favor de dias melhores e mais proveitosos, como nos convoca o amado Bezerra de Menezes à vigorosa aplicação de um programa de valores humanos nos centros espíritas (2). O espírita passou a ser um conhecedor da vida espiritual e suas leis, mas continua ignorante sobre si mesmo, porque adota estudos sistematizados de Espiritismo, mas permanece um vácuo nos estudos sistematizados sobre si mesmo, o autoconhecimento. Temos aqui mesmo, no Hospital Esperança, muitos devotos que detinham toda a história do Espiritismo na memória, conheciam bem todos os clássicos da Doutrina, contudo, não se esforçavam para estampar um sorriso aos companheiros de grupo”.

Após essa fala grave, houve um burburinho geral. Curiosidade e certa dose de desconforto pairaram no ar. Todavia, a medida em curso não comportava maiores divagações diante do estado de sonambulismo em que se encontravam os encarnados. Embora alguns tenham ensaiado algumas indagações e questionamentos, foram contidos por seus condutores. Qualquer estado de exaltação poderia pôr a perder a incomparável ocasião. Refeito o ambiente, o professor, com mais ênfase e tomado de abundante afetividade, pronunciou-­se como a saber a natureza das dúvidas que não chegaram a serem externadas, dessa forma:

— Ninguém, em sã consciência, poderá negar que velhas fórmulas religiosas foram copiadas para a estrutura de nossa seara, estimulando o retorno de fracassadas vivências da alma no campo do egoísmo.

“Religião sem religiosidade é uma separação milenar em nossas ações!

“Temos projetos sociais religiosos, entretanto, são escassos os nossos projetos pedagógicos de religiosidade. A ação social espírita, tão rica de iniciativas, quase sempre tem priorizado o ato de solidariedade distante do seu caráter educativo, esbarrando, vez que outra, nos 'recifes' dos movimentos religiosos de massa, encalhando inúmeras vezes a embarcação do raciocínio nos excessos da fé de superfície. Nossas ações sociais estão cada vez mais contaminadas pela linguagem dos significados, isto é, pela concepção interpretativa do Espiritismo centrada no discurso salvacionista, sustentando posturas de ufanismo ideológico e ausência de diálogo, em oposição aos princípios de fraternidade acolhedora e interatividade pacífica, os quais emergem da filosofia espírita e que deveriam florescer em relações de paz e inclusão. Assim expressamos com rigor, para que não estimulem em seus trabalhos de formação de opinião as expectativas de angelitude após a morte corporal. Por mais nobres sejam as obras que ergamos, por mais devoção a elas ofereçamos, torna-­se imperioso o desapego de fantasias de merecimento em torno de supostas honrarias no reino dos espíritos. Adotemos a condição de aprendizes e servos, pelo bem de nossa paz. Nossas atividades, por mais nobres que sejam, não passam de frutos da boa ­vontade de quem está recomeçando.


“A visão religiosa com a qual fomos educados fez do erro o pecado e da melhoria da alma uma virtude para almas seletas. Jesus, como modelo e guia, tem sido interpretado como uma meta distante e para poucos, incentivando a mentalidade da estagnação.

“Ao longo dos milênios de experimentos evolutivos, o homem instintivamente praticou a adoração ao Ser Supremo através das mais variadas formas. Desde os horizontes da racionalidade primitiva até os antecedentes da religião organizada, foram muitas as conquistas humanas cujo fim foi reverenciar esse Ser Onipotente que hoje chamamos Criador e Pai. Semelhantes vivências arquivadas na alma passaram a constituir o patrimônio mental da religiosidade – impulso humano para buscar o transcendental, o sagrado. E como religiosidade se expressa de conformidade com as conquistas espirituais e intelectivas, a necessidade psicológica de adoração exterior para tornar mais concreta a relação com Deus fez surgir um enorme contingente de rituais e cerimônias, castas e convenções que determinaram uma ética própria para quantos se filiassem aos roteiros dessa ou daquela crença. Nasceram, então, os padrões de conduta religiosa estabelecidos para que o homem se apresente a Deus em condições dignas de Sua aprovação. Secciona-se o profano do sagrado causando uma divisão inconciliável entre comportamentos classificados como puros e impuros aos olhos do Pai.


“O dogma como crença imposta toma feições fortes porque veio a galope no dorso das ameaças do céu, nascidas em concílios e tribunais recheados de interesses de facção. Dentre essas sacramentações ideológicas que sulcaram a mente com nocivas noções sobre o que seja a renovação espiritual, vamos encontrar o terrível vício de santificação, resultante das ideias de angelitude instantânea, guiando a criatura para condutas puritanas das quais não faziam parte os seus sentimentos, uma idealização do que seja ser cristão.

