terça-feira, 14 de março de 2017

Sombra Amigável

Escutando Sentimentos - Capítulo 10



"Pois nada há secreto que não haja de ser descoberto, nem nada oculto que não haja de ser conhecido e de aparecer publicamente. (Lucas, 8: 16 e 17)

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 24 - Item 2


A sombra designa "o outro lado" do ser humano, aquele em que vige a escuridão.

Comumente destacamos a sombra negativa nos ambientes educativos da doutrina. Convém, porém, uma atenção à sombra positiva, que são nossos potenciais e talentos ainda não expressados ou descobertos. Em meio a essa escuridão da vida inconsciente existe muita sabedoria e riqueza ainda não exploradas.

Escutando nossos sentimentos e o que eles têm a nos ensinar sobre nós mesmos, estaremos entrando em contato com esse "material" reprimido no inconsciente, com todas as habilidades instintivas que nos asseguram a Herança Inalienável de Filhos do Altíssimo em Sua Obra magnânima.


Escutar sentimentos é aceitá-los. Aceitação quer dizer pensar sobre eles. Habitualmente exaramos e colocação: "não quero nem pensar nisso!", referindo-nos a questões desagradáveis do mundo íntimo. Os sentimentos são os principais canais de conexão emitindo constantes mensagens do inconsciente.

Quando usamos a expressão sentimentos mal resolvidos, estamos tratando de sentimentos não aceitos ou negados pela consciência e reprimidos para o inconsciente por alguma razão particular. A sombra originou-se basicamente em função dessa relação insatisfatória com nosso poder de sentir e os arquivou em forma de culpas, desejos estagnados, bloqueios, traumas, medos, criando todo um complexo psíquico que, em muitos lances, são fatores geradores das psicopatologias, desde as mais toleráveis até às mais severas.

Ao longo dos últimos milênios (aproximadamente quarenta mil anos, dependendo da história individual), o que mais fizemos foi negar e temer nossos sentimentos - um fato natural na trajetória evolutiva da animalidade para a hominilidade. O medo de sentir e do que sentimos acompanha-nos desde o momento em que começamos a tomar consciência desse mecanismo bio-psíquico-emocional-espiritual. Ainda hoje, esconder o que se sente, é uma conduta social comum e até necessária para a maioria das pessoas.

O mundo, no entanto, prepara-se para o século do amor vivido e sentido. A pergunta mais formulada em todas as latitudes neste momento é: como está você? E o interesse por uma resposta que fale de sentimentos é eminente; tende a tornar-se um hábito. Estamos com enorme necessidade de falar do que sentimos e saber com mais clareza sobre o mundo das emoções, embora ainda temerosos de suas consequências.


Quando digo "sou minha sombra" não significa que tenha que viver conforme sua orientação. Apenas admiti-la, entender suas mensagens.

A sombra só é ameaça quando não é reconhecida. Só pode ser prejudicial quando negligenciamos identificá-la com atenção, respeito e afabilidade.

"É importante para a meta da individuação, isto é, da realização do si mesmo, que o indivíduo aprenda a distinguir entre o que parece ser para si mesmo e o que é para os outros. É igualmente necessário que conscientize seu invisível sistema de relações com o inconsciente, ou seja, com anima, a fim de poder diferenciar-se dela. No entanto, é impossível que alguém se diferencie de algo que não conheça." (1)

Essa colocação do Doutor Jung é clara. Escutar sentimentos é a primeira lição na nossa educação espiritual para o auto-amor. Amaremos a nós mesmos somente quando deixarmos de culpar os outros pelas nossas dores e desacertos e tivermos a coragem de perscrutar o íntimo, interrompendo o fluxo das projeções e fugas ainda ignoradas nas nossas atitudes.

Recebemos contínuos "chamados" do inconsciente através do que sentimos. Uma análise atenta de nossos impulsos emotivos e da nossa "reação afetiva" a tudo que nos cerca levar-nos-á a entender com exatidão as "reclamações" do psiquismo profundo. Nessa investigação da alma encontraremos indicativas seguras no entendimento das mais ocultas raízes de nossos conflitos. Percorreremos caminhos mentais até então incognoscíveis. Igualmente, descobriremos valores adormecidos que solicitam nossa criatividade para desenvolvê-los a contento.


Entretanto, somente daremos importância às mensagens da sombra quando nos relacionarmos amigavelmente com ela. O processo de ouvir a voz do inconsciente através dos sentimentos passa por algumas etapas na alfabetização do sentir:

- Imprescindível o auto-respeito. O que sentimos é indiscutível, individual, é a nossa forma de viver a vida. Com isso não devemos admitir que os apelos do coração devam ser seguidos como brotam. Muito menos supô-los a expressão da Verdade. Apenas tenhamos respeito por nós sem reprimendas e condenações, procurando compreender os recados do coração.

- Havendo respeito, instaura-se o clima da serenidade, da ausência de conflitos e batalhas interiores. Somente serenos vamos conseguir uma comunicação sem interferências. É o silêncio interior. O fio que nos leva ao intercâmbio produtivo.

