segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A Rota dos Filhos Pródigos

Escutando Sentimentos - Introdução

Por CALDERARO (1)

"Vem um dia em que ao culpado, cansado de sofrer, com o orgulho afinal abatido, Deus abre os braços para receber o filho pródigo que se lhe lança aos pés. As provas rudes, ouvi-me bem, são quase sempre indício de um fim de sofrimento e de um aperfeiçoamento do Espírito, quando aceitas com o pensamento em Deus".
Santo Agostinho, Paris, 1862.

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 14 - Item 9

Os terapeutas e voluntários dispostos a servirem ao próximo na tarefa de amor e recuperação espiritual não podem dispensar uma análise cuidadosa da passagem evangélica do Filho Pródigo, constante no Evangelho de Lucas, capítulo quinze, versículos onze a trinta e dois. Essa mensagem evangélica é a história da peregrinação humana ao longo dos evos. A história de nosso caminhar pela conquista da humanização.

Consideremos o egoísmo como a doença original do Ser. Ninguém escapou de experimentá-lo na espiral do crescimento. Até certa etapa, foi impulso para frente. Depois, quando a racionalidade permitiu a capacidade de escolher, tornou-se a matriz nosológica das dores humanas, transformando-se no hábito doentio de atender aos caprichos pessoais.

A "centralidade" do homem no ego estruturou a arrogância - sentimento de exagerada importância pessoal. Perdemos o contato com a fonte inexaurível da vida - o "self Divino" - e passamos a peregrinar sob a escravidão do "eu". O resultado mais infeliz desse caminhar "apartado de Deus" foi uma terrível sensação de abandono e inferioridade. O ato de arrogar constituiu, pois, a proteção instintiva da alma contra a sensação de menos-valia. Esse foi seu primeiro passo no processo evolutivo em direção à ilusão, ou seja, a criação de uma imagem idealizada - um mecanismo de defesa para não desistir -, que fixou a vida mental em noções delirantes sobre si mesma. Assim nasceram no tempo as "matrizes psíquicas" das mais graves patologias mentais.

Essa auto-imagem é o "delírio-primitivo", um recurso que, paulatinamente, a consciência foi "obrigada" a construir no conjunto das percepções de si mesma para se defender da sensação de indignidade perante a vida.

Nessa ótica podemos pensar em psicopatologias como uma recusa em ser humano, uma desobediência por não querer assumir o que se é na caminhada do progresso. Tornar-se humano significa assumir sua pequenez no todo universal, ter consciência da cruel sensação de "desconexão" com o Criador e do que realmente representamos no contexto do bailado cósmico. Mas também significa assumir-se como "Filho de Deus", um Filho Pródigo de heranças excelsas que precisa descobri-las por si próprio e adquirir o título de "Herdeiro em Sua Obra". Isso exige trabalho, dinamismo, ação e responsabilidade.

Portanto, a velha questão filosófica da realidade é mais velha que se imagina. Fragmentação psíquica não se restringe apenas ao resultado de desajustes ou traumas. Existe um desajuste original, um "gatilho milenar" dos processos psíquicos do Espírito, agravados pelas sistemáticas recusas em admitir a realidade íntima no peregrinar das reencarnações.

Esse mecanismo defensivo primitivo foi trazido para a Terra por almas desobedientes que o consolidaram em outros orbes. As noções de abandono e castigo trazidas com os deportados incitaram os habitantes singelos da Terra a imitarem as atitudes de rebeldia, orgulho, revolta e desvalor. Analisar o adoecimento psíquico sem essa anamnese ontológico-espiritual é desconsiderar a causa profunda das enfermidades sob a perspectiva sistêmica da evolução.

Algumas patologias constitucionais, endógenas, encontram explicações ricas na compreensão das histórias longínquas da deportação. Isso não é uma hipótese tão distante quanto se imagina, porque os efeitos dessa história milenar são ativos e determinantes na atualidade em bilhões de criaturas atormentadas e enfermas. O "desajuste primário", a dificuldade em aceitar a realidade terrena, é fator patogênico de bilhões de almas reencarnadas e de mais um conjunto de bilhões de outras fora do corpo, formando uma "teia vibratória psicótica" no cinturão da psicosfera terrena. A energia emanada da sensação coletiva de inferioridade é uma força epidêmica que puxa o homem para trás e dificulta o avanço dos que anseiam pela ascensão.

O "tamponamento mental" na transmigração intermundos foi parcial. Os "símios psíquicos", quando fora do corpo pelo sono físico, tinham noções claras do sucedido, acendendo o destrutivo pavio da inconformação ao regressarem à carne, dilatando a sensação de prisão, ódio e rebeldia. O ato de rebelar-se passou a ser uma constante nas comunidades que se formaram. Estamos falando de um tempo aproximado de trinta a quarenta mil anos passados.

Surgem, nesse contexto emocional e psicológico, entre dez a vinte mil anos atrás, as primeiras manifestações de perfeccionismo - o anseio neurótico de resgate do perfeito dentro da concepção dos "anjos decaídos". Um litígio que essas almas deportadas assumiram com Deus para provarem a grandeza que supunham possuir.

Quando foi dinamizado o processo distônico? Na Terra? Fora dela? Ou teríamos também a hipótese de uma loucura aprendida? Que casos de patologias se enquadrariam no perfil psíquico dos que habitavam a Terra antes da vinda dos deportados? Que componentes nas doenças severas nos permitem analisá-las como rebeldia imitada ou rebeldia processual? Que natureza de obsessão envolve as patologias severas? Até onde e como a vivência do Espírito errante influencia nesse contexto?

Lançando o olhar para tão longe nas rotas de crescimento humano, fica mais permissível compreender a estreiteza dos conceitos de muitas correntes das ciências psíquicas, que esboçam uma valorosa cartografia da mente, porém, rudimentar, incompleta. Sem o estudo dos ascendentes espirituais, jamais teremos uma análise judiciosa das psicopatologias. Mormente dos casos raros e desafiantes que têm surgido na transição do planeta, cujo Código Internacional de Doenças é insuficiente para classificar.

Igualmente, é imperioso considerar a relação entre psicopatologia e erraticidade. Existem ignorados lances de dor e "morte psicológica" que são deflagrados em aglomerações subcrostais ou regiões abissais da Terra onde transita uma semicivilização de almas. Autênticos "símios psíquicos".

Em tempo algum, como atualmente, no orbe terreno, tivemos mais que 1/5 (um quinto) de sua população geral em processo de reencarnação. Reencarnar não é tão fácil quanto possa parecer. É oportunidade rara e "disputada". Cada história individual requer inúmeros quesitos para ser disponibilizada. Laços afetivos, urgência das necessidades sociais, natureza dos compromissos com os seres das regiões da maldade. Os pontos de análise que pesam para a possibilidade de um Espírito reencarnar são muito variados. Há corações que nesse trajeto de deportação, ou seja, nos últimos quarenta mil anos, estiveram no corpo menos de vinte vezes. O que significa afirmar que reencarnam aproximadamente de dois em dois mil anos. Outros não reencarnam há mais de dez mil anos.