“Associamos, assim, à tarefa da santificação pessoal, nos dias atuais, a ideia de uma vida sem infortúnios, como se santificar fosse mais uma fórmula de baixo custo para nos livrar da dor, um modo fácil de alcançar o reino dos céus. Fazemos tudo certinho e Deus nos recompensa com a felicidade. Fazemos negócios com Deus.

“A negação das necessidades íntimas a título de santificação leva a uma ruptura nem sempre bem conduzida por parte de quantos anseiam pelos novos ideais de espiritualização. Essa ruptura, no entanto, precisa ser feita passo a passo par não gerar maiores lutas.


“O nível de exigência excessivo com a melhora interior pode gerar muitas perturbações. Confundimos elevada soma de cobranças com esforço efetivo de transformação. A cobrança gera angústia e somente o esforço sereno leva à libertação.

“Muitas ilusões e preconceitos cercam o processo da reforma íntima. Alguns deles são: a ideia de saltos evolutivos com mudanças abruptas, a presunção de que somente o Espiritismo pode propiciar a melhoria do homem, a concepção de que estar na tarefa doutrinária seja automaticamente um indício de conquista virtuosa, a falsa concepção de que existem partes de nós que não podem ser aproveitadas e precisam ser eliminadas ou substituídas por algo nobre, a prisão a modelos mentais de ação como critério de avaliação de crescimento espiritual.

“Poderíamos assinalar que vivemos em maior ou menor influência sob um milenar arquétipo de santificação. A própria Lei do Progresso acende a chama do desejo de ser melhor, no entanto, nossos condicionamentos morais assopram vigorosamente sobre o campo do discernimento, criando miragens e perturbações sem fim.


“Nosso apelo a todos que aqui se encontram, perante a postura da responsabilidade de serem influentes líderes da comunidade doutrinária, é a de que debrucem sobre o tema pouco devassado da conquista de si mesmos e nos auxiliem a estender um programa de moralização dos conceitos espíritas, promovendo a casa espírita ao ideário de ser uma autêntica escola do espírito. A reforma íntima, tão decantada, não tem sido devidamente explicada!

“Que fique clara nossa intenção. O Espiritismo em si, enquanto teoria, é moralizador. No entanto, quantos lhe aderem aos princípios suplicam clareza nos rumos para que edifiquem na intimidade a personalidade nova, já almejada pela maioria dos que se encontram atraídos para as propostas espiritistas. Como mudar? Como fazer? Como ser um Homem de Bem? Eis as nossas questões.

“Jesus nos ampare nesses tempos novos de renovação e pacificação da humanidade. Lutemos todos com todas as forças para atender ao apelo sábio de Emmanuel, quando diz: ‘Expulsai da Terra o egoísmo para que ela possa subir na escala dos mundos, porquanto já é tempo de a Humanidade envergar sua veste viril, para o que cumpre primeiramente o expilais dos vossos corações’.”



Pelo fato do capítulo 30 ser muito extenso, este será dividido em duas partes aqui no blog. Não deixem de ler a continuação do capítulo, denominado "Conclave de Líderes - Parte 2".



1 e 2. Vide mensagem “Atitude de Amor” na obra mediúnica SEARA BENDITA (diversos Espíritos), psicografada pelos médiuns Maria José C. S. Oliveira e Wanderley S. Oliveira.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Psicosfera

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 29


“Sede indulgentes, meus amigos, porquanto a indulgência atrai, acalma, ergue, ao passo que o rigor desanima, afasta e irrita”. - José, Espírito Protetor.

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 10 - Item 16

No Universo tudo é vida e transformação. Leis imutáveis regem a harmonia pelo regime de unidade. A vida do homem em sociedade, submetida a essas leis naturais, respira nesse engenho divino que destina os seres à evolução. A ordem que preside tais fenômenos é regida por princípios de atração e repulsão que esculpem, pouco a pouco, os valores morais dignificadores da vida interpessoal. Semelhante atrai semelhante e opostos se retraem.

O pensamento é força energética com cargas vigorosas, e o sentimento lhe dá qualidade e vida tornando o psiquismo humano o piso de formação dos ambientes em todo lugar.

