sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A Palestra de Calderaro - Parte 2

Livro: Escutando Sentimentos
Capítulo 20
Parte 2

*Continuação da postagem intitulada "A Palestra de Calderaro - Parte 1"


Se as ilusões são apelos vivos na vida mental da esmagadora maioria da humanidade, por outro lado, muitos de nós já estamos convidados a trilhar os caminhos novos da autonomia, mas por receio de seguir sentimentos que falam de um outro caminho, o caminho singular, negamos os apelos da alma e paramos a ouvir os críticos externos e internos ou os preceitos literários de natureza religiosa.

A tarefa dos autênticos educadores espirituais reside em devolver ao homem sua própria consciência. Somente abdicando do que acreditamos ser o melhor para o outro através das vias da empatia, poderemos cumprir com essa missão. A grande meta de todos os servidores do bem deve ser libertar consciências do jugo das ilusões. A dificuldade consiste em saber o que é ou não ilusão para o outro, sendo que nem mesmos nós, em certas situações, sabemos aquilatar com precisa segurança a diferença entre realidade pessoal e distorção da auto-imagem.

Os integrantes do círculo terapêutico estavam extasiados em ouvir a palavra inspirada de Calderaro. Via-se um sorriso de contentamento apaixonante nos lábios de Dona Modesta. Parecendo fazer uma leitura da alma dos presentes, indagou o servidor:

- Naturalmente, ante essa abordagem, surge a questão: como reencontrar nossa consciência?

A resposta vem breve: aprendendo a linguagem do coração. Escutando os sentimentos perceberemos a natureza de nossa intenção perante a vida, pois é no espelho do coração que a consciência projeta a luz de nossas mais recônditas aspirações evolutivas.

Acumulai tesouros no céu, onde nem a ferrugem, nem os vermes os comem; - porquanto, onde está o vosso tesouro aí está também o vosso coração. (2)

O tesouro da alma é a intenção. Onde ela se situa aí está o coração, ou seja, nossos sentimentos.

É um tesouro porque a frequência das intenções constitui a mais legítima identidade do Espírito qualificando sua real condição perante a ordem universal.

Qual será a condição de quem toma contato com nossas reflexões? Ilusão ou convite para a autonomia? Eis mais uma ótima reflexão a ser feita na busca das legítimas intenções em favor da integração com nosso destino particular e sagrado planejado por Deus na Sua Bendita Casa.

Jesus, o ser que sintoniza com a Intenção do Pai, o mais puro exemplo de amor que já passou pela Terra, teve seu julgamento com base nos seus atos e não em suas intenções. 

A pedido de Dona Maria Cravo fizemos essa introdução para pensarmos juntos sobre o tema de minha especialidade e interesse, a obsessão. Já que se preparam para incursões futuras nesse terreno da experiência humana entre os espíritas, guardem esse ensino precioso do Mestre.

Se tendes amor, tereis colocado o vosso tesouro lá onde os vermes e a ferrugem não o podem atacar e vereis apagar-se da vossa alma tudo o que seja capaz de lhe conspurcar a pureza; (3)

As Leis Naturais se cumprem na vida de cada um de nós conforme a natureza das intenções que acalentamos. A intenção é o termômetro de nosso ato evolutivo determinando a "frequência básica" de nossa atividade mental, pela qual seremos identificados na teia cósmica da vida.

Intenções nobres convergem todas as "partes" da mente para uma inteireza, facilitando a ação do self, pacificando o coração. Devido à sua frequência, a criatura cria uma couraça defensiva contra a maldade ou atrai para si os reflexos dos propósitos infelizes. A frequência é o fio de aglutinação dos fragmentos da mente, integrando-os para a harmonia ou a derrocada, conforme nossa busca na Obra da Criação.

Portanto, a frequência de nossos objetivos recônditos é o canal de sintonia que nos liga com a vida.

No capítulo das obsessões e dos relacionamentos interdimensionais será imperioso considerar a influência determinante das intenções na solução ou agravamento das constrições mentais dominadoras.

Ninguém se atola nos pântanos da coação e do transtorno mental sem que a porta de seus propósitos íntimos esteja aberta em lamentável indisciplina. Igualmente, ninguém recolhe o pensamento de Sábios Guias sem qualidades interiores que retratem suas intenções elevadas.

Entre os seres pensantes há ligação que ainda não conheceis. O magnetismo é o piloto desta ciência, que mais tarde compreendereis melhor. (4)

Bilhões de corações na Terra, aqui incluindo nós todos que peregrinamos sob a égide do Espiritismo, se avaliados à luz dos princípios da mensagem do Cristo somente pelos seus atos e palavras - aspectos mais salientes de identificação da personalidade humana - , certamente receberão um juízo arrolado com base nos padrões convencionais do que é certo e errado na vida de relações. Esse juízo, como não poderia ser diferente, será exarado com base naquilo que se conhece da pessoa. Quase sempre, algo distante do que ela é por dentro.

Inúmeros homens e mulheres em suas reencarnações estão enquadrados em grupos ou experiências cumprindo tarefas particulares, conforme suas necessidades pessoais, e nutrindo as mais puras intenções de melhora e reeducação. Muitos deles encontram-se desajustados e infelizes, mas persistentes em suas aspirações de superação e enriquecimento moral. Para os juízes da Vida Maior, cumprem missões particulares e cooperam com a obra paciente de progresso da humanidade, cada qual a seu modo.

Uma das habilidades da alfabetização emocional em que todos necessitamos nos matricular é a empatia. Ela nos ensina a compreender pessoas e não somente suas atitudes.

A partir dessa reflexão, é imperioso entender que as obsessões não se estabelecem com base em rótulos exteriores que consignam determinado comportamento como sinônimo de desequilíbrio. Listemos alguns exemplos que são sempre destacados: as opções sexuais, o apego material, os vícios de variada ordem, a atividade dos políticos, os hábitos sociais, o exotismo de certas condutas.

Nos nossos celeiros de amor da doutrina encontramos severas reprimendas a semelhantes posturas. A diversidade é ainda recriminada em nossos ambientes. Pautamo-nos ainda por critérios do mundo estabelecendo o que é certo e errado, caindo em exames arrogantes, recheados de certezas e inflexibilidade, insuflando a intolerância e a rigidez que destroem as mais caras amizades e planos de trabalho sob os bafores da intransigência velada.