- Aprender a linguagem dos sentimentos exige meditação, atenção. Separar a "imagem programada" pela educação social da "imagem idealizada" é um trabalho lento. Diferenciar o que pensam que sou daquilo que penso que sou é o caminho para se chegar ao que sou verdadeiramente.


- Utilizar indagações. A sombra adora dar respostas. Nossa tarefa será discernir no tempo a natureza dessas respostas. No início elas serão confusas, enganosas, talvez decepcionantes.

Na medida que se dilata esse exercício, a intuição vai aclarando a capacidade de perceber e sentir o que nos convém. Teremos a sensação do melhor caminho, das melhoras escolhas, do que queremos. É o início da identificação com o projeto singular do Criador a nosso respeito.

O Doutor Jung estipulou: "As pessoas, quando educadas para enxergarem claramente o lado sombrio de sua própria natureza, aprendem ao mesmo tempo a compreender e amar seus semelhantes." (2)

Ao conquistarmos a sombra de maneira amigável, criaremos uma relação de paz com a vida íntima e, nesse ponto, as projeções não serão mecanismos defensivos contra nossas imperfeições, mas reflexos da bondade e harmonia que habitarão a vida mental. Nessa postura mental amaremos a vida com mais ardor. Será muito mais interessante olhar o nosso próximo, senti-lo e perceber a grandeza da vida que nos cerca.

A Lei Divina contida na fala de Jesus é determinante: Pois nada há secreto que não haja de ser descoberto.

O crescimento pessoal e a felicidade incluem a missão de explorar as riquezas do inconsciente.

Escutar sentimentos é a arte de mergulhar na vida profunda e descobrir o manancial de força e beleza que possuímos.

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Amigo querido das lides espiritistas,

Nos instantes de tormenta ocasionados pelos efeitos de tuas imperfeições, busca Deus na oração e escuta tua alma.

Ouve os ditames suaves que ela te envia. Não os julgue agora enquanto meditas.

Indaga-te: que fazer ante os impulsos menos felizes? Como agir para mudar?

Ouve! Ouve a resposta em ti mesmo! Escuta teus sentimentos!

Ora novamente, aquieta os raciocínios e escuta os "sons" dos sentimentos nobres que te arrimam.

Estás agora em estado alterado de consciência. Tua sombra avizinha. Teu self permanece em vigília. Tonifica-te com as energias revigorantes.

Agora agradece o dom da vida... O corpo... A beleza de pertencer a ti mesmo.

A presente existência é a tua oportunidade. É a tua ocasião de libertar. Recomeça quantas vezes se fizerem necessárias. Perdoa-te pelos insucessos.

Recorda as muitas vitórias e preenche-te com o labor.

Algumas respostas para serem compreendidas solicitam o concurso do tempo.

Prossegue sem ilusões de conforto. Deseja o sossego interior e acredita merecê-lo, mas não o confunda com facilidades transitórias.


Teus sentimentos: a realidade de tua posição espiritual. Por eles sabes de teu valor e de tuas necessidades.

Não te agrida quando sentires o que não gostarias.

Ama-te ainda mais nesses momentos. Aceita-te.

Diz: eu aceito minha imperfeição. Senti-la não quer dizer que eu seja menor. Eu aceito minhas particularidades. Eu me amo como sou e não me abandonarei porque somente eu posso me resgatar.

Agora vai cumprir teu dever - esse sublime "analgésico mental".

Em outro instante, fora da tormenta mental, medita sobre aquilo que te incomodou.

Medita sempre sobre tuas imperfeições e Teu Pai, secretamente, na acústica do ser, providenciar-te-á os recursos abundantes para tua cura.

Deus jamais te esquece. Acredite nisso e sente o amparo em teu favor. O universo está a teu favor. Acredita.


1. The Collected Works of CG Jung (CW) - 17 Vol. VII par. 28.
2. The Collected Works of CG Jung (CW) - 16 Vol. VII par. 310.

sábado, 4 de março de 2017

Estudando a Arrogância 2

Escutando Sentimentos - Capítulo 9


"Não procureis, pois, na Terra, os primeiros lugares, nem vos colocar acima dos outros, se não quiserdes ser obrigados a descer. Buscai, ao contrário, o lugar mais humilde e mais modesto, porquanto Deus saberá dar-vos um mais elevado no Céu, se o merecerdes."

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 7 - Item 6

"E chegou a Cafarnaum e, entrando em casa, perguntou-lhes: Que estáveis vós discutindo pelo caminho? Mas eles calaram-se; porque pelo caminho tinham disputado entre si qual era o maior." (1)

Esse cenário da época do Cristo ainda se repete entre nós até hoje. De forma velada, sutil, sob indução do reflexo da arrogância e suas consequentes máscaras, ainda disputamos a maioridade em relação a quem partilha conosco o trabalho do bem.

O reflexo mais saliente do ato de arrogar é a disputa pela apropriação da Verdade. Nossa necessidade compulsiva de estarmos sempre com a razão demonstra a ação egoísta pela posse da Verdade, isto é, daquilo que chancelamos como sendo a Verdade.

De posse dessa sensação orgulhosa de possuir o "certo" em nosso ponto de vista, há milênios adotamos condutas que nos causam a agradável ilusão de possuirmos autoridade suficiente para julgar com precisão a vida alheia.