Portanto, como analisar doenças mentais graves sem considerar que estagiamos na "vida dos Espíritos", pelo menos, dois terços do tempo da evolução, incluindo a emancipação pelos desdobramentos noturnos?! Como ignorar a decisiva influência das experiências da erraticidade? Enquanto os homens, à luz do Espiritismo, analisam a raiz de suas lutas íntimas, lançando o olhar para as vidas passadas, urge uma reflexão sobre a influência das experiências do Espírito errante.

Inúmeras almas já "renascem adoecidas", isto é, com os componentes psíquicos enfermiços em efervescência. Perdem o prazer de viver ou nunca o experimentam em decorrência da força dos laços que ainda mantêm com essas "regiões infernais" da erraticidade.

Assevera O Livro dos Espíritos na questão 975: "Para o Espírito errante, já não há véus. Ele se acha como tendo saído de um nevoeiro e vê o que o distancia da felicidade. Mais sofre então, porque compreende quanto foi culpado. Não tem mais ilusões: vê as coisas na sua realidade."

"Na erraticidade, o Espírito descortina, de um lado, todas as suas existências passadas; de outro, o futuro que lhe está prometido e percebe o que lhe falta para atingi-lo. É qual viajor que chega ao cume de uma montanha: vê o caminho que percorreu e o que lhe resta percorrer, a fim de chegar ao fim da sua jornada."

Os profissionais da saúde mental e mesmo quantos sofrem o amargor do adoecimento psíquico necessitam aprofundar a sonda do conhecimento nessas desafiantes questões. Somente através de "laboratórios de amor" nos serviços de intercâmbios socorristas, realizados distantes de preconceitos e convenções, poderá o médico ou o pesquisador espírita deflagrar um leque imenso de observações e informações para auxiliar a humanidade cansada e oprimida.

Além dos reflexos que conduzem em si mesmos, os doentes mentais cujos quadros exibem componentes dessa natureza ainda sofrem de simbioses intrigantes e desconhecidas até mesmo pelos mais experientes doutrinadores.

A história da evolução da alma na humanidade é assunto de valor na erradicação dos mais variados problemas sociais. Já não basta mais uma análise perfunctória das lutas humanas. Imperioso que os corações mais comprometidos com a arte de amar, estando ou não sob a luz da ciência, lancem-se ao mister da "pesquisa fraterna" e da "investigação educativa", em atividades que transponham os limites institucionais do exercício mediúnico ou de terapias experimentais, no intuito de rasgarem véus.

Uma indagação do codificador na questão 973 de O Livro dos Espíritos merece análise na conclusão de nossos raciocínio:

"Quais os sofrimentos maiores a que os Espíritos maus se vêem sujeitos?"

"Não há descrição possível das torturas morais que constituem a punição de certos crimes. Mesmo o que as sofre teria dificuldade em vos dar delas uma ideia. Indubitavelmente, porém, a mais horrível consiste em pensarem que estão condenados sem remissão."

É por conta desse sentimento de condenação, incrustado no psiquismo desde tempos imemoriais, que a criatura, em tese, não consegue ou desconhece o prazer de viver, a saúde.

Possivelmente, a esmagadora maioria da população terrena, por essa razão, esteja situada psicologicamente na passagem do Filho Pródigo exatamente no versículo dezenove que diz:

"Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros".

A rota evolutiva dos Filhos Pródigos - que somos todos nós - é um percurso de esbanjamento psíquico através da atitude arrogante. Tal ação não poderia ser correspondida com outra sensação senão de vazio interior, cansaço de si e desvalimento, que são os elementos emocionais estruturadores da depressão - doença da alma ou estado afetivo de penúria e insatisfação. A terminologia contemporânea que melhor define esse "caos sentimental" é a baixa auto-estima, quadro psicológico que nos enseja ampliar ostensivamente os limites conceituais dos episódios depressivos, sob enfoque do Espírito imortal.

Nesta hora grave pela qual passa a Terra, um destrutivo sentimento de indignidade aninha-se na vida psicológica dos homens. Raríssimos corações escapam dos efeitos de semelhante tragédia espiritual, causadora de feridas diversas. Uma dolorosa sensação de inadequação e desvalor pessoal assoma o campo das emoções com efeitos lastimáveis. Abandono, carência, solidão, sensação de fracasso e diversos tormentos da mente agrupam-se na construção de complexos psíquicos de desamor e adversidade consigo próprio.

Salienta Santo Agostinho: Vem um dia em que ao culpado, cansado de sofrer, com o orgulho afinal abatido, Deus abre os braços para receber o filho pródigo que se lhe lança aos pés.

Imprescindível atestar que nossa trajetória eivada de quedas e erros não retirou de nenhum de nós a excelsa condição de Filhos de Deus. A Celeste Bondade do Mais Alto, mesmo ciente de nossas mazelas, conferiu-nos a bênção da reencarnação com enobrecedores propósitos de aquisição da Luz. É a Lei do Amor, mola propulsora do progresso e das conquistas evolutivas.

A Misericórdia, todavia, não é conivente. Espera-nos no cadinho educativo do serviço paciente do burilamento íntimo. Contra os anelos de ascensão, encontramos em nossa intimidade os frutos amargos da semeadura inconsequente. São forças vivas e renitentes a vencer.

Sem dúvida, a ignorância cultural é causa de misérias sociais incontáveis, entretanto, a ignorância moral, aquela que mata ideais e aprisiona o homem em si mesmo, é a maior fonte de padecimentos da humanidade terrena.

O amor a si mesmo ainda é uma lição a aprender. Uma longa e paciente lição!

Quantas reencarnações neste momento têm por objetivo precípuo restabelecer o desejo de viver e recuperar a alegria de sentir-se em paz! Como operar semelhante transformação sem a aplicação da caridade consigo mesmo?

Criados para o amor, nosso destino glorioso é a integração com a energia da vida e com a liberdade em seu sentido de plenitude e paz interior. Ninguém ficará fora desse Fatalismo Divino.

Distantes do amor a si, ficaremos à mercê das provações sem recursos para sustentar na vida interior os valores latentes que nos conduzirão à missão individual estabelecida pelo Pai em nosso favor.

O auto-amor é base para uma vida em sintonia com a mensagem do Evangelho do Cristo. Sua proposta, aliás, é que nos amemos tanto quanto ao nosso próximo.

Descobrir nosso valor pessoal na Obra da Criação é assumirmo-nos como somos. Sois Deuses (2), eis a mensagem de inclusão e o convite para uma participação mais consciente e responsável no destino de cada um de nós.

Inspirada em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Ermance Dufaux garimpa pérolas de raro valor com as quais, abnegadamente, oferece-nos esta preciosa joia literária para a alma. Suas reflexões constituem o antídoto para a velha doença da qual buscamos nos desvencilhar: o egoísmo e suas múltiplas manifestações doentias.

Felicita-nos avalizá-la, sob a égide do Espírito Verdade, para que destine aos homens na Terra uma mensagem de paz interior no resgate da nossa condição excelsa de Filhos Pródigos e Homens de Bem.


