sábado, 23 de julho de 2016

Fé e Singularidade

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 25


"A fé necessita de uma base, base que é a inteligência perfeita daquilo em que se deve crer. E, para crer, não basta ver; é preciso, sobretudo, compreender."

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 19 - Item 7


Quando deixamos de reciclar nosso mundo íntimo, é comum fixarmo­-nos em ideias e comportamentos que criam estilos invariáveis no modo de ser. É assim que muitas crenças, preconceitos, hábitos, condutas, chavões verbais e tradições são mantidos estagnados no tempo pela criatura em razão de sua forma de entendimento racional, decorrente de experiências que viveram ou da educação que receberam desde o berço. A esse conjunto de valores damos o nome de certezas emocionais, ou seja, referências de vida da alma no campo de sua movimentação, por meio das quais o ser cria, trabalha e respira absorvendo e expressando sua personalidade.

Considerando o estágio evolutivo da Terra, essas certezas do homem se encontram entorpecidas pelo materialismo em milênios de repetição, constituindo o fenômeno psicológico da permanência – a ilusão de querer manter para sempre em suas mãos aquilo que foi alvo de suas conquistas. Dessa forma, o individualismo sulcou traços morais e intelectuais marcantes que educaram o homem para o meu, em detrimento do nosso: meu filho, minha palestra, minha casa, minha família e até minha religião...

Esse fenômeno, do qual raríssimas vezes escapamos, conduziu muitos de nós, espíritas que declaramos possuir uma fé racional distante do dogmatismo, a uma postura de paralisia do raciocínio em muitas questões, as quais apelam para nossa urgente coragem de desapego e reconstrução pela oxigenação de nossas ideias e conceitos.

A esse respeito, entre as infinitas reciclagens a fazer, vejamos uma velha e costumeira forma de análise sobre a qual nos debruçamos, quase todos nós, nos temas da vida moral do espírita-­cristão em torno da mensagem de Jesus. Já perceberam, meus companheiros, com que frequência empregamos as frases "É falta de Evangelho no coração!", "Falam do Evangelho, mas fazem exatamente o contrário!", "Sem Evangelho não teremos a solução!", "Chegaram em má situação à vida espiritual porque não viveram o Evangelho!", "Falam de Evangelho mais não o aplicam!", "A ausência do Evangelho sentido levou aquele grupo à derrota!"

Não são poucas as vezes que, para explicar os motivos de fracasso ou de erro, assinala-­se que a causa se encontra na falta de viver os ensinos do Evangelho. Absolutamente não ousaríamos contestar tal questão, contudo, uma oportuna e desafiadora indagação precisa ser lançada a título de repensar caminhos e abrir ângulos de enriquecimento no tema. Poderíamos, por exemplo, indagar para debate e atualização de nossos pensamentos o seguinte: por qual motivo as criaturas não vivem o Evangelho?

De pronto surge uma resposta-­chavão: "Porque é muito difícil seguir os ensinos do Mestre!"; entretanto, para sermos sinceros conosco, essa resposta não explica nada palpavelmente. Então teríamos que nos aprofundar e questionar: "E por que é tão difícil seguir os ensinos da Boa Nova?"

Aqui deparamos com um dos pontos de convergência mais comuns nos atendimentos que realizamos no Hospital Esperança, chamado Exercício de Impermanência – uma atividade de readaptação com espíritas recém-­desencarnados que se fixaram em formas convencionais de pensar, e que cultivaram a ilusão de terem alcançado pleno domínio sobre os assuntos da vida espiritual, sendo convocados a reexaminar amplamente suas convicções e aspirações para além da morte física. Por sugestão do benfeitor Bezerra de Menezes, vamos compartilhar algo sobre semelhante iniciativa com os amigos encarnados, a fim de verificarem com antecedência uma particularidade das reciclagens a que somos convidados no país da verdade.

O Exercício de Impermanência é constituído de ciclos de debates entre coidealistas que já conseguiram se recuperar de momentos mais dolorosos, ou ainda com aqueles que, mesmo guardando relativo sossego interior adquirido na recém-finda reencarnação, carecem de reaver esse dinamismo mental de soltura nos conceitos e visões, para se integrarem com o divino mecanismo universal da transcendência e da mutação. A esse fenômeno da vida mental chamamos de desilusão ou o rompimento com as certezas-­amarras, colecionadas durante a passagem pela hipnose do corpo. Esse exercício tem etapas variadas, e entre elas o acesso do participante a informes muito preciosos e previamente selecionados por nossa equipe sobre suas precedentes existências, quando se cristalizaram no campo mental algumas matrizes emocionais que funcionam como piso para muitas das atuais ilusões-­certezas que carregam para a vida extrafísica.

Uma das primeiras e mais motivadoras perguntas nessa tarefa, destinada especialmente aos seguidores de Jesus, é exatamente essa a que referimos acima: por que não se vive o Evangelho? O que impede o homem de aplicar os ensinos de Jesus? Por que tem havido tanto discurso e pouca prática nos últimos dois mil anos da Terra?

É importante assinalar aos queridos amigos de ideal no corpo físico, muitos dos quais encontram-­se angustiados com sua infidelidade aos textos e roteiros do espiritismo-­cristão, que ninguém, em sã consciência, deixa de aplicar intencionalmente o que aprendeu e, se o faz, ainda assim há questões muito profundas na intimidade do ser que merecem uma análise madura e caridosa, antes de nomear essa atitude de hipocrisia ou má-fé. Resguardar-se nesse enfoque habitual, que destaca a origem de todos os nossos problemas e dores devido à falta da vivência evangélica, tem levado muitos corações ao simplismo, incentivando o esclarecimento superficial com cunho religiosista. Temos fundamentos bastante sensatos no Espiritismo para estabelecer pontes com todos os ramos da ciência e da filosofia, na dilatação de nosso olhar sobre essa indagação que poderão ampliar horizontes na construção da fé racional.

A edificação do homem novo reclama, sobretudo, lucidez intelectual sobre as causas de nossas atitudes. Para isso, somente abandonando visões fixas e ampliando perspectivas de compreensão.

Muitos corações inspirados pelas claridades do Espiritismo chegam por aqui como alunos que colaram, ou seja, viveram às expensas do que pensavam outros coidealistas ou seguiram os ditados mediúnicos com rigor na letra. Em face disso, deixaram de experimentar a mais notável vivência da alma enquanto na encarnados: a solidificação da fé raciocinante.

Dizemos fé raciocinante porque, ao se colocar que possuímos uma fé raciocinada, inferimos que as noções de doutrina, por si sós, são suficientes para gestá-­la automaticamente. Todavia, mesmo com tanta luz nos raciocínios haurida com a literatura e os recursos de ensino usados nos centros espíritas, o desenvolvimento da fé pensante não ocorre por osmose, e sim por etapas pertinentes à singularidade de cada criatura. Não existe fé raciocinada coletiva, conquanto nosso movimento libertador, em razão de engessamento filosófico e tendências psicológicas dogmáticas, tenha se aferrado demasiadamente a padrões e convenções que estrangulam a criatividade e a liberdade de pensar.

Fé raciocinada é um fenômeno psicológico e emocional construído com base no desejo autêntico e perseverante de compreender o que nos cerca – conquista somente possível por meio da renovação do entendimento e da forma de sentir a vida. É conquista individual, construção íntima e pessoal, e não pode ser considerada adesão automática a princípios religiosos ou ideias que nos parecem aceitáveis e convincentes. E quanto mais maleabilidade intelectiva, mais chances de alcançarmos a fé que compreende e liberta.