Tomando por comparação as teias das aranhas, criadas para capturar alimentação e se defender, a mente humana, de modo similar, tem seu campo mental de absorção e defesa estabelecido pelo teor de sua radiação moral: são as psicosferas. Quanto mais moralizado, mais resistente é o circuito de imunidade da aura, preservando o homem das agressões naturais de seu ecopsiquismo e selecionando o alimento mental vitalizador do equilíbrio de todo o cosmo biopsíquico.

O estudo da formação das psicosferas nos explica a razão de muitas sensações e incômodos claramente percebidos pelas criaturas na rotina de seus afazeres nos ambientes da convivência social. Enxaquecas repentinas, náuseas, falta de oxigenação, tonturas, alterações de humor instantâneas, alterações no bem-estar íntimo sem razões plausíveis, irritações ocasionais sem motivos, sentimentos de agressividade, ansiedade e tristeza súbita, indisposição contra alguém sem ocorrências que justifiquem, eis alguns dos possíveis episódios que podem ter origem na natureza psíquica dos ambientes.

Evidentemente, os locais de nossa movimentação serão sempre o resultado da soma geral das criações que neles imprimimos, colhendo dessa semeadura somente os frutos que guardem semelhança com a qualidade das sementes que espalhamos. Dessa forma, alguns descuidos da conduta ensejam romper com as teias mentais defensivas em razão da natureza de nossas ações.

Nesse sentido, faz-­se necessário destacar que a palavra mal conduzida tem sido uma das mais frequentes formas de fragilizar nosso sossego interior. Por meio dela temos permitido uma ligação quase permanente, pela lei da associação mental, com os campos de nutrição e defesa alheios, criando uma espécie de comunidade de vínculos na qual nos encarceramos a onerosos desgastes voluntários, quais os citados acima. Basta imaginar várias teias de aranha se encontrando nas extremidades, formando o enorme manto. Assim, passam a ser elos de contato e abertura a toda espécie de seres que se movimentam naquelas faixas nas quais sintonizamos.

Tudo isso pela invigilância em acentuar os aspectos sombrios dos outros e do meio, passando a partilhar na intimidade daquela inferioridade que destacamos fora de nós.

Vemos, frequentemente, pessoas preocupadas com o mal que o outro pode lhe fazer, temerosas com os olhos gordos que lhes infundem fantasias místicas e sentimentos inferiores em relação a alguém, entretanto, ignoram que seu grande inimigo, seu grande oponente são elas mesmas, por meio de comportamentos pelos quais atraem o mal para si mesmas. Somos sempre os únicos responsáveis por nós.

O homem na Terra encontra-­se tão habituado a denegrir o outro que não é capaz de avaliar o mal que faz a si mesmo com essa atitude. No entanto, na medida em que busca sua transformação, afeiçoa-­se a conduzir sua palavra mais nobremente em relação ao próximo e a tudo que o cerca. Somente então, quando inicia um programa de disciplina, consegue aquilatar com mais sensibilidade o quanto custa em seu desfavor o descuido com o verbo edificante.

Essa necessidade humana de destacar o mal alheio encobre, quase sempre, o desejo de rebaixar o outro e causa a ilusória sensação de superioridade, uma maquinação milenar do orgulho nos recessos da mente. Para nos referirmos ao mal alheio sem causar prejuízos a nós próprios, carecemos antes proceder a uma análise da natureza das emoções e intenções que nos conduzem a agir dessa forma. O que necessitamos aprender é sondar os nossos sentimentos quando falamos de alguém, o que está na nossa vida afetiva quando mencionamos o outro. Somente assim conheceremos melhor nossas reais motivações e teremos condições para empreender mudanças de postura eficazes, que manterão nosso corpo espiritual defendido das cargas enfermiças daquilo que não nos pertence.

Recordemos que os ambientes são o espelho do que somos. Se já percebemos o quanto é pernicioso o hábito de criticar por criticar, de julgar com inflexibilidade, de mentir sobre os atos dos outros ou ainda de difamar a vida alheia, então façamos uma pausa para entender as causas de nossas ações, perguntando ao tribunal da consciência a verdadeira razão pela qual ainda tomamos essas atitudes. Por que temos essas necessidades? Por que alguém é sempre alvo de nossos comentários deprimentes? Por que alguém nos incomoda tanto? Que posso fazer para amanhã não agir da mesma maneira?

Além disso, ore sempre nos círculos de trânsito por onde vivas, iluminando sua aura e fortalecendo tuas defesas contra as teias mentais daqueles que também agem nas trilhas ferinas da palavra áspera e malfazeja.

José, o Espírito protetor, diz que a indulgência acalma e atrai. Verdade incontestável.