É com base nesse estado orgulhoso de ser que sustentamos o velho processo psíquico de autofascinação com o qual nutrimos exacerbada convicção nas opiniões pessoais, especialmente em se tratando das intenções e atitudes do próximo.

Na raiz desse mecanismo psicológico encontra-se a neurótica necessidade de sentirmos superiores uns em relação aos outros, a disputa.

O orgulho é o sentimento de superioridade pessoal e a arrogância é a expressão doentia desse traço moral.

Iluminados pela Doutrina Espírita, não desejamos mais o mal de outrem. Enobrecidos pelas boas intenções, já nos qualificamos para operar algo de útil em favor do bem alheio, contudo, os reflexos mentais do orgulho ainda não nos permitem vencer o sentimento de importância pessoal. Reconhecer pelo coração o valor alheio na Obra do Cristo ainda constitui um enorme desafio educativo para nossas almas.

A mais destruidora atitude na convivência humana é a nossa arrogância de acreditar convictamente no julgamento que fazemos acerca de nosso próximo. Mesmo imbuídos de intenções solidárias, somos néscios em matéria de limites nas relações humanas. Quase sempre somos assaltados por velhos ímpetos arquivados na bagagem da vida afetiva que nos inclinam a atitudes de invasão e desrespeito para com o semelhante.

"Assim não deve ser entre vós; ao contrário, aquele que quiser tornar-se o maior, seja vosso servo;"

O que faz uma pessoa importante é a sua capacidade de servir, realizar. O impulso para ser útil, edificar, superar limites, alcançar novos patamares de conquistas. É o mesmo princípio originário da arrogância. Entretanto, invertendo a ordem, desenvolvemos a destrutiva acomodação em ser servido.

"Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também." (2).

Jesus é o grande exemplo de servidor. Para Ele, lavar os pés dos discípulos não era diminuir, mas avançar. Ele, naquele episódio, demonstra possuir consciência lúcida de Sua real condição íntima, portanto, não Se sentiu menor com o ato de servir.

Nossa grande dificuldade reside em desconhecer nosso real "tamanho evolutivo". Não sabemos quem somos e partimos para adotar referências para fora de nós. Por isso não disputamos quem é o maior conosco e sim o próximo. E para que essa disputa seja "legítima", criamos o hábito de julgar através da apropriação da verdade. Diminuindo o outro, sentimo-nos maiores.

Humildade é saber quem se é. Nem mais, nem menos. É o estado da mente que se despe das comparações para fora e passa a comparar-se consigo própria, mensurando a realidade de si mesma.

Quem se compara com o outro cria a tormenta e não descobriu sua singularidade, seu valor pessoal. Não se ama e, por isso mesmo, necessita compulsivamente estabelecer disputas, incendiando-se de inveja e colecionando rótulos inspirados em irretorquíveis certezas pessoais.

Quando nos abrimos para legitimar a humildade em nossas vidas, adotamo-nos como somos, aceitamos nossas imperfeições. Aprendendo a gostar de nós, eliminamos a ansiedade de competir para denegrir ou excluir.

Quando nos amamos, a ânsia de progredir transforma-se em fornalha crepitante de entusiasmo, distanciando-nos da atitude patológica de prestígio ou reconhecimento. Somente no clima do auto-amor elencamos condições essenciais para analisar as tarefas doutrinárias como campo de oportunidade e aprendizado, crescimento e libertação. Sem auto-amor e respeito aos semelhantes, vamos repetir a velha cena do Evangelho para saber quem é o maior.

"Não procureis, pois, na Terra, os primeiros lugares, nem vos colocar acima dos outros, se não quiserdes ser obrigados a descer. Buscai, ao contrário, o lugar mais humilde e mais modesto, porquanto Deus saberá dar-vos um mais elevado no céu, se o merecerdes."

Porque essa compulsão por ser o primeiro em uma obra que não nos pertence?

Na Obra de nosso Mestre há tarefas e lugares para todos. "(...) Deus saberá dar-vos um mais elevado no céu, se o merecerdes."

Tarefas maiores, à luz da mensagem do Cristo, não significam prerrogativas para adoção de privilégios ou garantia de autoridade. A expressividade da responsabilidade na Obra do Cristo obedece a dois fatores: necessidade de remissão perante a consciência e merecimento adquirido pela preparação. Em ambas as situações predomina uma só receita para o aproveitamento da oportunidade: esforço, sacrifício, renúncia e humildade.

Sobre os ombros daqueles que realçam e brilham no movimento doutrinário pesam severos compromissos interiores perante suas consciências.Compromissos que, certamente, não daríamos conta por agora. Portanto, repensemos nosso foco sobre quantos estejam assoberbados com tarefas de realce, analisando seus caminhos como espinhosa senda corretiva, repleta de desafios e inquietantes angústias da alma.

Quem se impressiona com o brilho de suas ações se surpreenderia ao conhecer a intensidade dos incômodos e cobranças íntimas que lhos absorvem a consciência ante a grandeza de suas realizações. Ninguém imagina a natureza das tormentas que experimentam os corações sinceros para aprenderem a lidar com o assédio das multidões, atribuindo-lhes virtudes ou qualidades que eles sabem ainda não possuírem. Quanta angústia verte entre o aplauso de fora e as lutas a vencer na sua intimidade.