A tarja de obsidiado tem sido utilizada para quantos decidem por caminhos diferentes. Sentenciamos sem conhecer-lhes as intenções. Estamos sempre aptos em nossa análise a dizer o que o outro precisa e deve fazer, esquecendo-nos do princípio básico do respeito à individualidade.

É incrível! Falo aqui de mim próprio; como apegamo-nos com facilidade aos conceitos que acreditamos serem a mais pura manifestação da verdade sobre o que o outro é! Por mais ajuizado seja o nosso parecer sobre o próximo, esse apego escandaloso é a mais vil expressão de nossa arrogância. Perdoem-me a clareza de minha fala, mas a dirijo principalmente a mim mesmo - expressou o instrutor na mais espontânea simplicidade.

Necessário dizer que muitos companheiros de ideal - não todos evidentemente -, que receberam o veredicto de serem almas em queda e obsidiados contumazes são desbravadores obstinados de novas formas de caminhar, corajosos desafiantes que honram em si mesmos a diversidade. Diversidade essa que ainda não aprendemos a respeitar. Peregrinam por outras sendas de aprendizado nas quais, possivelmente, a maioria não teria siso para trilhar. Garantem-se com suas intenções. Sobre alguns deles, inclusive, assentam-se os mais elevados interesses do Plano Maior.

Não existe ninguém nos círculos de aprendizado da Terra, em ambas as esferas de vida, que esteja livre das associações mentais constritoras ou como diz o senhor Allan Kardec: "(...) o domínio de alguns Espíritos logram adquirir sobre certas pessoas". (5) Observemos a fala "logram adquirir", mas graças à qualidade superior das aspirações nem sempre adquirem. Impossível para nós livrarmo-nos completamente das interferências, contudo, mantê-las e consolidá-las vai depender das intenções. Só existe domínio quando cedemos ou desistimos de continuar lutando pelas nossas aspirações mais profundas. Eis o conceito prático de obsessão.

Por isso dissemos que a intenção sustenta nossos mais nobres ideais. Não existe obsessor ou técnica capaz de destruir as intenções, a não ser nossa escolha pessoal. Elas são como uma armadura da alma. Somente através dela nos protegemos da adesão permanente a situações, condutas e relações. A Lei de Sintonia é o alicerce desse processo que interrompe ou consolida nossos elos. Se tendes amor, tereis colocado o vosso tesouro lá onde os vermes e a ferrugem não o podem atacar e vereis apagar-se da vossa alma tudo o que seja capaz de lhe conspurcar a pureza. (6)

Por conta desse "sentimento oculto" - a intenção - tão cedo não entenderemos a contento a Justiça Divina, que se guia por expressões ignoradas como se observa nas seguintes frases:

É sempre do mesmo grau a culpabilidade em todos os casos de assassínio? Já o temos dito: Deus é justo, julga mais pela intenção do que pelo fato. (7)

A intenção lhe atenua a falta; entretanto, nem por isso deixa de haver falta. (8)

Não há culpabilidade, em não havendo intenção, ou consciência perfeita da prática do mal. (9)

A intenção é o plugue mental de ligação com o manancial infinito da Misericórdia Paternal. Por ela atraímos para nós todos os recursos defensivos e multiplicadores da nossa força interior. Talvez por essa razão o Sábio Nazareno tenha afirmado:

Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus. (10)

A pureza é a frequência mental da liberdade e a identificação dos homens felizes, que jamais estão sozinhos, mas guardam a sublime capacidade de escolherem, essencialmente, conforme suas preferências, os caminhos da existência.

Judas com intenções amorosas sucumbiu sobre os açoites do poder e traiu. Pedro com fiéis intenções descuidou da vigília e negou. A mulher adúltera que recebera o apodo da multidão foi amparada por Jesus, que sabia da nobreza de suas intenções perante a vida. Saulo, o perseguidor implacável, trazia na alma intenções louváveis com o bem e Jesus descerrou-lhe os olhos das escamas da ilusão. Nicodemos possuía aspirações de valor mesmo constrangido pelo preconceito. Tiago, por amor à Casa do Caminho, consorciou-se ao Judaísmo, permitindo concessões doutrinárias.

Perdoem-me ser tão breve em minha fala. Dona Modesta já explicou os motivos. Estarei em tarefa socorrista daqui a alguns minutos. Sem delongas, desejo êxito no futuro de vocês. Que este "grupo de reencontro" alcance sua legítima aspiração no encalço de suas mais nobres intenções.

Paz aos seus corações.


2. O Evangelho Segundo o Espiritismo - capítulo 25 - item 6
3. O Evangelho Segundo o Espiritismo - capítulo 8 - item 19
4. O Livro dos Espíritos - questão 388
5. O Livro dos Médiuns - capítulo 23 - item 237
6. O Evangelho Segundo o Espiritismo - capítulo 8 - item 19
7. O Livro dos Espíritos - questão 747
8. O Livro dos Espíritos - questão 949
9. O Livro dos Espíritos - questão 954
10. Mateus, 5:8

A Palestra de Calderaro - Parte 1

Livro: Escutando Sentimentos
Capítulo 20
Parte 1



"Acumulai tesouros no céu, onde nem a ferrugem, nem os vermes os come; - porquanto, onde está o vosso tesouro aí está também o vosso coração."

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 25 - Item 6


A tarde dava suas últimas manifestações a caminho do crepúsculo. Chegava o instante das reuniões terapêuticas em grupo. Sob supervisão de psicólogos da alma, pequenas equipes de vinte integrantes em estágios avançados de preparo eram orientadas visando a avaliar sua recém-finda reencarnação e projetar responsabilidades maiores para o futuro. Dona Maria Modesto Cravo responde por um dos muitos "grupos de reencontro" - como são conhecidos entre nós - na condição de supervisora. Naquela tarde, o benfeitor Calderaro visitava o Hospital Esperança e fora convidado para versar sobre um tema essencial ao preparo de todos, já que dispunha de vinte preciosos minutos.