Quando vemos os defeitos alheios, mas nos dispomos a tratá-­los com real fraternidade e compreensão, aderindo espontaneamente ao hábito de destacar-­lhes também o lado positivo que possuem, candidatamo-­nos a ser os Samaritanos da vida no socorro às doenças alheias, imunizando-­nos dos infelizes reflexos que decorrem das ações às quais, muitas vezes, adotamos contra nós mesmos, na condição de juízes e censores implacáveis da conduta do próximo. A indulgência cria focos de atração e interesse, faz as pessoas se sentir calmas e benquistas ao nosso lado, elevando-­lhes o astral emocional para viverem mais felizes.

Zelemos por nossos ambientes tornando-­os saudáveis e agradáveis para conviver. Otimismo incondicional, vibrações positivas sempre, tolerância construtiva, cativar laços, o hábito contínuo da oração, sorrir sempre, expressar alegria e humor contagiantes, dar pouca ou nenhuma importância aos reclames e pessimismo dos outros, guardar a certeza de que ninguém pode nos prejudicar além de nós mesmos, querer o bem alheio, essas são algumas formas salvadoras de asseio espiritual que eliminarão expressiva soma de problemas voluntários, dos quais podemos nos ver livres, desde que realmente desejemos.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A Força do Bem

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 28


“Toda ideia nova forçosamente oposição e nenhuma há que se implante sem lutas. Ora, nesses casos, a resistência é sempre proporcional à importância dos resultados previstos, porque, quanto maior ela é, tanto mais numerosos são os interesses que fere”.

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 23 - Item 12


A rotina dos nossos serviços no Hospital Esperança foi interrompida, naquele dia, por um chamado para atendimento na crosta terrestre.

Tratava-­se de Juarez, médium em regime de educação das forças mentais, o qual rogou amparo diante de imprevista ocorrência em sua vida profissional. Sua oração, conquanto carregada de desespero, foi registrada em nossos Núcleos Irradiadores e o pedido, como de costume, chegou ao pavilhão dirigido por Dona Modesta, que nos conclamou ao trabalho.

Chegamos juntas ao ambiente comercial de Juarez, Dona Modesta e nós.

Ele estava ansioso e compenetrado no episódio, o qual assumiu proporções avassaladoras em sua mente. Providenciamos alguns fluidos calmantes para que ele mantivesse o equilíbrio; era um homem de gênio explosivo e pouco cordato, especialmente nos negócios.

Seu estabelecimento seria visitado por um fiscal de impostos. Notamos que a mente do nosso amigo estava em franco delírio. Pensamentos de oposição espiritual tomavam conta de seu cérebro. Dizia para consigo: “Querem me derrotar porque estou no trabalho do bem!”, “Tenho certeza que foi uma cilada espiritual em razão das últimas palestras que fiz sobre temas evangélicos!”. Sua fixação em ideias de pressões espirituais de adversários vagueava pelo terreno do místico e imponderável. Não pensou em alguma atitude juridicamente defensiva e nem na própria negligência, com a qual se tornou possível a ocorrência. Não constatávamos a presença de nenhum ardil de obsessores contra ele naquele caso.

A dívida era vultosa. Infelizmente, apesar dos apelos de amigos e parentes, Juarez preferiu a omissão.

À hora previamente determinada, chegou um homem maduro e carrancudo, com ares de severidade. A visita foi rápida e cordial. Apenas mais uma advertência, nada de execução judicial, por enquanto. O médium, agora aliviado, mentalizava em seus pensamentos: “Como os amigos espirituais são bons e amparam quem está na tarefa!”

De nossa parte, o único amparo dispensado, na verdade, foi a ele próprio, a fim de que não excedesse na conduta.

Terminada nossa visita, Dona Modesta sintetizou em pequena frase uma ampla experiência que merece estudo e aprofundamento nas relações entre homens e espíritos:

— Veja só, Ermance! Os homens costumam ver os Espíritos onde eles não estão, e onde eles estão não costumam ser vistos pelos homens!

* * *

Situações como a de nosso amigo comerciante têm sido constantemente assinaladas no dia a dia do homem encarnado, seja portador de faculdades psíquicas mais evidentes ou não.

O ser humano é essencialmente místico, mas, principalmente entre os cultores da fé espírita, essa tendência tem sido acentuadamente empregada na construção da realidade individual, atingindo, algumas vezes, as raias da insensatez. O exagero nesse tema tem ensejado devaneios com consequências morais nocivas para a vida de muitos homens na Terra. Menor esforço e irresponsabilidade em razão de fantasias provenientes do pensamento mágico têm criado campo para a fuga e a ilusão.