Calderaro, Hospital Esperança, Março de 2005. (3)


1. Calderaro é o iluminado instrutor de André Luiz na obra "No Mundo Maior", psicografia de Francisco Cândido Xavier - edição FEB.
2. João, 10:34.
3. Nota do médium: O prefácio de Calderaro foi escrito no Hospital Esperança e transcrito pela autora espiritual Ermance Dufaux através da psicografia. O Hospital Esperança é uma obra de amor erguida por Eurípedes Barsanulfo na erraticidade.

domingo, 16 de outubro de 2016

Escutando a Alma

Escutando Sentimentos - Prefácio


"Ouça quem tem ouvidos de ouvir."

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 17 - Item 5

Os apontamentos aqui organizados constituem indicativas às preces angustiadas de milhões de almas que anseiam a felicidade sem saber como e o que fazer para alcançá-la.

Inúmeras dessas rogativas partem de corações queridos iluminados com o conhecimento espírita. Aflitos uns, desanimados outros, apesar do clarão do saber doutrinário, sentem-se frustrados ao examinarem sua vida interior. Tarefas e orientação, prece e  esforço, segundo suas súplicas, não têm sido suficientes. Continuam, dia após dia, carregando o martírio mental sem soluções ou alternativas de sossego e paz interior.

Adentramos o período da maioridade. O Espiritismo é uma semente viçosa e promissora cultivada com sacrifício e renúncia por lavradores heroicos. Contudo, de que servirá as sementes se não forem lançadas no terreno fértil? É sob o Sol escaldante deste momento de transição que nos compete lavrar o chão e dominar o arado para o plantio de um novo tempo na própria intimidade.

O período de maioridade das idéias espíritas será alcançado com a instauração das atitudes de amor em nossas relações. Para isso, torna-se indispensável aprofundar a sonda da investigação mental no reino subjetivo dos sentimentos.

Quando conseguirmos melhor desenvoltura para mapear nossa vida moral com intenções nobres, renovaremos a conduta manifestando serenidade e autocontrole. O caminho é universal. É o mesmo para todos: o bem e o amor. A forma de caminhar, porém, é essencialmente individual, particular.

A mensagem espírita, em muitas ocasiões, é difundida como ameaça e recebida como tormenta por muitos adeptos. Ressalta excessivamente as feridas, estipulam rigidez de conduta e excessos normativos. Urge dar um '"novo sentido" à mensagem consoladora. A Doutrina Espírita é a Boa Nova dos tempos modernos. Sua mais nobre característica consoladora somente será comprovada quando seus postulados estiverem a serviço da libertação de consciências, através da responsabilidade e do amor.

Nas preces angustiadas de muitos adeptos, ouvimos as indagações: "O que me falta fazer para ser feliz?", "Onde estou falhando?", "Será uma obsessão que me persegue?', "Por que me encontro assim?", "Não deveria estar melhor?", "Como harmonizar padrões doutrinários com sentimentos pessoais?." E as questões multiplicam ao infinito traduzindo apelos comoventes e dúvidas sinceras.

A pedido de Doutor Bezerra de Menezes - amorável tutor das dores humanas - destinamos ao mundo físico este volume singelo. Aqui anotamos alguns ensinos inesquecíveis que marcaram a visita de uma semana do instrutor Calderaro ao Hospital Esperança, cuja missão foi a realização de serviços complexos nas mais profundas plagas de sofrimento da erraticidade.

Nossos núcleos de amor cristão e espírita alicerçaram bases seguras para informação doutrinária no século XX. Compete-nos agora semear o afeto, as propostas renovadoras do coração, o desenvolvimento das habilidades emocionais. O século XXI é o século do sentimento.

Trabalhar pelo desenvolvimento dos potenciais e das virtudes humanas, esse o objetivo sagrado da mensagem imortalista do Espiritismo no século XXI. Educar para ser, educar para conviver bem consigo, educar para ser feliz, eis os pilares da harmonia interior e da felicidade à luz do Espírito imortal neste século do coração.

A informação consola e instrui. A transformação liberta e moraliza.

A informação impulsiona. A transformação descobre.

Os informados pensam. Os transformados criam.

A teoria impulsiona a busca de novos valores. A reeducação dos sentimentos enseja a paz interior.

As diretrizes doutrinárias estimulam convenções que servem de limites disciplinadores. A renovação da sensibilidade conduz-nos ao encontro da singularidade que permite a plenitude íntima.

Inteligência - o instrumento evolutivo para as conquistas de fora.

Sentimento - conquista evolutiva para aquisições íntimas.

Na acústica da alma existem mensagens sobre o Plano do Criador para nosso destino. Aprender a ouvi-las é exercitar, diariamente, a plena atenção aos ditames libertadores dos sentimentos. Interferências internas e externas subtraem-nos, constantemente, a apreensão desses "recados do coração".

Escutar os sentimentos não significa adotá-los prontamente, mas aceitá-los em nossa intimidade e criar uma relação amigável com todos eles. Aceitá-los sem reprimir ou se envergonhar. Essa atitude é o primeiro passo para um diálogo educativo com nosso mundo íntimo. Somente assim teremos uma conexão com nossa real identidade psicológica, possibilitando a rica aventura do autodescobrimento no rumo da singularidade - a identidade cósmica do Espírito.

Escutar os sentimentos é cuidar de si, amar a si mesmo. É uma mudança de atitude consigo. O ato de existir ocorre no sentimento. Quem pensa corretamente sobrevive; quem sente nobremente existe. O pensamento é a janela para a realidade; o sentimento é o ponto de encontro com a Verdade. É pela nossa forma de sentir a vida que nos tornamos singulares, únicos e celebramos a individualidade. Quando entramos em sintonia com nossa exclusividade e manifestamos o que somos, a felicidade acontece em nossas vidas.

O sentimento é a maior conquista evolutiva do Espírito. Aprendendo a escutá-lo, estaremos entendendo melhor a nossa alma. Não existe um só sentimento que não tenha importância no processo do crescimento pessoal. Quando digo a mim mesmo "não posso sentir isto", simplesmente estou desprezando a oportunidade de auto investigação, de saber qual é ou quais são as mensagens profundas da vida mental.

O exercício do auto-amor está em aprender a ouvir a "voz do coração", pois nele residem os ditames para nossa paz e harmonia.

Os sentimentos são guias infalíveis da alma na sua busca de ascensão e liberdade. O auto-amor consiste na arte de aprender a escutá-los, estudar a linguagem do coração.

Pela linguagem dos sentimentos, entendemos o "apoio" do universo a nosso favor. Mas como seguir nossos sentimentos com tantas ilusões? Eis a ingente tarefa de nossos grêmios de amor espírita-cristão: educar para ouvir os nossos sentimentos. Radiografar nosso coração. Desenvolver estudos sistematizados de si mesmo.

Temos nos esforçado tanto quanto possível para aplicar as orientações da doutrina com nosso próximo. Mas... E nós? Como cuidar de nós próprios? A proposta libertadora de Jesus estabelece: "amai ao próximo", e acrescenta:"como a ti mesmo".