Não existem pessoas mais ou menos valiosas no serviço de implantação do bem na Terra. Existem resultados mais abrangentes e expressivos que outros, no entanto, não conferem privilégios ou são sinônimos de sossego interior aos seus autores. Existem inúmeros trabalhadores da Doutrina que exercem excelente atuação com invejável rendimento e sentem-se de alma oprimida. Realizam a preço de sacrifícios hercúleos. Outros tantos, com menor expressividade na sua produtividade espiritual, alcançam níveis incomuns de alegria e bem-estar com a vida. Ainda existem aqueles que muito realizam e experimentam uma sensação de grandeza e importância pessoal.

A obra é importante. Nossa participação, por mais significativa, é como destaca Constantino, Espírito Protetor: "Bons espíritas, meus bem-amados, sois todos obreiros da última hora." (3)

Uma das mais graves angústias dos espíritas internados no Hospital Esperança é revolta que nutrem contra si mesmos quando conscientizam não serem tão essenciais e importantes quanto supunham no plano físico. Vários se entorpeceram com os efeitos sutis e envernizados da arrogância, acreditando-se indispensáveis, missionários e credores de vantagens em razão das realizações espirituais. Acalentaram expectativas fantasiosas com o desencarne e tombaram na enfermidade do personalismo. Quase sempre, constituem pesado ônus na rotina do Hospital, pois, mesmo aqui, ainda continuam suas disputas inglórias e exigências descabidas com base em suas supostas credenciais de elevação moral, obrigando-nos, algumas vezes, a tomar medidas austeras para tratar-lhes a insolência viciada...

Por mais nobre que seja a tarefa a nós entregue na seara, recordemos: os méritos devem ser transferidos para a causa do nosso Mestre. Lutamos todos pela causa do amor, a humanidade redimida.

Deveremos periodicamente nos perguntar: que tenho feito dos bens celestes a mim confiados? Cargos, mediunidade, recursos financeiros, influência pelo verbo, a arte de escrever, o talento de administrar, a força física, a saúde, a inteligência, enfim todos os bens com os quais podemos enriquecer nossa caminhada de espiritualização. Estarei os utilizando para o crescimento pessoal e de outros? Consigo perceber minha melhora no uso desses recursos?

A diluição dos efeitos da arrogância em nós depende dessa atitude honesta em lidar com os sentimentos que orbitam na esfera desse reflexo cristalizado no campo mental.

Essa honestidade emocional inicia-se com as perguntas: Por que estou sentindo o que estou sentindo? Qual o nome desse sentimento? Qual a mensagem meu coração está me indicando? Estarei disputando com alguém nas atividades? O que penso sobre meu semelhante será realmente a verdade? Por qual razão alguém me causa o sentimento de inveja? Por que me sinto diminuído perante uma determinada criatura?

A outra faceta da arrogância é a baixa auto-estima. O desgaste das forças íntimas ao longo desse trajeto de ilusões na supervalorização de si trouxe como efeito o vazio existencial. Após o esbanjamento da Herança Sagrada, o Filho Pródigo da passagem evangélica assevera: "Pai, pequei contra o céu e perante ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros." (4)

O sentimento de indignidade é o reverso da arrogância. O complexo de inferioridade é a resultante dos desvios clamorosos nesta longa caminhada evolutiva.

Por essa razão aprender o auto-amor é fundamental.

"A educação, convenientemente entendida, constitui a chave do progresso moral. Quando se conhecer a arte de manejar os caracteres, como se conhece a de manejar as inteligências, conseguir-se-á corrigi-los, do mesmo modo que se aprumam plantas novas. Essa arte, porém, exige muito tato, muita experiência e profunda observação." (5)

Que nossos apontamentos sobre a arrogância sejam apenas o estímulo inicial para a continuidade dos estudos em torno do tema. A complexidade desse sentimento em nossas vidas merece uma investigação mais detalhada que fugiria à nossa tarefa desta hora.

Como mensagem inspiradora para o nosso futuro ante a batalha ingente a ser travada contra nosso egoísmo destruidor, recolhamos nossas meditações na fala do Espírito Verdade:

"Os homens, quando se houverem despojado do egoísmo que os domina, viverão como irmãos, sem se fazerem mal algum, auxiliando-se reciprocamente, impelidos pelo sentimento mútuo da solidariedade. Então, o forte será o amparo e não o opressor do fraco e não mais serão vistos homens a quem falte o indispensável, porque todos praticarão a lei de justiça. Esse o reinado do bem, que os Espíritos estão incumbidos de preparar." (6).

1. Marcos 9:33 e 34
2. João, 13:14 e 15
3. O Evangelho Segundo o Espiritismo - capítulo 20 - item 2
4. Lucas 15:19
5. O Livro dos Espíritos - questão 917
6. O Livro dos Espíritos - questão 916

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Estudando a Arrogância 1

Escutando Sentimentos - Capítulo 8


"Assim não deve ser entre vós; ao contrário, aquele que quiser tornar-se o maior, seja vosso servo; - e, aquele que quiser ser o primeiro entre vós seja vosso escravo."
(S. Mateus, capítulo XX, vv. 20 a 28.)