Pontualmente às dezessete horas, a supervisora dava início ao tentame. Após a oração, ela assim apresentou o explanador:


- Amigos, esse é Calderaro, que nos abençoará com sua palavra sobre o tema de nossas reflexões atuais: "O Poder das Intenções no Crescimento Espiritual". Nosso companheiro é devotado aos serviços socorristas nas zonas abissais da erraticidade. Ouçamos sua sábia palavra, que será breve face a outros compromissos que o aguardam. Calderaro - falou Dona Modesta dirigindo-se ao benfeitor - os nossos companheiros aqui presentes foram todos espíritas quando encarnados. Portanto, sinta-se em casa.

Com simplicidade, colocou-se de pé ante o círculo dos presentes e os saudou:

- Companheiros, paz conosco. Serei objetivo em face da exiguidade de meu tempo. Como me solicitou Dona Modesta, abordarei o tema considerando que vocês se preparam para intensos labores de assistência aos grêmios espíritas na Terra.

Nos grupos doutrinários, com raras exceções, são expedidas orientações que versam sobre o que não se deve fazer, o que se deve evitar. São focadas com certo exagero as doenças e fala-se pouco na cura, sem explicações satisfatórias sobre como conquistá-la.


Decerto, os preceitos e orientações espirituais básicos são necessários; constituem o cerne das finalidades de uma agremiação espírita-cristã. Entretanto, a alma humana, legatária de particularidades, pede mais e quer saber o que fazer para ser feliz. Necessita de respostas diferenciadas.

Os preceitos morais nem sempre motivam cumplicidade e comprometimento, porque são enfatizados em clima de autodesvalorização. Quase sempre são expostos como "regras gerais" e sob uma ótica coletiva. Indicativas de aperfeiçoamento - sem dúvida, necessárias - ganham conotação repressora, tais como: "cuidado com a vaidade!", "somos todos personalistas!", "já falimos muito nos vícios!", "o orgulho é a nossa doença!", "os espíritas são todos melindrosos!", "sozinhos não temos força contra as ilusões!", "precisamos de muita tarefa para buscar a paz!", "somente no Espiritismo temos todas as respostas!", entre várias outras. Por conta desse enfoque, recomendações que deveriam ser prezadas como úteis e valorosas ao crescimento terminam constituindo uma plataforma religiosa exterior calcada na velha didática: "o espírita pode isso e não pode aquilo", "o espírita é isso e não o que pensa que é".

Larga soma dos projetos de orientação espiritual da atualidade carece de um item imprescindível: prestigiar a singularidade. Permitir a manifestação do imaginário humano e de sua diversidade. Somente a partir de então, estabelecer laços entre a experiência particular e as bases gerais da doutrina. Que caminho melhor para isso haverá que interrogar?


Fazer perguntas e não ocupar-se em respostas exatas ou certezas imediatistas. Contudo, mesmo quando atingirmos o patamar de aplicarmos uma didática rica de alteridade, alguns questionamentos, essencialmente pessoais, permanecerão na acústica da alma como "pistas" para o processo da individuação - a celebração da individualidade divina arquivada no inconsciente.


Chega um instante na caminhada do amadurecimento espiritual em que somos convocados ao "chamado particular de ascensão". Depois de um tempo de esforços e disciplina, nasce o fruto interior do acrisolamento da personalidade excelsa que estamos talhando. Seremos levados a indagar: que queremos da nossa reencarnação? Estarei manifestando minha singularidade ou seguindo convenções e julgamentos? Estou ouvindo meus sentimentos ou adotando preceitos que me foram passados? Qual o meu propósito na Obra da Criação? Que missão devo desempenhar perante a vida? Quais são minhas reais intenções perante a existência? O que quero realizar para meu processo de elevação espiritual?

Quem não sabe o que quer não toma decisões afinadas com seu íntimo.

Conhecer nossas intenções, ter consciência de sua natureza, é fundamental para nossa paz interior.

Quanto mais consciência de suas reais intenções, mais a criatura:


* Visualiza seu futuro.

* Sustenta seus ideais.

* Melhora a relação consigo.

* Alcança o clima da serenidade e dilata sua responsabilidade.

* Sintoniza-se com seu planejamento reencarnatório.

É nesse aspecto subjetivo da vida íntima que reside o "mapa" para o destino. O que desejo realizar? Que aspirações motivam minha vida? Onde quero chegar? O que espero alcançar em mim?

Confiar em si sem auto-suficiência; amar sua existência como se é, buscando o aprimoramento gradativo; dar-se o direito de escolher e fazer opções sobre seus planos de crescimento espiritual; livrar a mente dos chavões doutrinários que não correspondem com nossos legítimos sentimentos; avaliar se os desejos alheios se afinam com os nossos projetos de aperfeiçoamento. Essas são algumas indicativas para conhecermos e manifestarmos nossas intenções, livrando-nos do medo de planejar ideais particulares que nos façam pessoas mais felizes e conscientes de nossas responsabilidades ante as necessidades de nossa raça.


Na condição de "orientadores" da Doutrina Espírita, encarnados e desencarnados, haveremos de nutrir respeito incondicional pela individualidade humana. O bom líder à luz da mensagem cristã será aquele que melhor promover condições, tanto quanto possíveis, para que o ser humano consiga encontrar sua singularidade e ser feliz. Em nossa comunidade doutrinária, observamos rotineiramente a surpresa de uns e a rejeição de outros quando alguém faz escolhas que não são as que achamos que deveriam ser feitas, ou ainda quando alguém tem atitudes que julgamos não serem adequadas ao "seu nível".

Qual de nós conhece as intenções da ação alheia? Qual de nós perguntou a quem quer que seja a preferência de determinada criatura? A ninguém é vedado o direito de ter opiniões sobre o outro, entretanto julgar... Julgamos quando encaixamos as pessoas em nossos modelos de perfeição.


Aqui mesmo, no Hospital Esperança, acolhemos muitos corações iluminados pelo Espiritismo que ruminam o pensamento em torno da seguinte frase: "fiz o que não queria e deixei de fazer o que precisava". Desconheciam ou deixaram de acreditar em suas intenções. Muitos desses companheiros se seguissem a "voz interior", poderiam ter feito melhor proveito de suas reencarnações. Desencarnam com sentimento de frustração sem se darem conta de sua origem.