Os impulsos do self não atendidos, com o tempo, transformam-se em tristeza, angústia, desânimo, mau-humor, depressão, irritação, melindre e insatisfação crônica.

Além dos fatores de ordem evolutiva, encontramos gravames sociais para a questão da baixa auto-estima.

As gerações nascidas na segunda metade do século XX atingem o alvorecer do século XXI com "feridas psicológicas" profundas resultantes de uma sociedade repressiva, cujas relações de amor, com raras e heroicas exceções, foram vividas de modo condicional através de exigências. Para ser amada, a criança teve que atender a estereótipos de conduta.Um amor compensatório. Um rigor que afasta o ser humano de sua individualidade soterrando sua vocação, seus instintos, suas habilidades e até mesmo imperfeições. O pior efeito dessa repressão social é a distância que se criou dos sentimentos.

Essa geração pós-guerra vive na atualidade o conflito decorrente de céleres mudanças na educação e na ciência, que constrange ao gigantesco desafio de responder à intrigante questão: quem sou eu?

Paciência, atenção, perdão, tolerância, não julgamento, caridade e tantos outros ensinos do Evangelho que procuramos na relação com o próximo, devem ser aplicados, igualmente, a nós mesmos. Então surge a pergunta: Como?

Distante de nós a pretensão de responder. Nossa proposta consiste em oferecer alguns subsídios para pensarmos juntos sobre essa questão. Moveu-nos apenas o sentimento de ser útil, compartilhar vivências que suscitem o debate, a reflexão conjunta, a meditação e o estudo em nossos grupos de amor espírita e cristão. Grupos dispostos a compreender a linguagem emocional sob a ótica da imortalidade.

Temos no Hospital Esperança os grupos de reencontro, que são atividades de psicologia da alma com fins terapêuticos e educacionais - verdadeiras oficinas do sentimento. No plano físico, atividades similares poderão constituir uma autêntica pedagogia de contextualização para a mensagem de amor contida no Evangelho e na codificação Kardequiana.

Nestas páginas oferecemos alguns enfoques elementares para a composição de grupos de estudos à luz da mensagem renovadora do Espiritismo, cujo objetivo seja discutir o ingente desafio de aprender a amar a nós mesmos tanto quanto merecemos, promovendo o desenvolvimento pessoal à luz da imortalidade. Grupos de reencontro que se estruturem como encantadoras oficinas do coração.

Nossos textos nada possuem de conclusivos. Ao contrário, são sugestões singelas com intuito de serem debatidos, pesquisados e contestados, visando ampliação do entendimento e uma reformulação de conceitos sobre a arte de sentir e viver. Exaramos algumas idéias que nos auxiliam a pensar em nosso bem sem sermos egoístas, conquistarmos autonomia sem vaidade, galgarmos os degraus do auto-amor sem arrogância.

Fique claro: auto-amor não é treinar o pensamento para beneficiar a si, mas educar o sentimento para "escutar" Deus em nós. Descobrir nosso valor pessoal na Obra da Criação.

Tecemos nossas considerações inspiradas em O Evangelho Segundo O Espiritismo. As palavras imorredouras da Boa Nova constituem o cânone mais completo de psicologia da felicidade para os habitantes do planeta Terra.

Façamos o mergulho interior na fala do Mestre:"Ouça quem tem ouvidos de ouvir."

Em outra ocasião (...) voltou-se para a multidão, e disse: quem tocou nas minhas vestes? (1). Escutando e auscultando o coração feminino que lhe procurou rico de sensibilidade e afeto.

Escutemos a alma e suas manifestações no coração! Celebremos a experiência de amarmo-nos tanto quanto merecemos!

O eminente Doutor Carl Gustav Jung asseverou: "Nenhuma circunstância exterior substitui a experiência interna. E é só à luz dos acontecimentos internos que entendo a mim mesmo. São eles que constituem a singularidade de minha vida" (2).

Escutemos os sentimentos e nossa vida terá mais encanto, alegria e paz.

Nutrida pelas melhores esperanças de cooperar e servir, destino aos leitores e amigos de ideal um abraço afetuoso.

Ermance Dufaux - setembro de 2006


1. Mateus 9:29.
2. C. G. Jung, "Entrevistas e Encontros", Editora Cultrix.

SELF*
"É o arquétipo da totalidade, isto é, tendência existente no inconsciente de todo ser humano à busca do máximo de si mesmo e ao encontro com Deus. É o centro organizador da psiquê. É o centro do aparelho psíquico, englobando o consciente e o inconsciente. Como arquétipo, se apresenta nos sonhos, mitos e contos de fadas como uma personalidade superior, como um rei, um salvador ou um redentor. É uma dimensão da qual o ego evolui e se constitui. O Self é o arquétipo central da ordem, da organização. São numerosos os símbolos oníricos do Self, a maioria deles aparecendo como figura central no sonho". 

(trecho extraído da obra "Mito Pessoal e Destino Humano" do escritor espírita e psicólogo Adenáuer Novaes)

SOMBRA*
"É a parte da personalidade que é por nós negada ou desconhecida, cujos conteúdos são incompatíveis com a conduta consciente". 

(trecho extraído da obra "Psicologia e Espiritualidade" do escritor espírita e psicólogo Adenáuer Novaes).

* Nota do Médium: Conceitos Junguianos usados pela autora espiritual na obra.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Escutando Sentimentos - Sinopse


ESCUTANDO SENTIMENTOS 
A ATITUDE DE AMAR-NOS COMO MERECEMOS

ERMANCE DUFAUX



"Utilizando conceitos da psicologia Junguiana, do Evangelho e da Doutrina Espírita, Ermance constrói textos que nos ensinam o auto-amor. A autora assevera que nós espíritas temos dado passos importantes no amor ao próximo, mas nem sempre sabemos como cuidar de nós mesmos, tratando-nos com culpas, medos e outros sentimentos que não colaboram para nossa felicidade."



sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Em Que Ponto da Evolução Nos Encontramos?

Reforma Íntima Sem Martírio - Epílogo


“Segundo a ideia falsíssima de que lhe não é possível reformar a sua própria natureza, o homem se julga dispensado de empregar esforços para se corrigir dos defeitos em que de boa vontade se compraz, ou que exigiriam muita perseverança para serem extirpados”.

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 9 - Item 10

O Espiritismo é a Resposta do Alto em favor da humanidade desnorteada. Esclarece de onde viemos, para onde vamos e o que fazemos quando na vida terrena. Sem dúvida, Doutrina Espírita é o facho de luz que faltava aos raciocínios do homem materialista. Contudo, a sua clareza mediana, para inúmeros adeptos, não ultrapassa a condição de princípios universais com pouca utilidade no encontro das respostas a tais questões, quando focadas no terreno da individualidade.

O que significa, na intimidade da alma, cada uma dessas indagações acima mencionadas? Pergunte a um aprendiz espírita de larga vivência doutrinária se tem noções claras sobre a origem de sua reencarnação; indague-­se, de outros, se conhecem os objetivos essenciais de suas metas reencarnatórias, ou ainda consulte-os sobre o que esperam para si mesmos depois do desencarne! Quase sempre ouviremos respostas evasivas, próprias da infância espiritual que ainda assinala nossa caminhada rumo à maturidade.