Fomos educados para obedecer sem pensar, aceitar sem questionar. A cultura humana não é rica na arte de estimular a pensar e filosofar, debater e reinventar. A fé racional somente será lograda quando aprendermos a pensar a moral, a pensar sobre si mesmo, a debater sobre as vivências interiores com espírito de liberdade, distante da censura e das recriminações, com coragem para se distanciar de estereótipos. A chamada conscientização é uma conquista intransferível, individual, somente possível quando permitimos a nós mesmos analisar nossa singularidade com amor e ternura, sem punições e culpas. Não existe melhora íntima concreta sem trilharmos essa vivência emocional.

A educação na Terra passa por grandes transformações. Penetramos a era da curiosidade, queremos entender a vida. Queremos saber quem somos...

A maior conquista da etapa hominal é a capacidade de raciocinar, no entanto, se essa habilidade não for utilizada para a aquisição gradativa da consciência de si mesmo, estagnaremos no patamar de colecionares de certezas que nos foram transmitidas, esbanjando muita informação e carentes de transformação. A boa nova espírita tem que saltar da ilha da inteligência e integrar o reino do coração. É necessário abolir as fantasias do que deveríamos ser e nos aplicar a sentir o que somos de fato, laborar com nosso eu real.

Nossa tarefa primordial, portanto, é recriar o conhecimento espírita adequando-­o à nossa singularidade, sem com isso querer criar novos padrões coletivos. Respeitar os ensinos gerais, mas desvendar os nossos mistérios interiores, únicos no Universo, eis o desafio da renovação espiritual.

É tão penoso viver o Evangelho porque, em verdade, é penoso o contato com nosso eu real, para o qual toda a mensagem de Jesus é dirigida. E para evitar esse contato, a mente capacitou-­se a gerir as ilusões em milênios de experimentações, sendo muitas delas um mecanismo de fuga e proteção para nos isentar do contato doloroso com a Verdade sobre nós mesmos.

Existe um simplismo prejudicial quando nos acostumamos a afirmativas de periferia. Lancemo-­nos a essa intrigante questão sobre quais são os motivos pessoais de não vivermos o Evangelho e emergirá para a consciência todo um manancial de reflexões, com as quais haveremos de trabalhar em favor de nossa maturidade.

A bula universal da palavra cristã para cada qual terá dosagem e componentes específicos, conforme o estágio espiritual em que se encontre, não sendo oportuno copiar receitas. A singularidade é fundamento determinante da forma e da intensidade com que nos apropriaremos individualmente da vivência cristã. Nessa perspectiva incluem-­se as razões pelas quais nem sempre fazemos aquilo que pregamos.

Não se vive o Evangelho, entre outras infinitas questões, porque não se tem trabalhado ainda nos grupamentos humanos, inclusive os espíritas, um método que permita esse autoencontro em bases educativas para a alma em aprendizado. O autoconhecimento solicita orientação segura e objetivos nobres para não se desvirtuar em autoflagelação e dor, normas severas e reprimendas – mecanismos típicos do religiosismo que se destina à massificação, com total descrédito à exuberância dos valores individuais que deveriam florir em nossos caminhos.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Ícones

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 24


"Entretanto, abandonando de todo a idolatria, os judeus desprezaram a lei moral para se aferrarem ao mais fácil: a prática do culto exterior."

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 18 - Item 2

A palavra integral significa por inteiro, total. Quando mencionamos o homem integral, estamos referindo ao ser na sua completude, a integração de todas as suas partes num todo.

O homem integral harmoniza os seus opostos e resgata a sua identidade original, já que ao longo da caminhada evolutiva estruturou uma imagem irreal do Eu Divino no espelho da vida mental que nomeamos como falso eu, com a qual temos caminhado há milênios no trajeto da evolução.

A vida é dialética, tem aparentes contradições porque consiste de opostos, que são, em verdade, complementares. Basta observar: noite e dia, vida e morte, verão e inverno, razão e intuição, bem e mal, claro e escuro, masculino e feminino. Sem os opostos não existe a vida.

Aprendemos, no entanto, a estabelecer divisões, uma visão cartesiana de partir o indivisível, estabelecendo, assim, a luta contra o que se convencionou considerar como sendo mau, não aceitável, feio e inutilizável. Nasce, então, o conflito, a perturbação, a cobrança.

Olhar as duas faces da moeda é uma grande sabedoria de vida. É uma atitude saudável a ser cultivada com cuidado no processo de transformação, que é a grande razão de nossa peregrinação pela Terra.

Luz e sombra são opostos. No entanto, uma depende da outra, assim como o passo da perna direita depende do passo da perna esquerda. Luz e sombra, perfeição e imperfeição são faces de uma mesma estrutura da alma, razão pela qual será impróprio adotar o conceito de eliminação para os assuntos da vida interior. Nunca eliminamos uma parte, mas a integramos.

Contudo, esse processo de integração gera um doloroso sentimento de perda, necessário ao progresso. Perde-se o velho para construir o novo. Na verdade, efetuamos uma reconstrução marcada por etapas desafiantes. Perde-­se a velha identidade e não se sabe como construir o que se deve ser agora, a nova identidade.

O conhecimento espírita é uma mola propulsora de semelhante operação da vida mental. Ao adquirir a noção da imortalidade, a alma sensibiliza-se para novas escaladas. Decide pela transformação, mas observa de pronto que mudar não é tarefa simples, que se concretiza de uma hora para outra. Assim, enquanto a criatura não constrói o homem novo e singular, único e incomparável que todos deveremos erguer na intimidade, ocorre um natural processo de imitação que o leva a fazer cópias de conduta do que lhe parece ser ideal. São os estereótipos espíritas – referências que adotamos, espontaneamente, para avaliar o proceder perante a nova visão de vida.

Por um tempo esse será o caminho natural da maioria dos candidatos à renovação de si mesmos. Carecem de referências externas que funcionam como boias indicadoras para sua elaboração interior dos conhecimentos novos. Um livro, um palestrante, um devotado seareiro da caridade ou mesmo um amigo espiritual poderão se tornar bússolas para o progresso pessoal, o que é muito natural.

Contudo, semelhante identificação natural pode adoecer em razão de vários fatores dolorosos para a alma em reforma íntima, ensejando que essa relação educativa com os referenciais caminhe para matizes diversos. Um dos mais comuns desvios nesse tema é a idolatria.

Idolatria é o excessivo entusiasmo e admiração por uma pessoa com a qual partilhamos ou não a convivência. São oradores, médiuns e trabalhadores que costumam se destacar pelas virtudes ou experiências, e que são tomados à conta de ícones, com os quais delineamos a noção pessoal de limite máximo ou modelo para os novos passos assumidos na caminhada espiritual.

Os ícones na história grega são as divindades que representam valores excelsos e santificados.

Sem considerar os naturais sentimentos de admiração e entusiasmo dirigidos a quem fez por merecê-­los, quase sempre nas causas dessa idolatria encontra-­se o mecanismo defensivo da mente, pelo qual é projetado no outro aquilo que gostaríamos de ser.

Dois graves problemas, entre os muitos, decorrem dessa relação idólatra: as exageradas expectativas e a prisão aos padrões.

As expectativas transferidas ao ícone carreiam desejos e anseios que se tornam âncoras de segurança para os problemas individuais. Caso a criatura se habitue ao conforto de escorar-­se psicologicamente no outro e fugir do seu esforço autoeducativo, passará ao terreno das ilusões, sentindo-­se e acreditando-­se tão virtuosa ou capaz quanto ele. Ocorre, então, uma absorção da identidade alheia. É como ser alguém com os valores do outro.