Explorações psíquicas têm ocorrido em torno do tema.

Visitamos, certa vez, um médium de cura, em cidade localizada no polígono magnético do planalto central, e constatamos um nível acentuado e sutil de desequilíbrio que ilustra nossa tese. Nosso amigo já não vivia mais a realidade do plano físico, uma quase esquizofrenia cindia-­lhe o pensamento. Não ouvia mais os amigos de convivência, julgava estar sob uma influência exclusiva dos espíritos em todos os fatos que o cercavam. Nos êxitos, rendia homenagens aos benfeitores como forma inteligente de engrandecer sua suposta humildade, no entanto, encharcava-­se na vaidade pessoal de ter sido ele o intermediário do sucesso. Nos fracassos, imputava irrevogável responsabilidade às trevas e sua sanha perseguidora, abdicando de incursionar no campo da autoanálise e verificar sua parcela pessoal nos acontecimentos infelicitadores.

Inclusive uma questão merece urgente avaliação. Convencionou-­se, entre alguns adeptos espíritas, mensurar o valor espiritual de uma tarefa pela oposição trevosa (conforme denominação usual no plano físico) que lhe é imposta. Alguns companheiros, inspirados nessa tese, interpretam todos os obstáculos em torno de seus passos no serviço doutrinário como ciladas e manobras contra seus ideais, como se tal critério constituísse um sistema de aferição exato e universal. Apoiados nas palavras do codificador, que diz: “Assim, pois, a medida da importância e dos resultados de uma ideia nova se encontra na emoção que o seu aparecimento causa, na violência da oposição que provoca, bem como no grau e na persistência da ira de seus adversários”(1). Com esse excesso interpretativo, caminham para a escassez de discernimento, perdendo de vista o exame que deveriam proceder em suas próprias atitudes ou decisões na tarefa que, constantemente, são as únicas e verdadeiras brechas com as quais os opositores do ideal laboram. Inquestionavelmente, e a literatura espírita é farta de informes a esse respeito, não estamos fazendo um convite ao deboche sobre a maneira de atuação dos inimigos desencarnados da causa do amor. Ingenuidade nessa questão será mais uma porta aberta para o acesso dos maus espíritos, mencionando o lúcido Allan Kardec (2).


As trevas só têm a importância que nós lhes emprestamos – palavras sábias de Dona Modesta em oportuna citação feita por ela à codificação, nas palavras da Equipe Verdade: “A fraqueza, o descuido ou o orgulho do homem são exclusivamente o que empresta força aos maus Espíritos, cujo poder todo advém do fato de lhes não opordes resistência”(3).

Será que semelhantes reações ao nosso esforço não poderiam também advir de descuidos e inexperiência? O sutil desejo de realce pessoal ou a pretensão dos pontos de vista, tão difícil de ser percebida, não poderiam ser a causa exclusiva de tanto burburinho e problemas nas frentes de atuação que erguemos?

O enfoque excessivamente carregado de ideias místicas subtrai-nos a possibilidade de tornar a relação entre as sociedades física e espiritual uma escola de despertamento e crescimento para os valores da alma. Utilizando a expressão do guia dos médiuns e evocadores, O Livro dos Médiuns, o laboratório do mundo invisível cerca a natureza terrena com objetivos de ascensão para quantos se encontrem em ambas as faixas de vida.

Quantas críticas e discordâncias, desavenças e tropeços existem nas equipes espíritas com as quais as trevas, sem muito esforço, exploram assiduamente?

Mais que natural a luz acesa ser perseguida pelas sombras. Faz parte da Lei de Amor essa atração opositora. Por ela, quem está na luz se fortalece iluminando-­se ainda mais, e quem jaz na penumbra encontra o perdão de Deus na claridade da vitória do bem nos lampejos da conduta alheia.

As convicções pessoais intransigentes e a imprudência são as armas mais poderosas daqueles que se posicionam contra o nosso esforço autoeducativo, porque formam o campo mental propício para a sintonia e a perturbação que decorrem do personalismo e da invigilância.

Nenhuma força é maior que o bem em todos os tempos. Firmemos nessa crença nesse brasão mental e roguemos o acréscimo da misericórdia, uma vez que sabemos da nossa fragilidade. Com essa fórmula ninguém sucumbirá sob o peso das vigorosas forças contrárias que existem para nos dilatar o poder de cooperação individual na obra do Todo-­Poderoso Criador do Universo.