De onde viemos, para onde vamos e a razão da vida no corpo quase sempre são apenas informações sem aprofundamento. Nem sempre conhecer os fundamentos filosóficos significa conscientização. Temos noções de espiritualidade, compete-­nos agora construir o caminho pessoal de espiritualização, proceder a aquisição das vivências singulares, únicas e incomparáveis, estritamente individuais, a que somos chamados na linha do crescimento e da ascensão.

Conhecemos as bases filosóficas, falta-­nos saber filosofar, aprender a pensar, tornarmo­nos agentes transformadores de nossa história, isso é educação.

Discípulos sem conta, tomados de ilusão e personalismo, acreditam ser depositários de virtude e grandeza tão somente em razão de possuírem alguns “chavões espíritas” para todas as questões que tangenciam os problemas humanos. Utilizando-­se da reencarnação, mediunidade e todo o conjunto de fundamentos filosóficos, postam-­se como decifradores circunstanciais de enigmas da vida alheia, entretanto, nem para si mesmos possuem suficiente esclarecimento na edificação da paz interior. Não se aprofundam nos dramas íntimos que carregam em si mesmos, sendo constrangidos, em inúmeras ocasiões, a desconfortável encontro com sua sombra, quando, então, são compelidos pela dor e pela frustração, diante do labirinto de seus problemas, a pensar a repensar suas lutas, aprofundando a sonda da razão nas causas ignoradas de suas reações e atitudes, pensamentos e emoções.

Renovação é trabalho lento e progressivo, muito embora avançado número de aprendizes espíritas assaltados por ilusões esteja favorecendo a morosidade ou o estacionamento em desfavor de si mesmos. Muitas crenças desprovidas de bom-senso e vigilância, nascidas de raciocínios confusos, têm servido de obstáculo ao serviço transformar nas sendas doutrinárias. Uns querem caminhar mais rápido do que podem, outros desacreditam que podem superar a si mesmos. Esses últimos, porém, os que deixaram de acreditar em si mesmos, são aqueles que Hahnemann situa em sua fala: “Segundo a ideia falsíssima de que lhe não é possível reformar sua própria natureza, o homem se julga dispensado de empregar esforços para se corrigir dos defeitos em que de boa vontade se compraz, ou que exigiriam muita perseverança para serem extirpados”.

Crenças enfermiças têm tomado conta da vida mental de muitas criaturas que se permitem acreditar não ser capazes de vencer a ­si mesmas. É assim que ouvimos, com frequência, algumas expressões de derrotismo que traduzem a desesperança de muitos corações que, em tese, já decidiram por servir a dois senhores (1), conforme a prédica evangélica. Frases como: “Estou cansado da vida, não posso mais caminhar, preciso de um tempo!”, “Não possuo qualidades suficientes para operar minha renovação!”, “Quem sou eu para chegar a esse ponto de evolução!” “Não dou conta dessas propostas, são muito exigentes!”, e outras tantas falas semelhantes que desfilam nas passarelas do desculpismo são os sinais evidentes daqueles que optaram ou estão prestes a optar pelos caminhos largos da vida, renunciando à batalha pela conquista da porta estreita das escolhas vitoriosas.

Decerto, a nenhum de nós será pedido mais do que pudermos dar. Todavia, muita acomodação e descuido tem acontecido nas fileiras educativas do Espiritismo, tão somente porque os discípulos não têm se armado de suficiente humildade para reconhecer consigo mesmos a natureza e a extensão de suas imperfeições. Muitos, apesar do conhecimento, têm preferido os leitos confortáveis da ilusão, acreditando-se melhores do que realmente são. Sob o fascínio do orgulho, sentem vergonha, medo de se expor e profunda tristeza por se verem a braços com mazelas que já gostariam de ter superado, mas que ainda muito lhes agrada. E é esse clima de profundo desconforto consciencial que a alma evolve. Premido pela tristeza das atitudes das quais já gostaria de se ver livre é que nasce o impulso para a transformação e o progresso. Contudo, é aqui também que muitos têm se entregado e desistido ante os apelos quase irresistíveis da atração para a queda.

Imprescindível elastecer noções sobre o estágio em que nos encontramos, para administrar com mais sabedoria e equilíbrio o conflito que se instala em nosso íntimo entre o que devemos fazer, o que queremos fazer e o que podemos fazer. Posições extremistas têm instaurado dores desnecessárias. Há homens e mulheres espíritas com antigos instintos animalescos que querem ser anjos do dia para a noite, nos campos de sua espiritualização. Outros, por sua vez, são detentores de larga soma de conquistas, entretanto julgam-­se incapacitados, aprisionados a avaliações negativistas que os fazem se sentir vermes rastejantes nas fileiras da vida. O resultado inevitável dessas visões distorcidas é o martírio. Ampliemos, portanto, o raio de entendimento sobre o estágio em que nos encontramos. Para se chegar a algum lugar melhor, alcançar alguma meta maior, torna-­se imperioso conscientizar-se sobre onde nos encontraremos na evolução. Sem saber onde estamos, caminharemos para lugar nenhum.

Levamos milhões de anos vividos na irracionalidade até alcançarmos a hominalidade. Como hominais, avançamos na arte de pensar, mas nem por isso será justo, no conceito cósmico, dizermo-nos civilizados, conforme nos asseveram os Nobres Guias: “...não tereis verdadeiramente o direto de dizer-vos civilizados senão quando de vossa sociedade houverdes banido os vícios que a desonram e quando viverdes como irmãos, praticando a caridade cristã. Até então, sereis apenas povos esclarecidos, que hão percorrido a primeira fase da civilização (2).

A esse respeito, o senhor Allan Kardec interrogou a Sabedoria dos Imortais:

“Uma vez no período da humanidade, conserva o Espírito traços do que era precedentemente, quer dizer: do estado em que se achava no período a que se poderia chamar ante-­humano?”

“Conforme a distância que medeie entre os dois períodos e o progresso realizado. Durante algumas gerações, pode ele conservar vestígios mais ou menos pronunciados do estado primitivo, porquanto nada se opera na Natureza por brusca transição. Há sempre anéis que ligam as extremidades da cadeia dos seres e dos acontecimentos. Aqueles vestígios, porém, se apagam com o desenvolvimento do livre ­arbítrio. Os primeiros progressos só muito lentamente se efetuam, porque ainda não têm a secundá-­los a vontade. Vão em progressão mais rápida, à medida que o Espírito adquire perfeita consciência de si mesmo” (3).

Na questão em epígrafe consta: “Os primeiros progressos só muito lentamente se efetuam, porque ainda não têm a secundá-­los a vontade. Vão em progressão mais rápida, à medida que o Espírito adquire perfeita consciência de si mesmo”. Imprescindível ao nosso aperfeiçoamento moral será saber em que estágio nos situamos, a fim de não tropeçarmos em velhas ilusões de grandeza. Em verdade, apenas iniciamos o serviço de autoaprimoramento. O trajeto das poucas conquistas que amealhamos foi realizado, preponderantemente, na horizontalidade dos valores cognitivos. Somente agora damos os primeiros passos para a verticalização em direção às habilidades da consciência de nós mesmos no terreno dos sentimentos. Precisamos constatar que nada mais somos, por enquanto, que criaturas que ensaiam os primeiros passos para sair do primitivismo moral rumo à humanização ou hominização integral.