Quanto aos padrões, vamos verificar uma outra questão que tem trazido muitos desajustes: o hábito do dogmatismo, uma velha tendência humana de ouvir a palavra dos homens santificados pela hierarquia religiosa. Pessoas que se tornam carismáticas por sua natural forma de ser ou pelo valoroso desempenho doutrinário são, comumente, colocadas como astros ou missionários de grande envergadura, fazendo de seu proceder e de suas palavras, ideias conclusivas e definitivas sobre as mais diversas vivências da espiritualidade ou sobre quaisquer problemáticas humanas, como se possuíssem a visão integral de tais questões.

Quaisquer dessas vivências, expectativas elevadas ou criação de modelos podem nos trazer muita decepção e revolta. Somos todos aprendizes, uns com mais, outros com menos experiência. Todos, no entanto, sem exceção, como aprendizes do progresso e gestores do bem. Podemos sempre aprender algo com alguém, desde que tenhamos visão e predisposição à alteridade. O que hoje entendemos como sendo excepcional em alguém, amanhã poderá não ser tão útil para nossa percepção mutável e ascensional.

Por mais bem sucedida a reencarnação na melhoria espiritual, isso será apenas o primeiro passo de uma longa jornada. Então porque glórias fictícias com ídolos com pés de barro? Missionários e virtuosos? São muito raros na Terra. Para conhecê-los é muito fácil, nenhum deles aceita uma relação de idolatria, enquanto se verifica outro gênero de conduta com muitos que se julgam ou são julgados como tais.

Muitas vezes os "ídolos espíritas" que miramos não suportariam ter feridas as cordas dos interesses pessoais. Bastaria alguém cumprir o dever – ainda poucas vezes exercido – de questioná-­los com fraternidade para se rebelarem. Acostumou-se tanto a essa convenção em nossos ambientes de cristianismo redivivo, que já não se indaga ou filosofia, apenas se crê. Especialmente se determinadas fontes consagradas, sejam homens, instituições ou mesmo desencarnados, expedem ideias ou teorias, não se pesquisa, não se analisa com a prudência que manda o bom senso, apenas crê-­se. Não existem debates e, o que é mais lamentável, muitos corações incensados pela reverência excessiva não fazem nada para dela afastar os menos vividos, os quais terminam, em muitos casos, como pupilos mimados e protegidos que fazem escola...

Apesar da constatação desses malefícios, tudo isso faz parte da sequência histórica de nossas vidas. Quando refletimos sobre a questão, é no intuito de chamar a atenção de todos nós para os prejuízos de continuarmos cultivando semelhantes expressões de infantilidade emocional. Existe, de fato, uma velha tendência que nos acompanha, a qual podemos declinar como hábito da canonização psíquica.

Muitos ídolos adoram as bajulações e burburinhos em torno de seu nome. São folgas que não deveríamos buscar para nossa vida!

Os ídolos deveriam se educar e educar os outros para assumirem a condição de condutores, aqueles que lideram promovendo, libertando, e não fazendo coleção de admiradores para alimentar seu personalismo.

Como bons espíritas, apenas começamos os serviços de transformar a autoimagem de orgulho, profundamente cristalizada nos recessos da mente. Quando nos adornamos com qualidades e virtudes que imaginamos possuir, perdemos a oportunidade de ser nós mesmos, de eleger a autenticidade como nossa conduta, de construir o quanto antes a nova identidade que almejamos.

Inspiremo-­nos em nossas referências, todavia, não façamos deles ídolos. Ouçamo-­los, tiremos o proveito de suas conquistas, os respeitemo-nos e façamos tudo isso com equilíbrio, nem mais, nem menos.

Retifiquemos os nossos conceitos sobre lideranças no melhor proveito das oportunidades das sementeiras espíritas.

Líderes autênticos são dinamizadores incansáveis da criatividade e dos valores alheios. São estimuladores das singularidades humanas.

Por isso suas qualidades são empatia, confiança, capacidade de descobrir pendores.

Líderes que se integram na dinâmica de agentes da obra do Pai assumem a postura de serem livres, sem apego às suas vitórias ou realizações.

Sua alegria reside em ser útil e ver as obras sob sua tutela crescer em satisfação coletiva.

Dirigir, à luz das claridades espíritas, é valorizar o distinto, o diferente, e não apenas os semelhantes, atendendo sempre ao bem geral. Isso se chama conduta de alteridade.

Expoentes sempre surgirão. O que importa é o que faremos deles ou com eles. Evitemos, também, a substituição que tem se tornado frequente: não os deixemos para aferrarmos às práticas. A isso se referia Kardec quando disse: "Entretanto, abandonando de todo a idolatria, os judeus desprezaram a lei moral, para se aferrarem ao mais fácil: a prática do culto exterior."

terça-feira, 5 de julho de 2016

Só o Bem Repara o Mal

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 23


"Indeterminada é a duração do castigo, para qualquer falta; fica subordinada ao arrependimento do culpado e ao seu retorno à senda do bem."

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 27 - Item 21

O desejo do progresso é princípio ativo em todas as almas, induzindo a vontade para a ascensão nos domínios da evolução. Embora faça parte do processo natural de aperfeiçoamento individual em todo ser humano, esse desejo toma conotações bem específicas conforme a natureza das provas vividas na erraticidade. Quanto mais dor e decepção no intervalo entre as reencarnações, mais profundos anseios de mudança integrarão as aspirações desse coração em plena Terra, determinando alguns traços psicológicos. Esse desejo é mais intenso naqueles que já regressaram arrependidos ao corpo físico.

Na verdade, todos retornamos ao carreiro físico com certo nível de arrependimento que intensifica esse anseio de melhora e reparação. Assim sendo, volve-­se ao corpo carnal com o olvido temporário dessas recordações, mas com expressiva soma de ideais de renovação, sustentados por esse piso psicológico do remorso dinâmico, na intimidade da vida mental. Isso determina os motivos pelos quais para uns a reforma íntima é tão essencial em relação aos vários objetivos da existência, todavia, igualmente, explica a causa de tantos sentimentos que levam o homem ao sofrimento, quando ainda estagia no remorso sem o buril da vontade ativa de reparar suas faltas.

A maioria de nós, que somos atraídos para a necessidade imperiosa de renovação perante a vida nas linhas do bem, quando no retorno à escola terrena, carreamos na intimidade uma pulsante aspiração de nos transformarmos, em razão das angústias experimentadas pelas duras revelações descerradas pela desencarnação.

O traço psicológico característico desse quadro é um forte sentimento de cobrança de si mesmo. Isso exerce uma pressão psíquica, facilmente percebida por vários incômodos durante todas as etapas da existência carnal, desde a infância até a velhice, somente atenuável pelo exercício do amor, que modifica as paisagens da dor por meio da edificação dos benefícios do bem aplicado e sentido.

Nesse torvelinho do sistema psíquico de cobranças provocado pelo estado de arrependimento surgem dores emocionais profundas – sintomas de almas em crescimento. Depressão e baixa autoestima, insegurança e ansiedade muito frequentemente são angústias do aperfeiçoamento. São alguns dos castigos a que se refere o Mestre Rivail, quando diz: "Indeterminada é a duração do castigo, para qualquer falta;" a marca mais saliente de suas manifestações pode ir desde uma suportável perturbação no halo energético da criatura, pela purgação moderada, ou mesmo de descargas eletromagnéticas de intenso teor deletério, das distonias comuns da neurose, até o câncer, a esquizofrenia, a artrite reumatoide, as ulcerações fulminantes, a aids, ao desequilíbrio glandular e neuroquímico-­cerebral, causando parafrenias, paranoias e atrofia na saúde mental.