Prega-se insistentemente o amor ao próximo em nossos meios. Louvado seja! Todavia, a proposta educativa do Cristo inclui o amor a si, o auto-amor. Generaliza-se uma confusão entre celebrar a individualidade e o individualismo. O primeiro é o processo da individuação, a educação das potencialidades do self. O segundo é a conduta egocêntrica de destaque e prestígio. Que os nossos grupos se lancem sem temores ao exercício da atitude de amor a si mesmo. Estamos no tempo dos sentimentos, das descobertas da alma.

De onde vim? Para onde vou? Que faço na Terra? Que quero da vida? Que os centros espíritas tomem como meta neste século dos sentimentos o compromisso de auxiliar os seres humanos a investigarem suas reais propostas existenciais ajudando-os a viver em paz. Ainda mesmo, e principalmente, se os seus destinos forem alhures às nossas expectativas.

Para conhecer bem esse reinado das intenções, façamos um mergulho interior e meditemos sem receios ou julgamentos nas questões que formulamos acima.


Quando Jesus pronunciou o "não julgueis" é porque nenhum de nós pode, em são juízo, medir a intenção alheia. Muitas vezes os atos e sentimentos que manifestamos não se encontram em sintonia com as intenções. Nasce então o conflito, a frustração íntima em relação ao que estamos realizando e como nos expressamos para o mundo.

As intenções nobres sustentam os mais legítimos sentimentos de progresso e elevação, embora, permitamos, frequentemente, que os vilões emocionais da culpa e do medo nos afastem de seguir as "inspirações instintivas" a ecoar no imo de nosso ser, chamando-nos para o destino glorioso e singular.

Nossas colocações, certamente, podem lhes causar insegurança. É natural! Fomos treinados para temer ou negar o que sentimos, no entanto, não haverá paz na alma que não se lançar a essa tarefa educativa de percorrer a "solidão necessária" e responder a si: Quem sou? O que quero?

É razoável, perante nossas abordagens, pensar no torpor causado pelas ilusões quando se assevera ser necessário seguir as intenções. Durante longo tempo, estamos equivocados nesse setor... O Guia Espiritual Lázaro diz: "O aguilhão da consciência, guardião da probidade interior, o adverte e sustenta; mas, muitas vezes, mostra-se impotente diante dos sofismas da paixão." (1)


O texto continua na postagem intitulada "A Palestra de Calderaro - Parte 2."


1. O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 17 - item 7

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Que Sentimos Sobre Nós?

Livro: Escutando Sentimentos
Capítulo 19

"Quando saíam de Betânia, ele teve fome; e, vendo ao longe uma figueira, para ela encaminhou-se, a ver se acharia alguma coisa; tendo-se, porém, aproximado, só achou folhas, visto não ser tempo de figos."

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 19 - Item 8

Os sentimentos que mais necessitamos compreender para a nossa harmonia são aqueles que dizem respeito a nós próprios.

Que sentimos sobre nós? Qual a relação afetiva que temos conosco? Como temos tratado a nós mesmos? A partir de uma viagem nesse desconhecido íntimo, faremos descobertas fascinantes e primordiais para uma integração harmoniosa com a Lei Divina e o próximo. A partir da harmonia que podemos criar com nossa "vida profunda", essa busca de si mesmo terá como prêmio o encontro com o "eu verdadeiro", aquilo que realmente somos - a singularidade.

Como começar essa viagem de auto-encontro em favor da consolidação de uma relação pacífica e amorosa conosco? Como trabalhar a aplicação do auto-amor? Façamos, inicialmente, algumas indagações.

Que fatores íntimos determinam a nossa dependência de situações e pessoas? Que causas emocionais ou psicológicas podem afastar-nos do desejo de sermos criativos e espontâneos? O que nos impede de avançar em direção aos nossos sonhos íntimos de realização e felicidade? Por que ainda não temos conseguido progresso na construção de valores pessoais em sintonia com os propósitos iluminados da Doutrina Espírita? O que realmente queremos da vida?

O primeiro ato educativo na construção do valor pessoal é diluir a ilusão da inferioridade. Buscar as raízes do desamor que usamos conosco. O Criador nos ama como estamos. Temos um nobre significado para Deus. Somente nós, por enquanto, ainda não descobrimos o valor que possuímos. Inegavelmente, poucos de nós apresentamos bom aproveitamento nas oportunidades corporais pretéritas, no entanto, o destaque acentuado aos deslizes e quedas nas vidas sucessivas somente agrava o estado íntimo de amargura da alma. Renascemos com novo corpo para esquecer e olhar para frente. As indagações que devemos assinalar nesta etapa são: Por que não me sinto digno? Quais são minhas reais intenções? Que lições tenho a aprender quando me sinto inferior? Por que determinada atitude ou acontecimento me faz sentir inferior?

Outro aspecto na valorização pessoal a considerar são os julgamentos que aplicam a nós. O que importa é o que faremos diante deles. Como reagiremos? Podemos nos culpar ou adotar o cuidado de refletir sobre o valor que tenham para nós. Quando não cultuamos o auto-amor, os julgamentos alheios constituem espessas algemas das mais nobres aspirações. Em quaisquer situações o amor é nossa couraça pessoal. Quem se ama sabe se defender sem fugas e ter respostas emocionais inteligentes e serenas aos estímulos do meio. Não crescemos sem conviver; isso não significa que devamos permitir a outrem ultrapassar os limites em relação à nossa intimidade. Somente nós próprios podemos penetrar com sabedoria e naturalidade a subjetividade de nosso ser.

Portanto, temos um processo interior - o sentimento de inferioridade - e uma força externa - os julgamentos, a aprovação social. Ambos consorciam-se, frequentemente, contra nossos anseios de crescimento. Somente com a aquisição da autonomia saberemos lidar com tais fatores educativos.

Não fomos educados para devolver o outro a si mesmo na busca de seus caminhos. Fomos educados para manter o outro pensando como nós, escolhendo por nossas escolhas, opinando conforme os padrões de pensamento que adotamos e agindo de conformidade com nossa avaliação de certo e errado. É o regime de possessividade e submissão nas relações. É mais confortável ser orientado, ter respostas prontas para nossas dúvidas e angústias ou pedir alguém que nos indique a escolha mais acertada. Em inúmeras ocasiões é mais cômodo se ajustar a muitos julgamentos que acreditar nos ideais pessoais e nos nossos sentimentos. Consideremos, dessa forma, quanto necessitamos investir na erradicação da acomodação em busca da solidificação da autonomia psicológica em favor da liberdade que ansiamos.