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 7 - Item 4

Arrogância, eis um tema de extrema importância para ser meditado em nossos núcleos de amor cristão.

Tenho arrogância? Como descobri-la? O que é arrogância? Um sentimento ou uma atitude? Qual a sua origem? Como se manifesta? Como perceber a atitude arrogante? Que fazer para superar essa doença moral? Como espíritas somos arrogantes? Como? Quando? Por que existe ainda a arrogância em nossa conduta, apesar do conhecimento doutrinário?

Os Sábios Guias da Verdade oportunamente responderam ao senhor Allan Kardec: "De todas as imperfeições humanas, o egoísmo é a mais difícil de desenraizar-se porque deriva da influência da matéria, influência de que o homem, ainda muito próximo de sua origem, não pôde libertar-se e para cujo entretenimento tudo concorre: suas leis, sua organização social, sua educação".

O estudo do sentimento de egoísmo constitui elemento fundamental no entendimento de nossas necessidades espirituais. Significa estudar nossa própria história evolutiva. A sutil diferença entre pensar excessivamente em si e pensar em si com benevolência pode determinar a natureza de todos os sentimentos humanos. O excesso de interesse por si mesmo é um ciclo de ilusões que se repete sustentando o auto-desamor em milênios de perturbação. A benevolência é a bondade efetiva que caminha de braços dados com a edificação da paz interior.

O codificador ponderou: "Não; a paixão está no excesso de que se acresceu a vontade, visto que o princípio que lhe dá origem foi posto no homem para o bem, tanto que as paixões podem levá-lo à realização de grandes coisas. O abuso que delas se faz é que causa o mal." (1)

Na fieira do tempo o egoísmo sofreu mutações infinitas que compõem a versatilidade de toda a estrutura sentimental do Ser. O abuso desses "germens de luz" tem constituído entrave ao longo dos tempos. A paixão - ausência de domínio sob gerência da vontade - ensejou reflexos perniciosos, cujas raízes encontram-se no egocentrismo - o estado mental de fechamento nas nossas próprias criações.

Nessa linha de evolução, o instinto de conservação desenvolveu a posse como sinônimo de proteção, vindo a constituir o núcleo da tormenta humana como asseveram acima os Sábios Orientadores da Verdade: "(...) o egoísmo é a mais difícil de desenraizar-se porque deriva da influência da matéria (...)."

Alicerçados na necessidade apaixonada de proteção material, enlouquecemos através da posse e a conduta arrogante ensejou-nos a concretização dessa atitude de egoísmo.

O princípio que gera a arrogância foi colocado no homem para o bem. É a ânsia de crescer e realizar-se. O impulso para progredir. O instinto de conservação que prevê a proteção, a defesa. Tais princípios são os fatores de motivação para a coragem, a ousadia, o encanto com os desafios. Graças a eles surgem os líderes, o idealismo e as grandes realizações inspiradas em visões ampliadas do futuro. O excesso de tudo isso, no entanto, criou a paixão. A paixão gerou o vício. O vício patrocinou o desequilíbrio.

Comparemos o egoísmo como sendo o vírus e a arrogância a doença, seus efeitos nocivos e destruidores.

Arrogância, "qualidade ou caráter de quem, por suposta superioridade moral, social, intelectual ou de comportamento, assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; orgulho ostensivo, altivez". Esse o conceito dos dicionários humanos. (2)

No sentido espiritual podemos inferir vários conceitos para o sentimento de arrogar. Vejamos alguns: exacerbada estima a si mesmo. Supervalorização de si. Autoconceito super dimensionado. Desejo compulsivo de se impor aos demais.

O egoísmo é o sentimento básico. Arrogância é a atitude íntima derivada desse alicerce de sensações nascidas no coração ocupado, exclusivamente, com seu ego. Uma compulsiva necessidade de ser o primeiro, o melhor, manifestada através de um cortejo de pensamentos, emoções, sensações e condutas que determinam o raio espiritual no qual a criatura transita.

Asseveram os Sábios Guias: "(...) a paixão está no excesso de que se acresceu a vontade, visto que o princípio que lhe dá origem foi posto no homem para o bem, tanto que as paixões podem levá-lo à realização de grandes coisas. O abuso que delas se faz é que causa o mal".

Façamos um pequeno gráfico*. Escreva a palavra arrogância e a circule. Agora faça quatro traços nos pontos cardeais e escreva: rigidez, competição, imprudência, prepotência. Novamente faça um círculo em torno desses pontos e escreva: estado orgulhoso de ser. Feche um novo círculo.

Essas são as quatro ações mais perceptíveis em decorrência do ato de arrogar que estruturam expressiva maioria dos estados psicológicos e emocionais do Ser. A partir desse estado orgulhoso de ser, podemos perceber um quadro mental de rígida auto-suficiência, do qual nascem as ilusões e os equívocos da caminhada humana, arrojando-nos aos despenhadeiros da insanidade aceitável e da rivalidade envernizada.