1. O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 23 - Item 12.
2. O Livro dos Médiuns – Capítulo 20 - Item 228.
3. O Livro dos Espíritos – Questão 498.

sábado, 13 de agosto de 2016

Pressões Por Testemunho

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 27

“Para isentá­-lo da obsessão, é preciso fortificar a alma, pelo que necessário se torna que o obsidiado trabalhe pela sua própria melhoria, o que as mais das vezes basta para o livrar do obsessor, sem recorrer a terceiros.”

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 28 - Item 81

Era manhã de sexta-­feira na Terra. Aprontávamo-nos todos para mais uma excursão de socorro e aprendizado. Dona Modesta, como de costume, seria nossa condutora.

Visitaríamos as regiões de dor na erraticidade. Antes, porém, beneficiaríamos o médium Sinésio, que cumpria a tarefa de pólo magnético atrativo, tarefa apelidada pelo humorado Dr. Inácio Ferreira como isca mediúnica.

Nossa equipe compunha-­se dos jovens Rosângela e Pedro Helvécio. Além deles, diversos componentes do grupo de irmão Ferreira estariam cumprindo a atividade de defesa. Irmão Ferreira é excelente trabalhador das regiões abismais. Graças à sua índole corajosa e seu incomparável poder mental, tornou-­se o que se pode chamar, segundo Dona Modesta, um cangaceiro do Cristo. Tendo vivido as lides do cangaço brasileiro, pernoitou longos anos de sofrimento em psicosferas pestilenciais, adquirindo vasta experiência sobre a maneira de atuação das trevas. Depois dessa etapa, resgatado a pedido de Jesus, destinado a Bezerra de Menezes e Eurípedes Barsanulfo, passou a compor o esquadrão de servidores da defesa no Hospital Esperança. Sua experiência pode ser concebida pelo fato de somente ele e Eurípedes conseguirem penetrar os mais inóspitos locais da inferioridade moral. Eurípedes, por suas conquistas superiores; irmão Ferreira, por ser um embaixador do Senhor, com recursos especialíssimos de força a ele emprestados para o serviço do bem e da remissão de si mesmo. Nosso irmão é o testemunho de que a proposta de Deus é a inclusão, jamais deixando nenhum de seus filhos sem a misericórdia do recomeço.

Sinésio é um médium aplicado e de vastas qualidades em desenvolvimento com seu esforço moral. Na noite anterior, foi estabelecida uma conexão mental com uma entidade perversa do grupo dos dragões (1).

Às sete horas em ponto, nosso grupo de assistência chegou a seu lar. Ele havia despertado com bom humor, mas logo que retornou seus deveres, a sanha perturbadora do desencarnado alterou seu campo mental. Notamos que às sete horas e trinta minutos suas mentalizações pairavam em torno de irritações e aflições inúteis e sem razão. Digladiava com preocupações da rotina material sem justos e necessários motivos, enquanto o hóspede infeliz induzia pensamentos de derrotismo e raiva. Às oito horas, Sinésio apresentava um quadro de intensa pressão espiritual que caracteriza a obsessão simples, da qual ninguém está isento nas esferas terrenas. Víamos, claramente, o sofrimento do medianeiro, o qual sabia lucidamente tratar-se de um episodio mediúnico. A cada hora intensificava-se mais a situação, graduava-se o assédio a cada minuto.

Em nossa equipe, percebíamos a tranquilidade de Dona Modesta e irmão Ferreira, enquanto Rosângela, muito sensível à dor experimentada pelo companheiro no plano físico, não conteve seus ímpetos de compaixão e desabafou:

— Mas, Dona Modesta, porque deixar esse quadro correr solto? São passadas três horas, e pelo que vejo nas próprias reações físicas do médium ele terá o desajuste coronário, não demora!

— Calma, Rosângela, tudo tem um fim útil, assim não fosse e já teríamos agido. Estamos aguardando o ataque... Sinésio é bem resistente, confie.