O impedimento frequente na construção da autonomia é o medo de rejeição - umas das mais graves consequências da baixa auto-estima. Como seremos interpretados? Qual será o conceito que farão de nós a partir do instante em que decidirmos por um caminho afinado com o que sentimos e pensamos?

A necessidade da aprovação alheia é extremamente enraizada na vida emocional. Todas as pessoas e suas respectivas idéias a nosso respeito merecem carinho e consideração, respeito e fraternidade. Porém, conceder a outrem o direito de aprovar ou reprovar...

A palavra aprovação, entre outros sinônimos, quer dizer: ter a nossa atitude reconhecida como moralmente boa. Analisando com cuidado, a aprovação se torna um julgamento, uma forma de interpretar e definir o que deve ou não ser feito e da forma como deve ser feito.

Sigamos a intuição, aprendendo a ler as mensagens sutis da vida interior despachadas pelo sentimento, evitando desprezo ao que sentimos. Mesmo as sensações desconfortáveis à consciência nos ensinam algo. A garantia de que vamos aprender depende do trato que daremos ao nosso mundo íntimo. O respeito incondicional que devemos usar conosco. Amar-nos como merecemos ser amados.

Uma vez alfabetizados pelo coração, passaremos a fruir uma vida mais plena, felizes com nossa condição, permitindo-nos evoluir com naturalidade, sem condenações e severidade.

O Espiritismo é remédio para nossas dores e roteiro para libertação de nossas consciências. Estudá-lo, sim, entretanto, a maioridade espiritual nas atitudes somente florescerá ao renovarmos o modo de sentir a nós, ao próximo e à vida.

Informação e transformação. Do contrário, ficaremos na superfície da proposta do amor, assim como a figueira na qual Jesus procurou frutos, adornados pelas folhas da cultura e vazios dos frutos do crescimento real.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Sentimento e Obsessão

Livro: Escutando Sentimentos
Capítulo 18


"Quem quer que escuta a palavra do reino e não lhe dá atenção, vem o espírito maligno e tira o que lhe fora semeado no coração." (S. Mateus, 13:18 a 23)

O Evangelho Segundo o Espiritismo - capítulo 17 - Item 5

Costuma-se relacionar obsessão com condutas viciosas como alcoolismo, tabagismo, sexolatria e outros vícios corporais. Entretanto, existe uma infinidade de conúbios obsessivos ainda não investigados que se operam em decorrência dos estados psicológicos e emocionais do ser humano.

Obsessão é uma interação de mentes que evolui no tempo através da sustentação de vínculos pela Lei de Sintonia, mantendo duas ou mais criaturas ligadas pelos seus interesses. Alterando ou deixando de existir tais interesses, a vinculação passa a ser circunstancial. Chamamo-la de pressão psíquica.

Que processo interiores experimenta a alma para que estabeleça um circuito de forças mentais dominadoras? Que estados psicológicos e emotivos servem de base na constrição mente a mente?

Analisemos, didaticamente, nesse terreno sutil, a sequência de interação mental mais frequente a partir da intenção obsessiva, nutrida por um Espírito desencarnado sobre as "brechas" oferecidas pelo encarnado.

Etapa um

* Existe a intenção do agente (obsessor).

* São acionados elementos de sintonia no receptor (obsidiado).

Etapa dois

* O agente invade os limites psicológicos e emocionais do receptor.

* Permissão do receptor.

Etapa três

* Produção de clichês induzidos.

* Assimilação de ideias intrusas e surgimento do conflito mental.

Etapa quatro

* Sugestões hipnóticas de manutenção.

* Enfraquecimento da vontade.

Etapa cinco

* Implantação de tecnologias.

* Adesão intencional ao plano do agente indutor através do sentimento.

Etapa seis

* Evolução e sofisticação do domínio sobre o receptor.

* Dependência através de simbiose afetiva compartilhada.

Adotando a progressividade didática utilizada pelo senhor Allan Kardec no capítulo XXIII de O Livro dos Médiuns, assim se enquadram as etapas acima referidas:

1) Obsessão simples - estabelecimento da sintonia - etapas 1 a 3.

2) Fascinação - Invasão dos limites alheios - etapas 4 e 5.

3) Subjugação - simbiose - etapa 6.

Na educação interior, certos comportamentos sujeitam-se à obsessão. Ao longo do tempo, os embates interiores causam em alguns discípulos espíritas a sensação de "fadiga na alma". Os esforços e vitórias parecem insignificantes e infrutíferos. Um nocivo sentimento de inutilidade toma conta da vida mental. Desponta a dúvida e com ela multiplicam-se as perguntas sobre a validade de perseverar. Não estará faltando algo? Melhorei de fato? Estarei sendo hipócrita?!

Nessa "hora psicológica" nascem muitas obsessões. Discípulos sinceros que sacrificaram longamente na conquista de si próprios estacionam em lamentação e descrença, desprezando as vitórias e fixando-se no derrotismo e na acomodação.

Um dos pontos educacionais da auto-aceitação consiste em valorizar os nossos esforços de reeducação espiritual - ponto crucial na conquista de condições psicológicas adequadas ao crescimento interior. Quando não valorizamos o que já podemos realizar, abrimos a frequência da vida interior para a descrença, o desânimo e a desmotivação, convidando os famanazes da maldade para que dilapidem os tesouros de nossa vida íntima.

Façamos agora, portanto, uma radiografia da exploração obsessiva sobre o sentimento de "menos valia" ou baixa auto-estima, valendo-nos das etapas supra enumeradas.

Etapa um

* O agente encontra campo vibratório para sua intenção constritora.

* A sensação de incapacidade é aceita pelo receptor, através de suas próprias crenças derrotistas programadas no inconsciente.

Etapa dois

* O agente penetra a vida psíquica do receptor e estimula o sentimento de indignidade já presente na "vítima".

* Adesão espontânea no clima da revolta em função das frustrações da vida.