Apesar de já peregrinarmos há milênios no reino hominal, ainda não nos fizemos legítimos proprietários da Herança Paternal a nós confiada. Não será impróprio dizer que somos “meio humanizados”.

Contudo, apesar dessa radiografia de nosso estágio evolutivo, existe muita vertigem provocada pelo orgulho em razão de nossa pouca competência em nos autoavaliar. Dentre elas, como aquela que se pode assinalar como sendo acentuadamente prejudicial aos ideais de transformação interior, vamos encontrar o desejo infantil, que acompanha muitos, de tomar de assalto a angelitude instantânea.

Pois se mal deflagramos o labor de assumir a condição hominal, como agir como anjos?

Entre a angelitude e a hominalidade existe a semeadura fértil da humanização. Carecemos, primeiramente, nos consolidar como seres humanizados e descortinar todas as conquistas próprias dessa etapa para, então, posteriormente, galgar novos patamares, naturalmente.

Desejando santificação, muitos aprendizes da Nova Revelação descuidam de pequenas lições educativas da ascensão passo a passo, vivendo uma reforma idealizada e não sentida. Como conceber almas educadas na mensagem da Boa Nova Espírita, pois, algumas vezes, a criatura afeiçoada às lições doutrinárias não é capaz de utilizar com responsabilidade e correção um banheiro higiênico no próprio lar?

O melhor e mais ajustado sentido para o trabalho interior de melhoria pode ser compreendido como a conquista da consciência de si mesmo, a aquisição do patrimônio da divindade que dormita no imo de nós próprios desde os primórdios da criação. Menos do que vencer as sombras interiores, o desafio da reforma espiritual requer a capacidade de criar o bem em nós pela fixação dos valores novos. Mais que evitar o mal, é necessário saber desenvolver habilidades eternas.

Reforma íntima é o serviço gradativo da instauração das virtudes celestes, a aquisição da consciência desse tesouro, o qual todos somos convocados a tomar posse perante a lei natural do progresso.

O mal será transformado em bem por seus opostos. O medo será renovado aprendendo a exercer coragem, a inveja sofrerá mutação pelo exercício da abnegação, a avareza será metamorfoseada à medida em que nos habilitarmos ao exercício do desprendimento, a irritação será convertida pela aquisição da serenidade.

Evitemos conceber mudança interior sob enfoque restrito de repressão. Medo contido pode ser trauma para o futuro; inveja reprimida pode salientar-se como frustração somatizada; avareza apenas dominada pode caminhar para o desânimo; irritação somente controlada pode caminhar para a raiva.

Contenção é disciplina. Aquisição de novas qualidades é educação.

Disciplinar é meio, educação é a grande meta.

Estamos aprendendo a descobrir nossas sombras, essa é uma etapa do processo. Convém-nos, portanto, laborar pela outra etapa, não menos importante: a de aprender a fazer luz e construir a harmonia interior – eis um bom motivo para nos livrarmos do martírio.


1. O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo 16.
2. O Livro dos Espíritos – Questão 793.
3. O Livro dos Espíritos – Questão 609.


terça-feira, 20 de setembro de 2016

Conclave de Líderes - Parte 2

Reforma Íntima Sem Martírio - Capítulo 30

(CONTINUAÇÃO de "Conclave de Líderes - Parte 1")



Após os cumprimentos finais, vimos que extensa fila de cooperadores formava um corredor indicando por onde regressariam os que estavam emancipados do corpo. Devido à condição de semitorpor, não ofereciam condições favoráveis ao diálogo, a não ser um ou outro que já demonstrava melhor habilidade nas incursões noturnas fora da vida corporal. Desfeita rapidamente aquela aglomeração, cada um retornava a seus afazeres. Rosângela, Sérgio e Pedro Helvécio, jovens com os quais sempre contávamos nas atividades do Hospital Esperança, solicitaram-­nos alguns momentos de prosa com Dona Modesta. Para nossa surpresa, quando percebemos, ela própria espontaneamente deslocava-­se da mesa onde se encontrava em nossa direção, a nos dizer:

— Teremos alcançado nossos nobres objetivos, Ermance?

— Creio que sim, Dona Modesta. O ambiente estava apropriado e, no que pude avaliar, as disposições psicológicas de nossos irmãos com a transposição do milênio, de alguma forma, infundiam-­lhes um ânimo especial para que arquivem desejavelmente a mensagem em seus corações. Precisaremos de tempo para aferir com exatidão as promessas deste momento, aguardemos. No entanto, Dona Modesta, nossos jovens, como de costume, ficaram muito motivados e querem experimentar sua vivência com algumas indagações.

— Estou à disposição.

Com sua natural curiosidade, Rosângela foi a primeira a interrogar:


— Notei certa inquietude entre os participantes nesse “estado de graça” fora da matéria. Em alguns casos, era visível o desagrado com algumas falas do professor Cícero. Como pode isso ocorrer entre os “mil escolhidos pelo Senhor” para ouvir essa preleção? Não deveriam estar alegres e demonstrado mais satisfação com a ocasião em razão da grandeza que possuem como líderes religiosos?

Ela ainda externava suas questões tomando por base a recém-­finda experiência reencarnatória nas fileiras do Protestantismo. Suas expressões ainda deixavam claras suas visões evangélicas. Seu desejo de aprender, no entanto, era enorme.

— Rosângela, minha jovem, não são “escolhidos do Senhor” e nem estão em “estado de graça”. São almas que lutam tenazmente com suas tendências. De fato, não deveriam estagiar ainda nesse psiquismo de desagrado quando ouviram as claras advertências do professor. Todavia, essas criaturas que aqui foram trazidas são os mil líderes espíritas encarnados que mais padecem de um terrível mal, o qual assola a maioria das fileiras de serviço do Cristo nas expressões religiosas de todos os tempos.

— E que mal é esse, Dona Modesta? — atalhou Rosângela, ansiosa.


— A doença da autossuficiência espiritual ou o fascínio com a importância grandiosa que muitos corações supõem possuir nos serviços de Jesus. Os amigos espíritas, especialmente os mais experimentados na arte de liderar, precisam vigiar com muita cautela o encanto que têm devotado a suas folhas de serviço. Bastas vezes confundem quantidade de tarefas e realizações com ascensão evolutiva, como se fizessem carreira nos ofícios de sua espiritualização. Ocorre que muitos corações de ideal, em todas as atividades doutrinárias, têm passado pelas tarefas sem se educarem por meio delas, e quanto mais expressivas elas são, mais aumentam os riscos de vaidade e ilusão. Temos por aqui vastos pavilhões de médiuns, divulgadores, escritores, evangelizadores da juventude, presidentes de centros espíritas, dispensadores da caridade pública, todos abençoados com as luzes da Doutrina Espírita, entretanto, sem conquistarem sua luz própria. Sufocaram-­se no orgulho com a cultura e a experiência doutrinárias e negligenciaram o engrandecimento moral de si mesmos pela reeducação dos hábitos e da aquisição de virtudes eternas. É um engano milenar da ilusão humana, ainda afeiçoada a vantagens exteriores sem a consolidação dos ensinos Cristãos no próprio coração. Como disse o Senhor: “O Reino de Deus não vem com aparência exterior” (1).