Outro castigo psicológico muito frequente é a inquietude interior, expressada em forma de contínua preocupação nascida do nada, sem utilidade racional ou explicável – reflexos típicos de reajustamento do espírito que se despe, pouco a pouco, do monturo de suas faltas.

É preciso que se esclareça que não temos uma caixinha de sentimentos guardados do passado. Sentimento é algo vivido no presente. Não existe sentimento de culpa arquivado, existe morbo psíquico acumulado como resultado das feridas conscienciais que se espraiam para o corpo, transformando-o em um dreno.

Todo esse processo de desajuste pode fixar, de forma mais acentuada no psiquismo ou no cosmo biológico, os reflexos de sua ação, criando, em muitos casos, o encontro de ambas as perturbações, quando não há reações favoráveis à recuperação da paz interior.

A cobrança é o estado de incômodo permanente criado pela presença quase contínua desse morbo psíquico no halo de energias sutis da mente, impedindo o fluxo natural das correntes da saúde, da harmonia e do amor a si mesmo. É como se fossem doses controladas ou um expurgo dirigido.

Conquanto dolorosa, essa é a forma pela qual a alma resgata o vínculo entre sentimento e consciência, rompido pela artimanha aprendida de negar sentimentos para não escutar os alvitres da voz interior. Nunca enganamos a consciência, porque ela é o tribunal infalível da Verdade em nós. No entanto, desenvolvemos, ao longo de milênios, a capacidade de negar os sentimentos que ela nos envia como sendo suas mensagens dirigidas ao bem. O coração é o espelho da consciência. Pelo que sentimos, identificamos os apelos da consciência em favor do nosso progresso. Recusando reincidentemente, em séculos de rebeldia, seus alvitres pela via do sentir, estabelecemos o que nomeamos como cristalização do afeto, um desajuste nos campos da vida mental que causa inúmeros transtornos psiquiátricos.

Arrepender-se é criar um elo entre o que sentimos e a voz de Deus na intimidade. E somente um sentimento será capaz de consolidar esse resgate: o amor. Sem amor não existirá transformação para melhor. O autoamor é a base da mudança pessoal. Somente nos amando venceremos a severidade com nossas imperfeições, escapando das garras da culpa e do perfeccionismo. Somente nos amando permitiremos a alegria com as pequenas vitórias de cada dia, acostumando-nos a valorizar nossos esforços na aquisição do otimismo e da motivação para prosseguir. Somente nos amando encontraremos estímulos para caminhar um tanto mais.

Arrependimento é via de redenção e, ao mesmo tempo, castigo para almas em reeducação. Os arrependidos, conquanto a caminho da recuperação de si mesmo, experimentam larga dificuldade na autoaceitação, cobram severamente de si mesmos em razão do sistema autopunitivo implantado pelo morbo de culpa agregado ao seu campo áurico e perispiritual, em mutações vibratórias similares a descargas de alta voltagem. Uma insatisfação incessante, eis a faceta mais traduzível desse processo curativo do Espírito. Esse quantum energético enfermiço é um dos fatores causais da desarmonia dos neurotransmissores da química cerebral, como a serotonina e a noradrenalina.

Mesmo em desacordo com as definições da filosofia e da psicologia humanas, tratamos aqui do arrependimento como sendo a nossa maior conquista, uma virtude, e não somente um estado mental passageiro que decorre de atitudes equivocadas. É uma questão de decisão profunda para quem atingiu a saturação nas más escolhas que fez, repetidamente, em desacerto com as Leis Divinas. É uma virtude porque se trata de uma vitória substancial para que a alma, arraigada nos tormentos da ilusão, possa se libertar dos resultados infelizes de suas atitudes milenares.

Por essa razão, costumamos assinalar que para nós, criaturas em linha inicial de consciência e maturidade, especialmente para nós que abraçamos a causa espírita, nossa única qualidade é a de almas que nos arrependemos do mal e desejamos ardentemente o bem.

Que qualidade desenvolvemos senão a de cansarmos do mal deliberado? Que condição seria capaz de endossar o retorno à vida corporal, senão o desesperado anseio de recomeçar e refazer ações? Por que, então, o encanto ou delírio com traços sublimes que ainda não galgamos?

Acordemos para a Verdade espiritual que nos cerca e promovamos nosso distanciamento das ilusões de grandeza, as quais têm assalariado os conceitos sociais humanos que não asseguram sossego e luz ao coração cansado e sofrido por erros atrozes.

Sem medo, vergonha ou culpa, verifiquemos os quistos morais que fomos chamados a extirpar, e não nos sintamos diminuídos nem desvalorizados em razão dessa inadiável viagem ao encontro do eu superior.

Conforme elucida Kardec: "Desde que o culpado clame por misericórdia, Deus o ouve e lhe concede a esperança. Mas não basta o simples pesar do mal causado; é necessária a reparação, pelo que o culpado se vê submetido a novas provas em que pode, sempre por sua livre vontade, praticar o bem, reparando o mal que haja feito."(1)

Aqui chegamos ao ponto clímax de nossa reflexão. Somente se arrepender não basta, é preciso realizar. Somente estagiar no desejo de melhora não é suficiente para o equilíbrio, é mister agir na construção do bem. A reforma efetiva de nós mesmos depende de trabalho e obras.

Evitar o mal é a parcela inicial de um processo renovador. Fazer o bem é a etapa que vem a seguir, pela construção do bem em nós mesmos. Só o bem construído em ações pode ser sentido pelo coração, e somente sob a tutela das suas ondas renovadoras a alma, em ambos os planos existenciais, poderá talhar valores com mais intensidade no imo de si mesma. Vemos, assim, o valor incomparável das atividades doutrinárias de amor nos serviços sociais e nas práticas de espiritualização da doutrina espírita. No campo fértil dos estímulos de elevação, seja pelo estudo ou pela caridade sentida, o homem se ilumina e arregimenta forças sutis que o impulsionarão a mudanças profundas no reino da vida interior, as quais nem ele mesmo, a princípio, terá como aquilatar.

"A perda de um dedo mínimo, quando se esteja prestando um serviço, apaga mais faltas do que o suplício da carne suportado durante anos, com objetivo exclusivamente pessoal." (2)

"Só por meio do bem se repara o mal e a reparação nenhum mérito apresenta, se não atinge o homem nem no seu orgulho, nem nos seus interesses materiais." (3)

O arrependimento é nossa maior conquista, porque por meio dele já estamos procurando a reparação pelo labor no bem e pela reeducação dos costumes. Somente dessa forma somos capazes de vencer um dia após o outro, sem desanimarmos da oportuna semeadura de amor que começamos a plantar, independentemente das tormentas interiores provocadas pelo bisturi das dores emocionais que venhamos a experimentar.

Só o bem repara o mal. Só o bem nos dará energias essenciais para continuar.

Concluímos, portanto, que lutar e tentar, errar e recomeçar faz parte da longa caminhada regenerativa, e somente uma atitude pode fazer com que o arrependimento se transforme em loucura ou perturbação, fracasso ou queda: a desistência de tentar, pois assim transformaremos o arrependimento impulsionador em remorso estagnante e tortura mental o caminho do desajuste...

Trabalhemos incessantemente pelo bem.