Etapa três

* O agente trabalha com informações sobre as mazelas de seu alvo.

* São criadas as justificativas autodefensivas para a conduta invigilante.

Etapa quatro

* Sugestões hipnóticas de autodesvalorização através de ideias imaginárias do desprezo do outrem.

* Estado íntimo de insatisfação consigo próprio, levanto à culpa e apatia entre os ideais superiores.

Etapa cinco

* Tecnologias avançadas para instalar a descrença - o sentimento básico para consumar uma queda moral.

* Estado íntimo de falência cujo nome é desânimo - a doença de quem desistiu.

Etapa seis

* Exploração do receptor nos programas de ataque e interferência na sociedade carnal. "Assalariado carnal".

* Total dependência em quadros de adoecimento psíquico.

O conceito de vigilância vai muito além de disciplinar os pensamentos. É no campo do sentimento que nasce esmagadora maioria das obsessões. A capacidade de "pensar livre" ou decidir por nós é "quase nula" no concerto universal. Vivemos em regime de contínuo intercâmbio e interdependência.

Nesse contexto fenomenológico da vida mental não será incoerente afirmar que todos respiramos, em maior ou menor grau, nas faixas da obsessão. A questão é saber se somos por ela dominados ou se a temos sob nosso controle. Sob essa ótica, as obsessões são convites educativos contidos nas Leis Naturais para nosso aprimoramento.

Somente a oração ungida pelos sentimentos elevados, a intenção nobre e perseverante, seguidas da conduta reta, podem estabelecer um clima de autonomia psíquica desejável, que nos defenda da dominação dos interesses inferiores à nossa volta.

Essa autonomia interrompe o processo na "etapa dois", quando elabora no terreno dos sentimentos o auto-amor - reconhecimento de nossa pequenez, seguido da alegria de poder contar sempre com a manifestação da Divina Providência em favor de nossas vastas necessidades espirituais.

"Quem quer que escuta a palavra do reino e não lhe dá atenção, vem o espírito maligno e tira o que lhe fora semeado no coração."

Com sua habitual lucidez Jesus estabeleceu em Mateus, capítulo quinze, versículo dezenove: Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias.

Só carregamos por fora o resultado do que temos por dentro.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Pedagogia da Felicidade

Livro: Escutando Sentimentos
Capítulo 17

"O homem pode suavizar ou aumentar o amargor de suas provas, conforme o modo por que encare a vida terrena."

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 5 - Item 13

Nunca a humanidade mendigou tanta atenção e afeto. Uma crise de autodesvalor, sem precedentes, assola multidões. O sentimento de indignidade é o piso emocional das feridas seculares que causam a sensação de inferioridade, abandono e falência. Não se sentindo amadas, almas sem conta não conseguem superar os dramas da rejeição e os tormentos da solidão. Optam pela falência não assumida. Uma existência sem sentido, vazia de significados, sem metas; a caminho da derrocada moral e espiritual.

Somente o tratamento lento e perseverante de tecer o manto protetor da segurança íntima, utilizando o fio do auto-amor, poderá renovar essa condição interior do ser humano.

Agrilhoado pela ilusão do menor esforço, o homem busca a ilusão como sinônimo de paz. Anseia-se pela felicidade como se tal estado de alma pudesse ser fruto da aquisição de facilidades e privilégios.

Contudo, a felicidade é uma conquista que se faz através da educação de si mesmo. Buscá-la no exterior é dar prosseguimento a uma procura recheada de decepções e dor.

Educar para ser feliz é dar sentido à existência. O homem contemporâneo padece a doença do sentido. O vazio existencial é o corrosivo de seu mundo íntimo.

Reflitamos! Como a doutrina pode nos ajudar a construir sentido para a existência? Que passos dar para estabelecer significado educativo ao nosso sofrimento?

O Doutor Viktor E. Frankl foi um homem extraordinário. Viveu a dor dos campos de concentração nazistas e sobreviveu, graças à sua habilidade em gestar um sentido para sua dor em plena provação. Criador da logoterapia, Viktor Frankl auxiliou multidões a ter uma vida mais digna e promissora. Em sua obra prima ele afirmou:

"Quando um homem descobre que seu destino lhe reservou um sofrimento, tem que ver neste sofrimento também uma tarefa sua, única e original. Mesmo diante do sofrimento, a pessoa precisa conquistar a consciência de que ela é única e exclusiva em todo o cosmo dentro desse destino sofrido. Ninguém pode assumir dela o destino, e ninguém pode substituir a pessoa no sofrimento. Mas na maneira como ela própria suporta este sofrimento está também a possibilidade de uma realização única e singular." (1)

A primeira condição para se estabelecer um sentido à vida é o exercício da singularidade. Descobrir seus próprios caminhos, lutar por seus sonhos, celebrar sua diversidade aceitando suas particularidades, participar da vida como se é, sentir o gosto de se desligar de uma vida centrada no ideal e realizar-se no real.

A vida em si mesma não tem um sentido, algo que se possa definir através de padrões ou princípios filosóficos. Esse sentido é construído pelas percepções individuais sob as lentes da singularidade humana que, a partir de diretrizes gerais, capacita-se a seguir sua "rota intuitiva" na direção da perfeição.

"O homem pode suavizar ou aumentar o amargor de suas provas, conforme o modo por que encare a vida terrena." O modo de encarar ou perceber a vida terrena é a leitura pessoal de ser no mundo.

A felicidade resulta da habilidade de consolidar esse sentido a partir do "olhar de impermanência". O enfoque de transitoriedade e do desprendimento.

Quase sempre sentimo-nos mais seguros adotando o parecer da maioria, um sentimento natural até certa etapa da jornada de crescimento. Chegará, porém, o instante em que a vida convidar-nos-á ao processo inevitável das descobertas singulares. Isso não significa estar alheio à convivência, ao processo de interação grupal. É apenas ter mais consciência do que convém ou não ao desenvolvimento individual na interação social.

Nas nossas frentes de serviços doutrinários somos convocados a urgente auto-avaliação nesse tema para erguimento da felicidade pessoal. Com um movimento acentuadamente dirigido para a "coletivização", a uniformidade de conceitos e práticas escasseia o estímulo ou a aceitação para a diversidade. Nesse contexto, frequentemente, idéias criativas e condutas diferentes são acolhidas com desdém, esfriam relações e ensejam a indiferença. São tachadas de personalismo e vaidade. Mais uma razão para tecer o auto-amor e investigar a forma pessoal de caminhar.