Sérgio, não contendo seu desejo de aprender e participar, externou:

— Dona Modesta, qual a principal imperfeição desses líderes que estaria redundando em problemas para os ofícios da seara?


— São excessivamente controladores por julgarem enxergar mais. Carregam consigo uma das mais antigas mazelas humanas: o desejo de serem servidos – uma faceta emocional sutil do desejo de serem amados ou da necessidade de serem queridos e aprovados pelos outros, a qual termina por ser transferida para o costume de serem bajulados e incensados pelos que os rodeiam. Esse velho monstro da alma surge sorrateiramente como um hábito doentio de ordenar e comandar pessoas, já experimentado em muitas e muitas vidas sucessivas, uma forma de satisfação do egoísmo humano. Considerando o vício de prestígio que carregam esses corações, são intensamente atraídos para posturas de destaque. Adoram os cargos e o poder e, embora possamos encontrá-­los também distantes dos títulos, estes são por eles possuídos no campo psicológico. São criaturas que realizam muito e têm significativa visão de conjunto das necessidades do movimento social em torno das ideias espíritas, apenas pecando pelo orgulho em que se inspiram por suporem possuir todas as respostas e caminhos para todas as necessidades e percalços da seara. Isso os torna úteis em certas situações e extremamente rejeitados pela arrogância em outras, quando excedem na atitude com sua suposta sapiência e grandeza. Verdadeiramente, nossos irmãos que aqui estiveram guardam conquistas apreciáveis, porém, nem sempre conseguem deixar de se enganar pelo personalismo que ainda carregam. Uma vez nessa postura, fica fácil reconhecer-­lhes as imperfeições prejudiciais ao serviço da obra cristã, porque não ouvem opiniões por julgarem ter as melhores, guardam convicções pessoais exacerbadas, não dão atenção às críticas, quase sempre decidem sozinhos, tornam-­se poucos afetivos, muito racionais e adoram mandar sem fazer, ordenar sem cumprir. O conjunto dessas características os promove a uma das condições mais inaceitáveis na atualidade para qualquer grupamento que se proponha a crescer espiritualmente: o autoritarismo.


— Mas, Dona Modesta — continuou indagando Sérgio —, o que lhes tem faltado para agirem com essa atitude de supremacia?

— Visão imortalista, meu filho. Lembro-­me como fosse hoje que, quando encarnada, o Espiritismo prático ou a mediunidade espontânea era de uma riqueza incomparável, conduzindo os homens a uma visão da vida afinada com a ética de imortalidade. Hoje, há uma priorização do assistencialismo e da preservação filosófica, na qual a grande maiorias dos núcleos distanciou-­se das vivências de intercâmbio sadias e educativas nos horizontes da mediunidade santificada. Falta-lhes o Espiritismo com espíritos, na expressão de Yvonne do Amaral Pereira. O exercício mediúnico sério tem sido escasso nas casas do Espiritismo, e o que prepondera é o consolo nas sessões de intercâmbio. Embora com seus méritos, a transcendência da faculdade que liga os mundos não tem se convertido em chances para que os benfeitores do além possam transmitir sua experiência e participar com mais assiduidade das vivências dos homens. Não foram poucas as vezes que Bezerra de Menezes teve  de contar com Centros de Umbanda e Candomblé, nos quais se encontram muitos corações afeiçoados ao amor, para fazer seus ditados ou operar suas curas. Lá, a espontaneidade e o desejo de servir muitas vezes sobressaem como qualidades indiscutíveis em relação a muitos centros doutrinários do Espiritismo, os quais têm fechado as portas mentais para o trânsito dos bons espíritos. Tem havido um engessamento voluntário do exercício mediúnico, surgido a partir da tese animista, em meados do século passado. Sem visão de vida imortal, acomodam-­se e deixam de descobrir horizontes novos. Estacionam na paralisia do pensamento em conceitos e não se permitem reciclar práticas. Muitos, além disso, infelizmente, perderam o gosto de aprender, esbaldando-­se em seus histórico de serviços, sem apresentar algo de útil para os reclames do momento atual.


Pedro Helvécio, sempre muito paciente, vendo o rumo da conversação, perguntou com sabedoria:

— Que objetiva a tarefa dessa noite, em que foram trazidos para ouvir essa linha de raciocínio sobre a reforma íntima?

— Em fazerem uma autoavaliação. Notem que o professor não lhes chamou a atenção diretamente em nada, porque senão regressariam ao corpo imediatamente com forte indisposição emocional. Nesse caso, ao recobrarem a lucidez física, alegariam que estiveram em tarefas de auxílio nas regiões inferiores. O professor, com os cuidados que exigiam o momento, tangenciou os problemas morais de nossos irmãos conclamando-­os ao tratamento. Não destacou suas doenças, e sim o remédio. Ao convocá-­los a um projeto de humanização, concede-­lhes a chave dos seus problemas porque terão que se igualar, terão de se fazer gente comum e despir-se da aura de santidade que tanto lhes apraz. Os líderes espíritas, quase sem exceções, asilam enorme sentimento de serem úteis à causa, mas se tornaram, como é natural acontecer em nosso estágio evolutivo, vítimas de si mesmos na medida em que usaram sua habilidade de gerir para interferir. Fazem uma liderança a gosto pessoal, e não conforme os imperativos do Evangelho e da pedagogia moderna...

— Quais são as chances de sucesso da iniciativa de trazê-­los aqui?

— Apesar do êxito deste momento, Helvécio, as chances de que nossos irmãos aproveitem a ocasião tanto quanto necessitam são muito reduzidas. Eles já perderam o gosto de ouvir, adoram mesmo é falar muito. Seus ouvidos não estão conforme a assertiva evangélica, ouvidos de ouvir (2). Muitos, em suas crises de autossuficiência, em verdade, zombam, inconscientemente, da inexperiência alheia expedindo prognósticos e avaliações sem considerar o valor que possuem para a tarefa do Cristo. Quando alguns tomam caminhos diversos dos seus, fazem previsões futuristas pessimistas para os outros e chegam, em alguns casos, a dizer que perderão até a reencarnação caso façam isso ou aquilo. São apaixonados pela ideia de ser os proprietários da Verdade, até mesmo do que virá a acontecer, apoiando-­se, frequentemente, em teorias e produções mediúnicas de valores duvidosos ou interpretadas por suas leituras tendenciosas e bem pessoais.


— Dona Modesta — interveio Helvécio —, observei em sua resposta à Rosângela que esses mil dirigentes são os que mais sofrem desse mal. Seria certo deduzir, portanto, que a seara doutrinária tem sido atacada por essa doença moral?