E se algum de nós ainda nutre dúvida sobre o que seja o bem, guardemos a eloquente e universal fala do Espírito Verdade:

"Jesus disse: vede o que queríeis que vos fizessem ou não vos fizessem. Tudo se resume nisso. Não vos enganareis." (4)

1. O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec – Capítulo 27, Item 21.
2. O Livro dos Espíritos - Allan Kardec – Questão 1000.
3. O Livro dos Espíritos - Allan Kardec – Questão 1000.
4. O Livro dos Espíritos - Allan Kardec – Questão 632.

domingo, 26 de junho de 2016

A Velha Ilusão das Aparências

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 22


"Não basta que dos lábios manem leite e mel. Se o coração de modo algum lhes está associado, só há hipocrisia. Aquele cuja afabilidade e doçura não são fingidos nunca se desmente: é o mesmo, tanto em sociedade, como na intimidade. Esse, ao demais, sabe que se, pelas aparências, se consegue enganar os homens, a Deus ninguém engana."

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 9 - Item 6

Os adeptos sinceros do Espiritismo, mais que nunca, carecem de abordar com franqueza o velho problema da hipocrisia humana. Nesse particular, seria muito proveitoso que as agremiações doutrinárias promovessem debates grupais acerca dos caminhos e desafios que enfrentamos todos nós, os que decidimos por uma melhoria moral no reino do coração.

O chamado vício de santificação continua escravizando o mundo psicológico do homem a noções primárias e inconsistentes sobre como desenvolver o sagrado patrimônio das virtudes que se encontra adormecido na vida superconsciente do ser.

Hipocrisia é o hábito humano de aparentar ser o que não é em razão da necessidade de aprovação do grupo social com o qual convivemos. Intencional ou não, é um fenômeno profundo nas raízes emocionais e psíquicas, que envolve particularidades específicas de cada criatura, mas que pode ser conceituado como a atitude de simular, antes de tudo para si mesmo, uma imagem ideal daquilo que gostaríamos de ser. Difícil definir os limites entre o desejo sincero de aperfeiçoar-­se em direção a esse eu ideal e o comportamento artificial que nos leva a acreditar no fato de estarmos nos transformando, considerando a esteira de reflexos que criamos nas fileiras da mentira.

Aliás, para muitos corações sinceros, que efetivamente desejam o aprimoramento e mudança, detectar uma atitude falsa e uma ação que corresponda aos novos ideais costuma desenvolver um estado psicológico de insatisfação consigo mesmo, que pode ativar a culpa e a cobrança impiedosa. Instala-­se, assim, um cruel sistema mental de inaceitação de si mesmo que ruma para a mais habitual das camuflagens da hipocrisia: a negação, a fuga.

Não podemos asseverar que todo processo de defesa psíquica que vise negar a autêntica realidade humana seja algo patológico e nocivo. Muitas almas não teriam a mínima saúde mental não fossem semelhantes recursos que, em muitas ocasiões, funcionam como um escudo protetor que vai levando a criatura, pouco a pouco, ao conhecimento doloroso da verdadeira intimidade, até ter melhores e mais seguros recursos de libertação e equilíbrio. No entanto, quando nesse processo existe a participação intencional de ações que visem impressionar os outros com qualidades ainda não conquistadas, principalmente para auferir vantagens pessoais, então se estabelece a hipocrisia, uma ação deliberada de demonstrar atitudes que não correspondem à natureza dos sentimentos que constituem a rotina de sua vida afetiva.

As vivências sociais humanas, com suas exigências materialistas, conduziram o homem à aprendizagem da hipocrisia. A substituição de sentimentos foi um fenômeno adquirido. O hábito de camuflar o que se sente tornou-­se uma necessidade perante os grupos, e certas concepções foram desenvolvidas nesse contexto que estimulam a falsidade. Convencionou-­se, por exemplo, que homens não devem chorar, criando a imagem da insensibilidade masculina, em torno da qual bilhões de almas trafegam em papéis hipócritas e doentios. Certas profissões, como a de educador, durante séculos aprisionadas nas sombras do mito, levaram à criação de um abismo entre educador e educando, quando eram ambos obrigados a disfarçar emoções para respeitarem seus limites, impostos pela perversa institucionalização dos super-­heróis da cultura. Naturalmente, todos esses convencionalismos vêm sofrendo drásticas reformulações para o progresso das comunidades em direção a um período mais feliz e pleno de autenticidade nas atividades humanas.

Acompanhando essas renovações de mentalidade na cultura, é imperioso que os líderes e condutores espíritas tenham a coragem de sair de seus papéis, perante a coletividade doutrinária, e erguer a bandeira do diálogo franco e construtivo acerca das reais necessidades que todos carregamos, rompendo com um ciclo de faz de conta. Ciclo esse que somos, infelizmente, obrigados a afirmar, tem feito parte da vida de muitos adeptos do Espiritismo e até mesmo de grupos inteiros. Sem qualquer reprimenda, vejamos esse quadro como sendo inevitável em se tratando de almas como nós, mal saídas do primarismo evolutivo. Nada mais fizemos que caminhar apara a nossa hominização, ou seja, largar a selvageria instintiva e galgar os degraus da humanização – o núcleo central do aprendizado na fase hominal, a qual estamos apenas penetrando.

Adquirir essa consciência de que a evolução não se faz aos saltos, e sim etapa a etapa, é um valoroso passo na libertação desse vício de santificação, essa necessidade neurótica que incutimos ao longo de eras sem fim, especialmente nas leiras religiosas, com o qual queremos passar por aquilo que ainda não somos. Disso resulta o conflito, a dor, a cobrança, o perfeccionismo e todo um complexo de atitude de autodesamor.

Sejamos nós mesmos e não nos sintamos menores por isso. Aparentar santificação para o mundo não nos exonera da equânime realidade dos princípios universais. Ninguém escapa das leis criadas pelo Criador. A elas todos estamos submetidos. Que nos adiantará demonstrar santificação para os outros, se a vida dos espíritos é um espelho da Verdade que mostrará a cada um de nós, particularmente, como somos?

Se acreditamos, portanto, na imortalidade e sabemos da existência dessas leis-­espelho, deveríamos então concluir que quanto antes, para os que se encontram encarnados, tratarmos nossa realidade sem medos e culpas, maior será o bem que faremos a nós mesmos.

Recordemos, nesse ínterim, que a caridade para com o próximo, conquanto seja extenso tributo de ajuste aos Estatutos Divinos, não é passaporte de garantia para a movimentação nas experiências da autoridade e do equilíbrio nos planos imortais. Aprendamos, o quanto antes, a cultivar essa sensação de salvação, experimentada nos serviços de doação, também em nossos momentos de autoencontro. Essa conquista realmente nos pertence e ninguém pode tirá-la de nós em tempo algum.

Viver distante da hipocrisia não significa, necessariamente, expor a vida íntima e as lutas que carregamos a qualquer pessoa, mas expô-­las, antes de tudo, a nós mesmos, assumindo o que sentimos, os desejos que nutrimos, os sonhos que ainda trazemos, os sentimentos que nos incendeiam de paixões, os pensamentos que nos consomem as horas, esforçando-nos por analisar nossas más condutas. Por outro ângulo, esse mesmo processo de detecção consciente precisa ser realizado com nossos valores, as decisões infelizes que deixamos de tomar, o sacrifício de construir uma atividade espiritual, os novos costumes que estamos talhando na personalidade, os sentimentos sublimes que começam a ensaiar projetos de luz na nossa mente, as escolhas que temos feito no bem comum.

Reforma íntima, como a própria expressão comunica, quer dizer a mudança que fazemos por dentro. E jamais, em caso algum, ela se dará repentinamente, num salto. A santificação é um processo lento e gradativo. Cuidemos com atenção das velhas ilusões que nos fazem acreditar na angelitude por osmose, ou seja, de que a simples presença ou participação nos ofícios doutrinários é garantia de aperfeiçoamento.