Já eram passadas três horas e quarenta minutos, quando extenso vozerio a distância cortou a cena. Dona Modesta solicitou-­nos vigilância e fé. Irmão Ferreira fez um leve sinal ao seu grupo, que se apressou em tomar posições estratégicas. Minha tarefa era convocar o medianeiro à oração, o que, sem dificuldades, foi captado pelo seu bondoso e oprimido coração. Ele orou compungidamente pedindo paz a Jesus pelas almas que lhe intensificavam as provas na vida espiritual; e o fez com tanta unção que, como se caridoso golpe de expulsão provocasse o desligamento entre as mentes, vimos o dragão literalmente caído, tal como se houvesse tomado um choque de graves proporções. Nessa hora, percebemos a origem do vozerio. Quase uma centena de almas ligadas às trevas se ajuntava ali. Um deles pronunciou:

— O que é isso?! Um dragão tombado?! Quantas vezes vamos pelejar para derrubar um infeliz tão fraco como esse? Vamos arruinar com a vida desse condenado e mostrar aos tutores que não existem créditos de proteção para quem deve.

Para a surpresa do grupo, uma rede de acolhimento descia lentamente do Alto, envolvida em uma chuva de luzes vivas e multicoloridas, com propósito de abranger a todos. Ouviam-se trovões e relâmpagos intensos, os quais eram perceptíveis com grande intensidade. Os sons lembravam os de uma guerra... A chusma de espíritos notou a força que lhes cercava. Irmão Ferreira surgiu em meio ao cenário como se se materializasse aos olhos de nossos irmãos, e pronunciou no seu tom costumeiro (2):

— O que vosmecê acha que vai fazê aqui? Nóis tamo aqui em nome de nossu senhô Jesus Cristo. E pedimo a bênção de Deus pra todos vosmecê.

— Seu cangaceiro estúpido, quanto tempo você acha que vai proteger esse fracassado?

— Isso eu num sei respondê, mas que agora nóis vamo tê uma conversa de home pra home, isso nóis vamo.

A rede descia provocando medo em todo o grupo pela natureza das forças elevadas que emitia. Acordes apropriados para esse tipo de momento fluíam como se viessem de cada nó. Dona Modesta nos convocou à prece. Com incrível rapidez, os dragões dispersaram, entre palavrões e juras de vingança. Ficou somente o obsessor caído. Irmão Ferreira, literalmente, colocou-o no colo e levou­-o para um posto próximo das nossas movimentações. Rosângela, antes da saída do cangaceiro, a ele endereçou a seguinte questão:

— Já que o obsessor vai ser beneficiado, o que meu irmão fará pelo médium?

— Oh, minina! Se vosmecê qué paparicá minino sadio, pode ficá. Vou pra onde Jesus correu com suas bênção. Vou acudi os obissessô. Isca é pra sê devorada. O que interessa é o peixe devoradô — e soltou sua tradicional e altissonante risada.

Todos rimos do inesgotável bom humor de Ferreira em pleno momento de tumulto e atenção. Ele saiu prontamente, deixando-­nos com Dona Modesta e Helvécio. A rede de acolhimento foi levada juntamente com o grupo de cangaceiros, que a conduziriam até um local de segurança nas proximidades das regiões de padecimento nas quais nossos irmãos infortunados se acomodavam. Helvécio, atento e ponderado como sempre, destacou:

— Que bênção a mediunidade com Jesus!

—Sim, Helvécio. Uma bênção incomensurável! — atalhou Dona Modesta.

Por sua vez, Rosângela, preocupada com o médium, procurou saber o que lhe tinha sucedido. Verificando a mudança de clima mental e a instantânea felicidade na qual se encontrava, arriscou um palpite:

— Há um minuto parecia uma mente na loucura ou um candidato ao enfarto do miocárdio, agora me dá a impressão de ser uma ave voejante que perpassa os mundos em profusão de paz e alegria. Que mudança!

— Não, Rosângela, a mudança foi o que aconteceu nas últimas horas, porque, em verdade, esse é o estado habitual da mente de Sinésio.

— Mas será por isso que o Ferreira nem se preocupou?

— Isso mesmo. Aqui o grande necessitado a ser socorrido era o dragão enfermo. O médium era apenas a isca. Ele tem o cérebro que assimila a prece com maior vitalidade, ordenando suas substâncias e promovendo a harmonia. Nosso irmão fora do corpo, no entanto, está exaurido e com terríveis lembranças que não tem como esquecer nos labirintos mentais, é escravo de profundas hipnoses e rasteja por entre fios e grilhões de matéria semicondensada, ligada às regiões em que estagia nas penumbras da vida imortal. Em toda obsessão, a dor maior é sempre daqueles que não têm o corpo físico para abafar as traumáticas reminiscências de outros tempos. Os desencarnados sabem e podem mais pela liberdade de ação; os encarnados, entretanto, estão mais bem aquinhoados de estímulos para vencer os circuitos viciosos da dor das recordações.