— Certamente, meu jovem. Independentemente das iniciativas coletivas como a dessa noite, os esforços se multiplicam no campo individual com cada trabalhador. Uma cultura de grandeza tem estimulado esse drama ético entre os coidealistas no plano físico. Grande distância medeia entre possuir uma grande missão e ser um grande missionário. De fato, quantos foram iluminados com a Doutrina Espírita e são como a luz do mundo, contudo, temos que ser honestos e considerar que boa parcela dos irmãos tem sucumbido aos golpes sutis do orgulho, julgando-­se bem mais valorosos que realmente são para os ofícios da causa. Descuidaram de se converter a crianças em espírito. A criança é curiosa, nunca se imagina além do que é, reveste-­se de simplicidade, sem pretensões pessoais de ser a melhor, tem a alma aberta para o novo e a mente livre do que já passou e do que ainda virá, vivendo intensamente o momento presente. Não somente esses mil, mas uma infinidade de homens e mulheres da direção nos centros espiritistas se encontram nas garras da autossuficiência, fascinados por seus feitos e com sua bagagem, nutrindo pouca disposição para ser avaliados e criticados em suas ideias e ações. Gostam mesmo é de serem admirados e aprovados sem restrições, sendo que alguns adoram impressionar.


Percebendo a fala oportuna, lembrei-me das tarefas intercessoras que temos participado em companhia de Dona Modesta e Eurípedes juntamente à crosta e resolvi sugerir:

— Dona Modesta, poderia nos trazer algo sobre as obsessões nesse terreno?

— Sim, Ermance, bem lembrado! Quando a postura de nossos companheiros raia para esses despropósitos da conduta, os adversários do bem se aproveitam a largamente. Muitos e graves episódios de fascinação coletiva rondam a seara Espírita em razão desse lamentável quadro de personalismo e vaidade. Por essa razão, nosso Senhor Jesus Cristo colocou uma criança no meio dos discípulos e disse: “... se não vos converterdes e não vos fizerdes meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus” (3). O resto da história vocês já conhecem, basta olhar os pavilhões do Hospital Esperança, lotados de dirigentes que não souberam se diminuir para que o Cristo crescesse (4). Ajudaram muitos a se renovar, mas não cuidaram tanto quanto careciam da mudança interior de si mesmos. Lembram-­se do episódio da mulher adúltera, quando Jesus pediu para atirar a pedra? Quem foi que saiu primeiro?

— Os mais velhos — respondeu de pronto Rosângela, pois tinha os versículos na ponta da língua.

— Os mais velhos saíram primeiro porque traziam mais condicionamentos e menos disposição de rasgar suas folhas de serviço perante a vida. Será preciso muita humildade dos líderes cristãos para que assumam o importante papel que lhes compete nas tarefas da Doutrina. Precisarão de muita coragem pra desapegar do que sabem, não envelhecer com suas ideias, ter a habilidade para deixar de ser repetitivos e aprender como se recicla sem se sentir desmoralizados ou menos amados. Muitos deles, para manter as aparências, abandonaram a capacidade de sentir a alegria e de ser simpáticos, tornando-­se estereótipos de rigidez, com a qual pretendem ser imponentes e expressar ideias de sábios e homens da autoridade, essa é a doença da autossuficiência espiritual.


Helvécio, desejoso de dar novo rumo ao diálogo, inferiu:

— Apesar das lutas morais, nossos irmãos são valorosos na semeadura do Cristo!

Atalhou Dona Modesta, incontinenti:

— Os esforços dessa hora só se justificam por essa razão. Eles são depositários de expectativas alvissareiras de Mais Alto. São corações que merecem o refrigério da misericórdia em face do calor das refregas que enfrentam. Ao destacar seus traços enfermiços, o fazemos com unção e desejo de amparar. O Espiritismo penetra seu terceiro ciclo de setenta anos, no qual se concretizará a maioridade das ideias espíritas (5). Nossos companheiros, se souberem se adequar, serão excelentes operários de um tempo novo. Uma geração nova regressa às fileiras carnais da humanidade para arejar o panorama de todas as expressões segmentares do orbe, interligando-ase e projetando-­as a ampliados patamares de utilidade. O movimento espírita não ficará fora desse contexto, sendo bafejado por um processo de atualização de metodologias, comportamentos, práticas e conceitos, o que ensejará uma cultura cujos traços serão o pluralismo e a lógica. Apesar desses avanços, o livre ­exame e o raciocínio científico que consolidam essas características só terão valor quando se destinarem a criar o humanismo e a ética, o afeto e o bem-estar. É tempo de renovar. Os Decretos Celestes são tufões de purificação que esterilizam todos os rincões da Terra. O fogo renovador dos Embaixadores do Bem está ajuntando o joio em molhos para queimar. As almas que cristalizarem o pensamento nos redutos do preconceito ou do dogmatismo enfrentarão sofrida crise de impotência, amargando o vexame e o desânimo. É por amor aos nossos líderes espíritas que aqui os trouxemos. Mais que nunca precisarão sedimentar em seus atos a tolerância construtiva, visão futurista, empatia com o próximo e desapego de suas realizações pessoais – quesitos essenciais para formarem o clima do diálogo e do entendimento com alteridade, as únicas vias de acesso ao paradigma do século 21, que estabelece a parceria solidária e pacífica como alvo de todas as aspirações sociais e humanitárias. Se eles se rebelarem e se fixarem na condição de apaixonados pelas suas obras, experimentarão a falência e a angústia quando aqui se aportarem. Mesmo que tenham realizado muito, talvez não terão edificado os valores essenciais para a garantia da paz consciencial no altar divino dos sentimentos elevados. Se os avisamos agora, é para que não se queixem depois.


Finda a conversa, saímos todos pensativos sobre a urgente necessidade da campanha pela humanização de nossa seara. Mais que um projeto de serviço moderno, é um convite para a retomada de posições e reciclagem da cultura. Que a humanização nos auxilie a estar acima dos papéis de heroísmo espiritual, permitindo-­nos ser gente, gostar de gente e viver como humanos falíveis sem neuroses de perfeição, sempre dispostos a crescer.

Fizemos todos os registros pensando em enviá-­los ao plano físico algum dia. Tornava-se imperioso informar ao mundo físico algo sobre a natureza das provas enfrentadas pelos dirigentes, os quais subtraíram de si mesmos a bênção de dirigir afinados com a Mensagem do Cristo.

Muito desapego e coragem serão exigidos de todos nós para que deixemos as fantasias da autossuficiência, que nos fazem sentir um pouco melhores diante de nossa inferioridade, e assumimos, enquanto é tempo, a condição psicológica prenunciada há mais de dois mil anos pelo Mestre do amor, quando assinalou:

“Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve” (6).

1. Lucas, 17:20.
2. Mateus, 11:15.
3. Mateus, 18:3.
4. João, 3:30.
5. Vide mensagem “Atitude de Amor” na obra mediúnica SEARA BENDITA (diversos Espíritos), psicografada pelos médiuns Maria José C. S. Oliveira e Wanderley S. Oliveira.
6. Lucas, 22:26.