Temos recebido, na vida espiritual, inúmeros companheiros de ideal cuja revolta consigo mesmos os leva a tormentos patológicos de graves proporções, quando percebem o equívoco de acreditar que tão somente sua adesão às atividades de amor lhes renderia o reino dos céus. A ilusão é tão intensa que requer tratamentos especializados e longos em nosso plano. E vejam, meus amigos encarnados, o que a mente é capaz, pois muitos desses corações poderiam se beneficiar intensamente das realizações a que se entregaram, podendo mesmo alguns obter um desencarne tranquilo. Todavia, sem exceção, estão esperando mais do que merecem; é quando surge a inconformação diante das expectativas de honrarias e glórias injustificáveis na espiritualidade. Esbravejam, então, ao perceberem que são tratados com muito carinho e amor, a fim de assumirem sua verdade realidade de doentes com baixo aproveitamento na reencarnação, colhendo espinhoso resultado de seu autoengano.

Espíritas amigos e irmãos, lembrai-vos de que todos estamos na Terra, planeta de testes infindáveis ao nosso aperfeiçoamento. Mesmo os que se encontram fora do corpo ajustam-se a essa conotação evolutiva. E nessa conjuntura, o caminho da santificação se amolda à realidade do homem que nela habita. Se, por agora, estivermos pelo menos nos esforçando para sair do mal que fazemos a nós e ao próximo, dirigimo-­nos para essa proposta sagrada. Todavia, se ansiamos por concretizar em mais larga escala as luzes de nossa santificação, lancemo-­nos com louvor a outra etapa do processo e aprendamos como criar todo o bem que pudermos em torno de nossos passos, soltando-­nos definitivamente de todos os grilhões do terrível sentimento do fingimento, o qual ainda nos faz sentir que somos aquilo que supomos ser.

sábado, 18 de junho de 2016

Depressões Reeducativas

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 21


"Sabeis por que, às vezes, uma vaga tristeza se apodera dos vossos corações e vos leva a considerar amarga a vida?"

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 5 - Item 25

Dores existenciais, quem não as experimenta?

A pergunta do espírito François de Genève foi elaborada num tempo em que os avanços das ciências psíquicas não tinham alcançado as profícuas conquistas da atualidade. Com o título A Melancolia e utilizando o saber espírita, esse colaborador da Equipe Verdade deu a primeira palavra sobre a grave questão dos transtornos de humor e sua relação com a vida espiritual.

À luz da ciência, depressão primária é o quadro cuja doença não depende de fatores causais para surgir, sendo, em si mesma, causa e efeito. Depressão secundária é aquele que decorre de um fator causal que pode ser, por exemplo, uma doença grave que resulta em levar o paciente a ficar deprimido.

Boa parcela dos episódios de depressão primária crônica, aqueles que se prolongam e agravam no tempo, mas que permanecem nos limites da neurose, ou seja, que não alcançam o nível de perda da realidade, são casos que merecem uma análise sob o enfoque espiritual graças à sua íntima vinculação com o crescimento interior.

À luz da imortalidade, as referidas depressões são como uma tristeza do espírito que amplia a consciência de si mesmo. Um processo que se inicia, na maioria dos casos, antes do retorno à vida corporal, quando a alma, em estado de maior liberdade dos sentidos, percebe com clareza a natureza de suas imperfeições, suas faltas e suas necessidades, que configuram um marcante sentimento de falência e desvio das Leis Naturais. A partir dessa visão ampliada, são estabelecidos registros profundos de inferioridade e desvalor pessoal em razão da insipiência na arte do perdão, especialmente do autoperdão. Nessa hora, quando a criatura dispõe de créditos mínimos para suportar esse espelho da consciência, seu processo corretivo inicia-se na própria vida extrafísica, em tratamentos muitos similares aos dos hospitais terrestres, até que haja um apaziguamento mental que lhe permita o retorno ao corpo. O mesmo não ocorre com quantos experimentam a dura realidade de se verem como são após a morte, mas que tombam nas garras impiedosas das trevas a que fizeram jus, regressando à vida corporal em condições expiatórias sob domínio de severas psicoses para colher os frutos das sementes que lançou.

Nessa ótica, depressão é um doloroso estado de desilusão que acomete o ser em busca da sua recuperação perante a própria consciência na vida física.

Essa análise amplia o conceito de reforma íntima por nos levar a concluir que soa para alma o instante divino para a reparação, conclamando-­a, após esbanjar a Herança do Pai, assim como o Filho Pródigo da parábola evangélica, ao recomeço progressivo no Colo Paternal, onde encontrará descanso e segurança – valores perdidos há milênios nos terrenos de sua vida afetiva.

Semelhantes depressões, portanto, são o resultado mais torturante da longa trajetória no egoísmo, porque o núcleo desse transtorno chama-­se desapontamento ou contrariedade, isto é, a incapacidade de viver e conviver com a frustração de não poder ser como se quer e ter de aceitar a vida como ela é, e não como se gostaria que fosse. Considerando o egoísmo como o hábito de ter nossos caprichos pessoais atendidos, a contrariedade é o preço que pagamos pelo esbanjamento do interesse individualista em milênios afora, mas, igualmente, é o sentimento que nos fará refletir na necessidade de mudança em busca de uma postura ajustada com as Leis Naturais da vida.

Para a maioria de nós, contrariedade significa que algo ou algum acontecimento não saiu como esperávamos, por isso algumas criaturas costumam dizer: "Nada na minha vida deu certo!". É tudo uma questão de interpretação. Quase sempre essa expressão "não deu certo" quer dizer que não saiu conforme nosso egoísmo. O desapontamento, portanto, é altamente educativo quando a alma, a optar pela tristeza e revolta, prefere enxergar um futuro diverso daquele que planejou, e no qual a grande meta da felicidade pode e deve estar incluída.

O renascimento corporal é programado para que a criatura encontre nas ocorrências da existência os ingredientes precisos à sua transformação. Brota, então, espontaneamente, o desajuste em forma de insatisfação crônica com a vida, funcionando como canal de expulsão de culpas armazenadas no tempo, controladas com a força de mecanismos mentais defensivos ainda desconhecidos da ciência humana e eclodindo sem possibilidade de contenção. Um expurgo psíquico em doses suportáveis...

Os sintomas, a partir de então, são muitos conhecidos da medicina humana: insônia, tristeza persistente, ideias de autoextermínio, vazio existencial e outros tantos. Poderíamos asseverar que almas comprometidas com esse quadro psicológico já renascem com um ego frágil, suscetível a uma baixa tolerância com suas falhas e estilo de vida, uma dolorosa incapacidade de se aceitar, menos ainda de se amar. No fundo, permanece o desejo impotente de querer a vida conforme seus planos, mas tudo conspira para que tenha a vida que precisa, em vista de suas necessidades de aperfeiçoamento.

A rebeldia, no entanto, que é a forma de reagir perante os convites renovadores, pode agravar ainda mais a prova íntima. Nesse caso, o homem afunda em dores emocionais acerbas que o martirizam no clímax da dor-resgate. Medo, revolta, suscetibilidade, impotência diante dos desafios são algumas das expressões afetivas que podem alcançar a condição doentia, quando sustentadas pela teimosia em não aceitar as propostas das circunstâncias que lhe contrariam os sonhos e as fantasias de realização e gozo. Forma-­se, então, um quadro de insatisfação crônica com a vida.

Como já dissemos, esse é, sem dúvida, o mais infeliz efeito do nosso egoísmo, que age contra nós mesmos ao decidirmos abandonar a suposta supremacia e grandeza que pensávamos possuir em nossas ilusões milenares de orgulho que se desfazem ao sopro renovador da Verdade.