— Seria justo considerar que o sofrimento de algumas horas de Sinésio é menor que as lutas enfrentadas por essa criatura aqui amparada?

— Sem dúvida nenhuma. Nossos irmãos na Terra tratam os obsidiados como vítimas de cobradores impiedosos tão somente porque não conhecem com detalhes os infinitos e complexos dramas da mente sem o torpor da matéria. Se pudessem conceber semelhantes dores, chorariam pelos que aqui se encontram. Todo obsidiado apela para o amparo refazente que se encontra disponível nas casas de amor. Os obsessores, no entanto, não descobriram ainda como definir seus caminhos perante as graves perturbações emotivas que carregam e se iludem com as sensações inferiores de vingança e humilhação perante quantos fazem luz que os importuna e agride.

— E por que é permitido que um médium com o campo mental ajustado passe por esse tipo de transtorno? Não seria mais justo poupar-­lhe, já que vem burilando seus pendores e buscando o crescimento? Com sinceridade, Dona Modesta, não consigo entender a razão de uma obsessão em tão esforçada criatura...

— Filha querida, que queria você? Que Sinésio ajuntasse luz somente para ostentar grandeza? Que bens adviriam de uma mediunidade se o médium, a pretexto de sossego justo, não mais desejasse usar sua luz para exterminar as trevas do mundo? Essa é a chamada pressão espiritual por testemunho. Quadro comum na vida dos trabalhadores do Cristo. Mesmo quando guardam cuidado e vigilância, devoção e disciplina com a conduta, são chamados a servir e testemunhar seus valores. Na Terra, o homem ainda cultiva a ideia da melhora espiritual como forma de regozijo e paz perene e egoísta. Você mesmo, Rosângela, que veio da formação evangélica, sabe bem do que estou falando. Sinésio, pelos recursos de amadurecimento que tem desenvolvido, pode participar dessas iniciativas sem riscos maiores em razão das reservas morais de sua força psíquica. Tornando-­se alvo de alguma trama dos adversários, funciona como uma isca, atraindo para muito perto da sua vida mental os desencarnados que, sem perceberem, emaranham-se em uma teia de irradiações poderosas, permitindo-­nos uma ação mais concreta em comparação a muitas das incursões nos vales sombrios. Temos, assim, um típico e pouco comum episódio de obsessão simples que termina tão logo é feito o desligamento de ambas as mentes. Uma obsessão provocada, uma obsessão controlada.

— Mas e se o nosso irmão não dispusesse de algum recurso no campo moral que ensejasse essa iniciativa?

— Simplesmente não cometeríamos o absurdo de entregar uma esperança nas mãos do fracasso. Nesse caso, além de poder servir à Lei do Amor, o médium dilata suas resistências espirituais logrando um excelente patrimônio autodefensivo para esses instantes tormentosos da Terra. Atualmente, até mesmo os que não peregrinam pela mediunidade ostensiva são atacados por espessa nuvem negra bacteriana que paira na psicosfera, capaz de provocar os mais diversos prejuízos, conforme os costumes de cada criatura. O Codificador, sempre detalhista nas suas observações, ocupou-se em receber dos Sábios Guias alguma orientação sobre o tema, como segue:

“Por que permite Deus que Espíritos nos excitem ao mal?”

“Os Espíritos imperfeitos são instrumentos próprios a pôr em prova a fé e a constância dos homens na prática do bem” (3).

* * *

Como vemos, a vida espiritual é um oceano de novidades que o homem reencarnado, mesmo guardando noções valorosas de espiritualidade, nem sequer imagina sobre as infinitas leis e ocorrências por aqui experienciadas.

Por isso, os espíritas, que em muitas ocasiões demonstram presunção e sapiência acerca da vida imortal, devem procurar revisar sua postura moral, porque, como já disse Shakespeare: “Existem mais coisas entre o céu e a Terra do que sonha a nossa vã filosofia”.

1. “Espíritos caídos no mal, desde eras primevas da Criação Planetária, e que operam em zonas inferiores da vida, personificando líderes de rebelião, ódio, vaidade e egoísmo; não são, todavia, demônios eternos, porque individualmente se transformam para o bem, no curso dos séculos, qual acontece aos próprios homens.” – Nota do Autor espiritual André Luiz, na obra Libertação, capítulo VIII, psicografada por Francisco Cândido Xavier.

2.Preferimos o linguajar original de nosso irmão, que, segundo ele, imprime maior poder de diálogo com os habitantes das faixas sombrias.

3. O Livro dos Espíritos – Questão 466.