O traço predominante na personalidade arrogante é a não conformidade. Usada com equilíbrio, é fonte de crescimento e progresso. Todavia, sob ação dos reflexos da posse e do interesse pessoal, que marcaram, acentuadamente, nossas reencarnações, esse traço atingiu o patamar de rebeldia e obstinação enfermiça.

A rebeldia tornou-se um condicionamento psicológico que dilata as ações da arrogância. Uma lente de aumento que decuplica e acelera as mutações da auto-suficiência.

Estudemos, portanto, as atitudes pilares da arrogância sob as lentes da rebeldia.

A rigidez é a raiz das condutas autoritárias e da teimosia que, frequentemente, deságuam nos comportamentos de intolerância. Sob ação da rebeldia, patrocina o desrespeito ao livre-arbítrio alheio e alimenta constantemente o melindre por a vida não ser como ele gostaria que fosse.

A competição não existe sem a comparação e o impulso de disputa. Quando tomado pela paixão, a força motriz de semelhante ação é o sentimento de inveja. Na mira da rebeldia, causa o menosprezo e a indiferença que tenta empanar o brilho de outrem. A competição é o alimento do sentimento de superioridade.

A imprudência é marcada pela ousadia transgressora que não teme e nem respeita os limites. Quase sempre, essa inquietude da alma alcança o perfeccionismo e a ansiedade que, frequentemente, deságuam na necessidade de controle e domínio. Consubstanciam modos rebeldes de ser. Desejo de hegemonia. Sentimento de poder.

A prepotência é um efeito natural da perspicácia que pode insuflar a megalomania, a presunção. Juntos formam o piso da vaidade. A rebeldia, nesse passo, conduz a uma desmedida necessidade de fixar-se em certezas que adornam posturas de infalibilidade.

Conforme o temperamento e a história espiritual particular, a arrogância manifesta-se com maior ou menor ênfase em uma das quatro ações descritas, criando efeitos variados no comportamento. Apesar disso, a cadeia de reflexos íntimos é muito similar.

Egoísmo que na sua mutação transforma-se em arrogância; essa, por sua vez, deriva um cortejo de outros sentimentos sob ação do orgulho e da rebeldia.

A arrogância retira-nos o "senso de realidade". Acreditamos mais naquilo que pensamos sobre o mundo e as pessoas do que naquilo que são realmente. Por essa razão, esse processo da vida mental consolida-se como piso de inumeráveis psicopatologias da classificação humana. A alteração da percepção do pensamento é o fator gerador dos mais severos transtornos psiquiátricos. São as manifestações enfermiças do eu na direção do narcisismo. Na rigidez, eu controlo. Na competição, eu sou maior. Na imprudência, eu quero. Na prepotência, eu posso. A arrogância pensa a vida e, ao pensá-la, afasta-nos dos nossos sentimentos.

Essa desconexão com a realidade estabelece a presença contínua das fantasias no funcionamento mental, isto é, a "interpretação ou imagem desvirtuada" que a pessoa alimenta acerca de fatos, pessoas e coisas. Nesse passo existem dois tipos psicológicos mais comuns. A arrogância voltada para o passado, quando há uma fixação em mágoas decorrentes da inaceitação de ocorrências que, na sua excessiva auto-valorização, o arrogante acredita não merecê-las. O outro tipo é a arrogância dirigida ao futuro, quando a criatura vive de ideais, no mundo das idéias, acreditando-se mais capaz e valorosa que realmente o é. Passível de realizar grandes e importantes missões. Tais "deslocamentos da mente" são formas de evadir de algo difícil de aceitar no presente. De alguma maneira, constituem mecanismos protetores, todavia, quando se prolongam demasiadamente, podem gerar enfermidades psíquicas. A depressão é resultado da arrogância voltada ao passado. E a psicose em relação ao futuro.

Interessante observar que uma das propriedades psicológicas doentias mais presentes na estrutura rebelde da arrogância é a incapacidade para percebê-la. O efeito mais habitual de sua ação na mente humana. Basta destacar que dificilmente aceitamos ser adjetivados de arrogantes. Entretanto, um estudo minucioso nos levará a concluir que, raríssimas vezes na Terra, encontraremos condutas livres dessa velha patologia moral.

Relacionemos outros efeitos dessa doença:

01. Perda do autodomínio.

02. Apego a convicções pessoais.

03. Gosto por julgar e rotular a conduta alheia.

04. Necessidade de exercício do poder.

05. Rejeição a críticas ou questionamentos.

06. Negação de sentimentos.

07. Ter resposta para tudo.

08. Desprezo aos esforços alheios.

09. Imponência nas expressões corporais.

10. Personalismo.

11. Auto-suficiência nas decisões.

12. Bloqueio na habilidade na empatia.

13. Incapacita para a alteridade.

14. Turva o afeto.

15. Acreditar que pode mais do que realmente é capaz.

16. Buscar mais de que necessita.

17. Querer ir além de seus limites.

18. Exigir mais do que consegue.

19. Sentir que somos especiais pelo bem que fazemos.

20. Supor que temos a capacidade de dizer o que é certo e errado para os outros.

21. Sentir-se com direitos e qualidades em função do tempo de doutrina e da folha de serviços.

22. Acreditar que temos a melhor percepção sobre as responsabilidades que nos são entregues em nome do Cristo.

23. Julgar-se apto a conhecer o que se passa no íntimo de nosso próximo.

24. Desprezar o valor alheio.

A ausência de consciência sobre esse sentimento e suas manifestações de rebeldia tem sido responsável por inúmeros acidentes da vida interpessoal. Mesmo entre os seguidores das orientações do Evangelho, solapam as mais caras afeições, levando muita vez a tomar os amigos como autênticos adversários como destaca a questão 917 de O Livro dos Espíritos:

"Quando compreender bem que no egoísmo reside uma dessas causas, a que gera o orgulho, a ambição, a cupidez, a inveja, o ódio, o ciúme, que a cada momento o magoam, a que perturba todas as relações sociais, provoca as dissensões, aniquila a confiança, a que o obriga a se manter constantemente na defensiva contra o seu vizinho, enfim a que do amigo faz inimigo, ele compreenderá também que esse vício é incompatível com a sua felicidade e, podemos mesmo acrescentar, com a sua própria segurança".

Ter autoconsciência é uma das habilidades da inteligência emocional. Saber dar nome aos nossos sentimentos é fundamental no processo de crescimento e reforma interior. A arrogância que costumamos rejeitar como característica de nossa personalidade é responsável por uma dinâmica metamorfose dos sentimentos.

A ignorância de seus efeitos em nossa vida é explorada pelos gênios astutos da perversidade no planeta.

Necessário registrar que os apontamentos sobre a arrogância aqui transcritos foram embasados no livro "Porta Larga, o Caminho da Perdição Humana". Um exemplar utilizado nas escolas da maldade em núcleos organizados da erraticidade, arquivado na biblioteca do Hospital Esperança quando seu próprio autor foi resgatado e socorrido por Eurípedes Barsanulfo há algumas décadas. Hoje reencarnado no seio do Espiritismo, esse escritor das penas vãs busca sua redenção na luta contra sua própria arrogância. O gráfico que sugerimos, também da autoria de nosso irmão, é usado em inúmeras plataformas de estudos com finalidades hegemônicas em clãs da perversidade.

O livro, que ainda permanece arquivado em nosso centro de estudos, é um exemplar de inteligência psicológica cujo propósito é combater a mensagem evangélica do Cristo embasada na humildade. Segundo o autor, a arrogância é a porta larga para implantação do caos no orbe terreno.

"Assim não deve ser entre vós; ao contrário, aquele que quiser tornar-se o maior, seja vosso servo; - e, aquele que quiser ser o primeiro entre vós seja vosso escravo".

Por que essa compulsão por ser o maior em uma obra que não nos pertence? Se a obra é do Cristo, por que a anti-fraternidade?

Considerando tais reflexões acerca dessa doença dos costumes, teçamos algumas ponderações que nos motivem a algumas auto-aferições à luz da claridade espírita.

* Gráfico proposto pela autora espiritual (nota do médium).

1. O Livro dos Espíritos - questão 907- comentário de Allan Kardec.
2. Dicionário Houaiss.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Carta de Misericórdia

Escutando Sentimentos - Capítulo 7


"Como é que vedes um argueiro no olho do vosso irmão, quando não vedes uma trave no vosso olho? - Ou, como é que dizeis ao vosso irmão: Deixa-me tirar um argueiro ao teu olho, vós que tendes no vosso uma trave? - Hipócritas, tirai primeiro a trave ao vosso olho e depois, então, vede como podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão.
(S. Mateus, cap. VII, vv. 3 a 5). 

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 10 - Item 14

Um dos efeitos mais inconfessáveis da arrogância em nossos relacionamentos é a nossa falta de habilidade para conviver com honestidade emocional perante o brilho dos êxitos alheios.

Com rara facilidade, sob ação fascinadora da arrogância, julgamos-nos os melhores naquilo que fazemos. Esse é um efeito dos mais perceptíveis do estado orgulhoso de ser, isto é, a propriedade mental de nos toldar a visão para enxergar o quanto nos iludimos com as fantasias do ego.

O senhor Allan Kardec teve ensejo de destacar: "Com efeito, como poderá um homem, bastante presunçoso para acreditar na importância da sua personalidade e na supremacia das suas qualidades, possuir ao mesmo tempo abnegação bastante para fazer ressaltar em outrem o bem que o eclipsaria, em vez do mal que o exalçaria?" (1).

Na maioria das vezes, o mérito alheio ainda é recebido no nosso coração como uma ameaça ou até mesmo uma afronta. Raramente, admitimos tal verdade. O hábito milenar de racionalizar nossos sentimentos constitui uma couraça psicológica enrijecida pelo orgulho.

"O orgulho vos induz a julgar-vos mais do que sois; a não suportardes uma comparação que vos possa rebaixar; a vos considerardes, ao contrário, tão acima dos vossos irmãos, quer em espírito, quer em posição social, quer mesmo em vantagens pessoais, que o menor paralelo vos irrita e aborrece." Um Espírito protetor. (Bordéus, 1863). (2)

A educação dos sentimentos depende de abundante honestidade emocional para conduzir-nos à verdade sobre nós mesmos. Sem consciência de suas raízes, jamais admitiremos a presença do ciúme e da inveja - monstros roedores da paz interior.