Eis as mais conhecidas faces provacionais da vida mental e emocional do espírito que experimenta a dor das depressões primárias crônicas, cujo processo detona sua melhoria espiritual, que já vem sendo relegada ao longo dos tempos:

- Aflição antecipada com perdas – neurose de apego.

- Medo da frustração – neurose de perfeccionismo.

- Extrema resistência com a autoaceitação – neurose de vergonha.

- Desgaste energético pelo esforço para manter controle – neurose de domínio.

- Formas sutis de autopunição – neurose de culpa.

- Nítida sensação de que o esforço de melhoria é infrutífero – neurose de ansiedade.

- Acentuada suscetibilidade nos fatos corriqueiros – neurose de autopiedade.

- Surgimento imprevisto e sem razão de preocupações inúteis – neurose de martírio.

A depressão, assim analisada, é uma forma de focar o mundo que decorre de fatores intrínsecos, endógenos, desenvolvidos em milênios de egoísmo e orgulho. Chamamo-­la, em nosso plano, de silenciosa expiação reparadora.

Acostumados a impor nossos desejos e a imprimir a marca do individualismo, somos agora chamados pela dor reeducativa a novos posicionamentos, que nos custam, quase sempre, a cirurgia dos quistos de pretensão e onipotência, ao preço de silenciosa expiação no reino da vida mental. Somos contrariados pela vida para que eduquemos nossas potencialidades.

Infelizmente, com raras exceções, nossos gostos são canteiros de ilusões onde semeamos os interesses pessoais em franca indiferença às necessidades do próximo, colhendo frutos amargos que nos devolvem à realidade.

Há de se ter muita humildade para aceitar a vida como ela é, compreender suas "reclamações" endereçadas à nossa consciência e tomar uma postura reeducativa. O orgulho é o manto escuro que tecemos com o fio do egoísmo, com o qual procuramos nos proteger da inferioridade que resistimos aceitar em nós mesmos de longa data.

Bom será quando tivermos a coragem de nos mirar no espelho da honestidade e aprender a conduta excelsa do perdão, porque quem perdoa conquista sua alforria das celas da mágoa e da culpa. Conquanto a princípio o sentimento de culpa possa fazer parte da reconstrução de nossos caminhos, temos a assinalar que sua presença ainda é sinal de orgulho por expressar nossa inconformação com o que somos, ou nossa rebeldia em aceitar nossa falibilidade. Se o orgulho é um manto com o qual ingenuamente acreditamos estar protegidos dos alvitres vindos de fora concitando-­nos à autenticidade, a culpa é a lâmina cortante vindo de dentro que nos retira o controle e exige um novo proceder.

Apesar do quadro expiatório, as depressões reeducativas, quando vencidas, trazem como prêmio um extraordinário domínio de si mesmo, sem que isso signifique querer viver a vida a seu gosto, e também um largo autoconhecimento. Passada a prova, ficará o aprendizado.

Essa depressão reeducativa afiniza-­se, sobremaneira, com a visão de François de Genève, porque a maior aspiração da alma é se libertar das ilusões da vida material e gozar das companhias eleitas. Assim expressa o autor: "Se, no curso desse degredo-­provação, exonerando-vos dos vossos encargos, sobre vós desabarem os cuidados, as inquietações e tribulações, sede fortes e corajosos para os suportar. Afrontai-os resolutos. Duram pouco e vos conduzirão à companhia dos amigos por quem chorais e que, jubilosos por ver-­vos de novo entre eles, vos estenderão os braços, a fim de guiar-­vos a uma região inacessível às aflições da Terra".

terça-feira, 7 de junho de 2016

Imprudência no Trânsito

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 20


"Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição!"

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 5 - Item 4

Cumprimos nossos afazeres rotineiros no Hospital Esperança, quando fomos chamados com urgência por dona Maria Modesto Cravo no saguão para confinamento de acidentados.

Descemos o mais rápido que pudemos em direção aos pavilhões do subsolo, acompanhados por Rosângela, jovem aprendiz que se tornou infatigável companheira nos serviços de socorro.

Ao chegarmos, adentramos a unidade de tratamentos especializados e vimos Frederico, excelente cooperador das lides mediúnicas em conhecido estado brasileiro, em condições dolorosas.

Dona Modesta nos recebeu com a notícia:

— Fizemos o que foi possível, como você sabe, Ermance, mas veja o resultado...

— E qual o prognóstico, dona Modesta?

— Coma mental! Foi recolhido trinta minutos após o acidente, sem problemas com vampirismo e nem com o desligamento dos chacras.

— Ficará no monitoramento ou vai para as câmaras de recomposição?

— Por dois dias, permanecerá aqui, depois vamos reavaliar o quadro. Verifique você mesma o estado.

Aproximamo-nos. Rosângela, sempre atenta, acompanhava cada detalhe. Frederico estava com o corpo em estado de languidez, musculatura flácida e muitos ferimentos expostos na região craniana. Um leve toque na sua fronte foi o suficiente para aferir a problemática mental. Intenso barulho de vidros estilhaçados e ferro sendo retorcido, seguido de uma infeliz sensação de descontrole e impotência. O corpo perispiritual assemelhava-­se a uma massa amolecida que lembrava um corpo após o desfalecimento, mas com muito maior soma de flacidez. Não seria exagero dizer que parecia estar se desmanchando. A cor arroxeada dos pés à cabeça dava a ideia cadavérica e assombrosa. Rosângela se apiedava da situação de nosso amigo e teve um leve mal­-estar devido à cessão espontânea de energias. Saímos um pouco do ambiente, juntamente com Dona Modesta, enquanto trabalhadores especializados tornavam outras providências.

Dona Modesta, sempre atenciosa, indagou:

— Está melhor, Rosângela?

— Sim, foi uma doação imprevista. Estou tranquila.

Percebendo que Rosângela se recuperava, dirigiu-se a mim com as informações:

— Como você bem conhece a história, a despeito das inúmeras qualidades que faziam dele um homem íntegro, Frederico agia como uma criança ao volante. Sempre impudente no trânsito, acreditava em demasia na segurança do automóvel e preferiu ignorar os cuidados que deveria tomar. Negou-se a se reeducar nas lições do trânsito e colhe agora o fruto amargo de sua opção. Foi alertado muitas vezes fora do corpo, durante as noites de sono, em vão. Providenciamos amizades que o chamaram à responsabilidade, sem sucesso. Por fim, ele vai ser a lição em si mesmo, embora com o elevadíssimo preço da vida física.

Atenta a sempre educadamente curiosa, Rosângela questionou:

— Poderíamos aventar a hipótese de inimigos espirituais no caso, já que era médium?

— De forma alguma, minha jovem.

— Haveria algum componente cármico em aberto para resgate em forma de morte trágica?

— Também não, Rosângela.

— Algum descuido da parte dele, que não seja na arte de conduzir o veículo?

— Absolutamente, ele era extraordinariamente precavido quanto à manutenção do carro, com o objetivo de que usufruísse tudo o que a máquina podia oferecer. Não ingeria alcoólicos, era possuidor de reconhecida habilidade visual e motora.

— Então é um caso de imprudência?

— Pura imprudência, minha filha. Ultrapassou em muito a velocidade permitida em plena via urbana. Retorna com trinta e sete anos de antecedência, deixando família e uma reencarnação promissora com sua mediunidade e vida espírita consciente. Todo o amparo possível e desejável em nome da misericórdia foi-­lhe oferecido. O mundo físico, nesse instante, vai cogitar de carmas e obsessões, resgate e liberação, todavia, o que Frederico mais vai precisar é de tempo, autoperdão, paciência e muitas dolorosas intervenções cirúrgicas.