Personalismo ou singularidade? Individualismo ou individuação? Em quais experiências nos enquadramos?

Sem medo do individualismo, que é muito diferente da individuação, é imperioso aprendermos a investigar o coração em busca do "mapa singular" do Pai à nossa jornada de aprimoramento. Quem se ama vive a maravilhosa experiência de sentir brotar em sua alma, espontaneamente,uma cumplicidade poderosa com a vida, o próximo e a Obra Divina. Quanto mais amor a quem somos, mais amamos a vida. O sentido da existência está no ato de percebermos o que significamos na Obra Paternal.

O segundo ponto essencial na construção do sentido é desenvolver a habilidade de superar o sofrimento. O prazer de viver surge quando, efetivamente, entendemos as razões de nossas dores e como superá-las. Sofrer e não saber o que fazer para sair dessa "roda de dores": nisso consiste o carma, a "roda da vida". Possuir valores e não saber como utilizá-los para o bem: nisso reside o carma sutil da nobreza das intenções em conflito com a conduta que adotamos.

Quando desenvolvemos a arte de abrir o cadeado de nossas mazelas, soltamo-nos para novas vivências. Desprendemos das velhas amarras mentais, dos complexos afetivos, dos condicionamentos. Quando aprendemos a lidar com nossos valores, a vida se plenifica.

A dor existe para incitar a inteligência na descoberta de soluções em nós mesmos. A grande lição nesse passo é descobrir as causas das aflições. O sentido da existência não está fora, mas dentro de nós. Podemos compartilhá-lo com o outro, entretanto, ele não depende do outro.

Como temos dificuldade em assumir a nossa fragilidade! Quanta dificuldade demonstramos para admitir nossa falibilidade! Sentimo-nos pequenos, incompetentes ao nos deparar com as batalhas não vencidas ou com as imperfeições não superadas, agravando ainda mais as provações. "O homem pode suavizar ou aumentar o amargor de suas provas, (...)"

Fénelon assinala: "Que de tormentos, ao contrário, se poupa aquele que sabe contentar-se com o que tem, que nota sem inveja o que não possui, que não procura parecer mais do que é." (2)

Ser feliz é contentar-se com o que se é, sem que isso signifique estacionar. É o amor a si. A frase de Fénelon é uma autêntica proposta de paz interior. Contente, sem inveja e feliz com o que se é. Quem pode querer mais?

Portanto, nisto resume-se a consolidação do sentido da vida:

1) Saber quem somos, o que a vida espera de nós, a missão particular, única e intransferível. É o exercício da singularidade.

2) Zelar pela manutenção desse processo de individuação através da superação das mensagens inconscientes de desvalor e incapacidade, diante de nossos sofrimentos, integrando-as ao self translúcido, que se encontra o nosso inteiro dispor.

Uma pedagogia de felicidade deve assentar-se no auto-amor em busca do self reluzente. Desenvolver as habilidades da "inteligência espiritual", tais como autoconsciência, resiliência, visão holística, alteridade, autoconfiança, curiosidade, criatividade, disciplina no adiamento das gratificações, sensibilidade, compaixão, naturalidade.

Eis alguns caminhos da pedagogia para a sanidade humana que poderão ser experimentados pelas nossas agremiações de amor em seus programas de consolo e esclarecimento:

- Exercer dinâmicas de autoconhecimento.

- Compreender os mecanismos punitivos da culpa e como superá-los.

- Desenvolver técnicas de sensibilidade do afeto.

- Fazer o uso dos recursos psicoterapêuticos bem orientados pelos mentores espirituais.

- Meditar.

- Orar.

- Implantação de pequenos círculos de diálogo sobre valores humanos.

- Participar de atividades de cooperação social, criando espaço para estudar os sentimentos decorrentes dessa prática.

- Cultivar a crença de que todos somos dignos da Bondade Celeste em quaisquer circunstâncias.

- Desenvolver a autonomia.

Quem ama a si mesmo sente-se rico. É excelente companhia para si mesmo. Descobriu seu valor pessoal na Obra da Criação e tem consciência plena da Bondade do Pai em favor de sua caminhada individual. Todas essas sensações, é bom destacar, operam-se no reinado do coração, são sentimentos e não formas de pensar. Nisso reside o sentimento de merecimento ou, como costumamos nomear, a maior conquista espiritual para ser feliz. Não foi fruto de instrução, mas serviço de renovação efetiva nas matrizes da vida mental profunda, nas "células afetivas".

Quem se ama dispensa a imponência das máscaras. É feliz por ser quem é. Aprendeu que "Dele, porém, depende a suavização de seus males e o ser tão feliz quanto possível na Terra." (3)

1. Em Busca de Sentido - página 76 - Perguntar pelo Sentido da Vida - editora Vozes
2. O Evangelho Segundo o Espiritismo - capítulo 5 - item 23
3. O Livro dos Espíritos - Questão 920

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Meditação: Cuidando da Criança Interior

Livro: Escutando Sentimentos
Capítulo 16


"Jesus, chamando a si um menino, o colocou no meio deles e respondeu: Digo-vos, em verdade, que, se não vos converterdes e tornardes quais crianças, não entrareis no reino dos céus."

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 7 - Item 3

Na formação do homem novo, temos de fazer renascer a criança que deixamos no tempo... Escutar seus sentimentos.

Todos temos uma "criança interior", um estado natural de pureza que as vivências milenares no egoísmo soterraram sob os escombros dos desatinos morais.

O Sábio Judeu ensina-nos que o reino de paz pretendido por todos nós depende de recuperarmos essa condição psicológica, que ainda sobrevive em nossa intimidade amordaçada e ferida. Se não vos converterdes e tornardes quais crianças, não entrareis no reino dos céus.

Por que teria Jesus colocado um menino em meio aos aprendizes para significar a maioridade? Que valores possuem as crianças que serviram de base para esse ensinamento do Mestre?

A didática aplicada de Jesus é sublime advertência para nós todos que nos matriculamos nas lições do Consolador.