— Quanta dor desnecessária! — asseverou a jovem com grande lamento.

— Não existe dor desnecessária, Rosângela, existem provas dispensáveis, ou seja, tribulações que poderíamos evitar. A dor será tão grande e valorosa que levará Frederico à virtude da prudência em toda a eternidade. O que é de se lamentar é que poderia aprender isso a preço módico nos investimentos da vida. Não podemos confundir acaso e programação divina.

— Elucide meus raciocínios, dona Modesta, qual é a diferença?

A benfeitora, no entanto, como de costume, querendo esquivar-­se da postura professoral, falou:

— Querida Ermance, responda você mesmo a essa oportuna interrogação que deveria ser refletida e mencionada entre os espíritas reencarnados.

— Sim, dona Modesta, com prazer. Como sabemos, o acaso seria uma aberração nas Leis do Universo, portanto, não existe. É parte de uma concepção da ignorância em que ainda estagiamos. Dessa forma, todo acontecimento tem suas razões explicáveis. A programação reencarnatória, entretanto, é um plano com objetivos divinos em favor de quem regressa à sagrada experiência corporal na escola terrena. Semelhante projeto sofre as mais intensas e flexíveis alterações durante a jornada. Veja o caso de Frederico, que alterou em mais de três décadas o seu retorno. Nem sempre o que acontece está na programação da vida física; nem por isso existe acaso, ou seja, mesmo o imprevisto tem finalidades sublimes na ordem universal, embora pudesse ser evitado. Nada existe por acaso, quer dizer, para tudo há uma causa, uma explicação. Isso não significa que tudo tenha de acontecer como acontece. Até os fatos do mal não existem sem causalidade, nem por isso podemos concebê-­lo como uma obra do Pai, e sim reflexo oriundo de nossas decisões infelizes.

— Em sua ficha não constava o regresso na categoria de morte trágica?

— Não, ele se enquadrava na morte natural por idade, gozando de plena saúde.

— Suponhamos, então, que constasse um resgate através de tragédia, qual seria sua situação?

Dona Modesta interveio com naturalidade, esclarecendo:

— Se assim fosse, minha jovem, ainda seria um suicida, porque estaria, nesse caso, antecipando o tempo de sua liberação. Inclusive a categoria de desencarne pode sofrer modificações, conforme o proveito pessoal na reencarnação. Temos casos, aqui mesmo no Hospital, de criaturas que ressarciriam velhos crimes de guerra com desenlaces lentos, sofrendo longamente nas pontas dos bisturis e tesouras cirúrgicas e que, no entanto, levaram um leve escorregão no banheiro e acordaram na vida extrafísica felizes e saudáveis... Há também mudanças para melhor...

A conversa avançou, enquanto aguardávamos algumas providências de refazimento a Frederico. Passados alguns minutos, fomos orientados por dona Modesta:

— Chamei-­a, Ermance, a fim de que possa integrar a equipe de amparo à família de Frederico. A esposa está inconsolável. Como você sabe, ela não tem a fé espírita e está confusa.

— Sim, vou inteirar-­me das iniciativas e logo rumaremos para a residência para prestar os auxílios possíveis.

Quando regressávamos para os pavilhões superiores do Hospital, acompanhados por Rosângela, ela retornou sua sede de aprender:

— Ermance, mesmo não tendo sido intencional, a morte de Frederico será considerada um suicídio?

— Certamente. Não há ninguém que vá considerar a morte de alguém um suicídio, mas o Espírito, ao retornar a posse da vida imortal, submete-­se aos regimes naturais que vigoram no Universo. Por se tratar de uma criatura tão consciente quanto o médium Frederico, a cobrança consciencial é maior. Ele próprio se imporá severos castigos.

— Então, mesmo não havendo intenções propositadas de um criminoso, ele guarda um nível de culpabilidade pelo esclarecimento que possuía?

— Certamente. Todo esclarecimento nos torna mais responsáveis. Quando Frederico retomar a lucidez completamente, iniciará uma etapa muito dolorosa de reconstrução mental. Alguns casos similares levam a estágios prolongados, anos a fio, na para-esquizofrenia (1), um quadro muito similar à doença psiquiátrica da classificação humana agravado pelas ideoplastias. Para isso temos aquele saguão no qual ficam confinados os hebetados em transes psíquicos que a Terra ainda desconhece. Seus quadros vão muito além dos transtornos psicóticos. O fato de não ter a intenção do trespasse e de se comportar à luz do Evangelho o livrou de outros tantos tormentos voluntários que ainda poderiam agravar em muito o seu drama, em peregrinações pelas regiões inferiores na crosta terrena. Para se obter melhores noções sobre o tema, sugiro a você, minha jovem, que reflita e estude o tema Lei de Liberdade, na Parte Terceira de O Livro dos Espíritos, acrescido da oportuna questão 954, que diz:

"Será condenável uma imprudência que compromete a vida sem necessidade? Não há culpabilidade, em não havendo intenção, ou consciência perfeita da prática do mal".

                                           

Amigos espíritas,

Por trás da imprudência escondem-­se, quase sempre, os verdugos da ansiedade, da malquerença, da vaidade de aparências, da avareza e de múltiplas carências que o homem procura preencher correndo risco e desafios em nome do entretenimento e da vitoria transitória.

A postura ética do homem de bem perante as leis civis deve ser a da integridade moral.

A direção de um veículo motorizado é uma arte, e como tal deve ser conduzida: a arte de respeitar a vida.

Os códigos existem para ser cumpridos.

Habitue-­se à disciplina nesse mister e procure agir com discernimento e vigilância perante as obrigatoriedades que lhe são pedidas.

Se outros não as seguem, responderão por si mesmos, e não por você.

Você, porém, deve agir no trânsito memorizando sempre que por trás de cada volante existe uma alma em provação carregando perigosa arma nas mãos, nem sempre sob controle.

Procure ser o pacificador e renove seu proceder, por mais desacertos nas avenidas do mundo...

Dirija com o coração, e não com o cérebro, e jamais esqueça que todos nós responderemos pela utilização que fizermos dos bens que nos foram confiados.

Aprenda a respeitar as leis humanas, considerando esse um passo favorável para a sua melhoria espiritual.

Faça de sua condução uma ocasião de autoconhecimento e procure averiguar o que sustenta a atitude de insensatez em acreditar que jamais ocorrerá com você os lamentáveis episódios que já ceifaram milhões de corpos, nos testes da prudência e da responsabilidade. Habilidade pessoal adquirida com o tempo é crédito que lhe solicita mais cautela, enquanto os iludidos nela enxergam competência com permissão para o exagero.

Quanto à segurança das máquinas, analisemo-­la como medida de prevenção e segurança, não como quesito para o abuso.

Recorde que, até mesmo como pedestre, há convenções que lhe cabem para a cooperação nos espaços comunitários.

Nossa tarefa, enquanto desencarnados, é proteger e orientar sempre conforme os limites das convenções, ultrapassando-­as somente quando o amor não se torna conivência.

Nesse sentido, estejam certos os amigos encarnados que, de nossa parte, respeitamos o que estipula a lei terrena; assim, apuramos sempre se o ponteiro não ultrapassa em muito a velocidade permitida como uma medida aferidora de equilíbrio para a harmonia geral, critério seletivo para dispensar amparo e auxílio em casos de reincidência...

1. Nota da editora: esta expressão é usada no plano espiritual para indicar outras variantes na classificação das doenças psiquiátricas.