As crianças são fantásticas nas relações por não nutrirem expectativas na convivência, desobrigando-se de cobranças, ofensas, insatisfações e aborrecimentos.

Aceitar homens como são e respeitar-lhes a caminhada é medida salutar de paz. Aceitar-se como se é sem condenações estéreis e críticas impiedosas é a base de uma vida saudável.

A parcela psíquica de pureza adormecida que trazemos na alma solicita tratamento para manifestar-se em sensações de bem-estar, desprendimento e amor.

Imperioso resgatar essa luz das emoções nobres. São instintos e sabedoria que dormitam na sombra interior. Vamos conhecê-los?

Inspirados no renomado poeta português, Fernando Pessoa, tomaremos emprestada a estrofe de um de seus mais belos poemas intitulado A Criança que Fui Chora na Estrada. Diz o poeta:

A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

***

Acomode-se da melhor forma. Observe as orientações básicas para meditar: local, silêncio, horário...

Pega uma foto de tua infância. A predileta. Aquela que te lembra dos momentos de alegria. Não possuindo a foto, recorda tua infância. Deixa as lembranças despontarem.

Vamos iniciar nossa viagem.

Estás dentro de um grande teatro. Estás sozinho e assentado. Olhas para a cortina fechada no palco aguardando o espetáculo.

Olha o palco e sinta-te em paz contigo. O espetáculo começa e as imagens da tua infância surgem ininterruptas. Tua primeira escola, as festas de aniversário, os brinquedos prediletos, as histórias contadas pelos avós, as professoras abençoadas, o carinho dos amigos, as diversões.

Pouca luz no ambiente, mas suficiente para te dirigires até o véu que te separa do bastidor. Vá até lá, pois vamos nos preparar para abrir esse véu. Atrás dele encontra se tua sombra, teu mundo desconhecido.

Prepara-te; ao contar até três, tu vais abrir o véu com coragem. Um, dois... Três! Vá! Abre a cortina serenamente.

Sombra. Luz nenhuma, nenhuma luz. Escuridão. Onde estou meu Deus?!

Para. Acalma-te. Tu estás em ti mesmo, não há por que temer. Tua sombra é criação de tua história evolutiva. Tem calma. Respira fundo e sente-te seguro. Repete por três vezes: Eu estou seguro! Eu estou bem!

Agora vê! Tudo escuro, mas tu sabes que podes enxergar. Enxergar com os olhos da alma. Escuta as vozes de ti mesmo! Escuta. Ouve por um instante as vozes interiores.

Repentinamente, em meio aos muitos sons, um choro te chama atenção. É um choro de criança. Um choro de medo, baixinho, gostoso de ouvir e ao mesmo tempo preocupante, inspirador de piedade.

Quem será? Não posso ver! Acalma-te! Recompõe-te interiormente e caminha na tua sombra. Tu vais encontrar quem chora.

Segue a intuição, teus instintos!

Lá está! É uma criança. Mentaliza tua criança interior.

Agora chega bem pertinho, mas vai devagar para não assustá-la. Coloca-te intimamente com desejo de acolhimento e bondade.

Olha a criança. Tu mesmo em tempos idos. Pequeno. Grandioso. Entretanto, com medo. Vê como a criança tem medo de ti mesmo. Olhos esbugalhados. Cabelos despenteados. Faltam alguns cuidados à criança. Observa por instante. Sente-a. Evita tocá-la.

Agora, ao contar três, oferece tua mão com o melhor sentimento de teu coração. Prepara-te. Um, dois... Três. Estende a mão. Mãozinha macia, dedinhos curtos. Medo de tocar.

Com muito receio, o pequerrucho aceita.

Agora lhe diz: Vamos caminhar? Venha! Quero-o bem. Muito bem!

A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Olá, minha criança! Vim buscar quem fui, onde ficou. Que bom te reencontrar, pois sei que um dia deixei-te na estrada para ser quem sou. Voltei agora para te buscar. Perdoe-me por te abandonar. Enquanto choravas, eu dormia o sono das conquistas passageiras. Agora estou desperto, vim te buscar.

Não te assustes comigo. Eu não te deixei porque desejava. Não soube como fazer. Agora retorno a te buscar. Te aceito como és, incondicionalmente. Tu não és má porque tem imperfeições. Tu apenas tens imperfeições. Depois de tanto tempo, descobri que não sou capaz de viver sem teu poder.

Quero brincar, pular e ser feliz. Vem, ajuda com tua bondade. Ajuda-me com tua criatividade e espontaneidade.

Ah! Minha criança de luz, como te amo! Como quero te amar! Que vontade de sentir a tua espontaneidade, tua riqueza.

Agora pergunta: Queres passear comigo por este mundo de sombras? Ele balança a cabeça como uma criança ridente ao se lhe ofertar uma guloseima.

Faz teu passeio. Conversa com o menino. "Deixar vir a mim as criancinhas, deles é o reino dos céus"... Ouve teus sentimentos.

Agora, cuida de tua criança, arruma-a, porque tu vais levá-la ao palco. Diz a ela que lhe apresentará seu mundo real.

Arruma-a.

Vamos nos preparar para concluir a viagem interior. Ao contar três, tu vais passar de volta pela cortina e levar tua criança ao palco. Quando lá chegar, todas as pessoas da tua vida estarão assentadas nas cadeiras, aguardando para conhecê-la. Tu vais (sem sair do palco) apontar cada pessoa e falar quem é para tua criança. Vamos lá. Um, dois... Três.

Apresenta tua criança ao teu mundo exterior!

Agora vamos saudar tua criança. Todos se levantam naquele palco e batem palmas. Muitas palmas de amor para tua criança.

O menino corre para ti e te abraça emocionado, feliz. Ele reconhece teu amor.

Eu sou pureza! Eu sou luz! Há pureza em meu coração! A vida é presente em mim!

Uma voz altissonante desce do alto: Digo-vos, em verdade, que, se não vos converterdes e tornardes quais crianças, não entrareis no reino dos céus.

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Eu sou confiança! Eu sou pura energia, vitalidade! Meu corpo é abençoado com a energia das células infantis. Minha mente relaxa, meu ser expande-se em glória e sabedoria.

Louvemos na oração a benção desse momento de reencontro.