Combalidos por antigas frustrações, desgostosos conosco mesmo, sentimo-nos desvalorizados, tomados por uma sensação de inutilidade e abandono que tentamos mascarar com alegrias fictícias e conquistas perecíveis. Nesse clima psicológico, como cultivar empatia e entusiasmo com as virtudes alheias?

Os relacionamentos a todo instante sofrem os efeitos indesejáveis da carga vibratória dessas desconhecidas sombras íntimas, criando estados de desconforto que estipulam a antipatia ou mesmo a aversão, sem que haja, de nossa parte, qualquer intenção nesse sentido. São reflexos automáticos que trazemos na vida mental, com enorme poder de ação sobre as atitudes, sem que disso tenhamos consciência.

E o que é mais grave: por desconhecer a natureza dessas emoções, vemos o argueiro no olho alheio, sendo que temos uma trave em nossa visão espiritual, conforme a assertiva evangélica. Sentimos que as relações não vão bem, mas por incapacidade ou falta de habilidade em analisar a nós próprios, instintivamente fazemos uma projeção na tentativa de descobrir do lado de fora, aquilo que, em verdade, está dentro de nós.

Que nenhum discípulo de Jesus, perante os fracassos e perdas na vida interpessoal, julgue-se derrotado ou mal-intencionado. Nos serviços da Obra Cristã nos quais somos colaboradores iniciantes, jamais devemos nos permitir desacreditar nas intenções sinceras que sustentam nossos ideais de ascensão. Quase sempre, elas constituem nossa única garantia legítima em direção aos projetos de iluminação espiritual que abraçamos.

Se assim nos pronunciamos é porque, mesmo entre os discípulos da Boa Nova, a nobreza de intenções não é suficiente para impedir os efeitos lamentáveis da altivez que carregamos em nossos corações. Por muito tempo ainda, lutaremos tenazmente na colheita infeliz dos reflexos de prepotência e competição, que assinalam nossos impulsos uns perante os outros.

É um processo natural da evolução. Nada há de errado em sentir o que sentimos. O problema surge quando rebelamos em aceitar e investigar a existência de semelhantes atitudes de cada hora.

Não agimos assim por mal. Deliberadamente. São as compulsões morais que geramos nas experiências sucessivas da ambição e da loucura nas vitórias perecíveis.

Perdoar e nos perdoar sempre será a solução. Olhemos para nós com lealdade, mas, igualmente, com carinho e misericórdia. Somos almas recém egressas das fileiras do mal. Estamos, a exemplo do Filho Pródigo da passagem evangélica, retomando nossos caminhos após as atitudes enfermiças do esbanjamento psicológico e emocional, que nos aprisionaram nas refregas do vazio existencial.

Segundo o benfeitor Calderaro, o capítulo dez de O Evangelho Segundo o Espiritismo, "Os Que São Misericordiosos", deveria ser um dos textos mais estudados entre nós, os seguidores da Doutrina Espírita.

Os ambientes educativos dos centros espíritas que não cultivarem a misericórdia terão enormes obstáculos com o conflito improdutivo - resultado da maledicência e da hipocrisia, da severidade e da intolerância.

Tolerância, indulgência, perdão, compaixão e benevolência são algumas das expressões morais imprescindíveis no trato de uns para com os outros. Sem essas atitudes de amor, como nos suportaremos?

A comunidade doutrinária espírita avizinha o momento de seu desabrochar para a maioridade. A consciência da extensão de nossas enfermidades nos levará a concluirmos que nosso movimento libertador é um hospital de vastas proporções e especificidade. Como doentes em busca da cura, reconheceremos as necessidades do amor, sem o qual adiaremos nossa alta médica. E que manifestação de amor aplicado mais palpável pode existir que a misericórdia?

Nada dói tanto aos seguidores sinceros de Jesus quanto a ofensa não intencional, as rusgas não desejadas, as perdas afetivas, as reações inesperadas de ingratidão, o vício em colecionar certezas irremovíveis que traduzem prepotência, a indiferença e o menosprezo. São os frutos da ausência de misericórdia no coração humano.

Enquanto procurarmos as causas das decepções de nossas relações no estudo das imperfeições, não encontraremos respostas satisfatórias às nossas indagações e nem consolo para nossa alma. Somente compreendendo sinceramente quais lições evangélicas deixamos de aplicar em cada passo do caminho, obteremos alento, orientação e estímulo. Misericórdia para com as imperfeições alheias, piedade para com nossas faltas!

Portanto, as casas espíritas orientadas pelas atitudes de amor adotem sem demora o projeto da misericórdia fraternal. Grupos que se reúnam em vivências de honestidade emocional. Que tenham bondade para tratar de seus sentimentos e discuti-los em equipe. Sinceros, porém, acolhedores. Grupos que possam olhar de frente para a arrogância que ainda nos domina, e que tenham coragem de confrontá-la em público. Grupos que saibam pedir perdão. Conjuntos doutrinários dispostos a estimular o brilho das qualidades uns dos outros e dispostos à compaixão com os defeitos e motivados pela abolição da rigidez mórbida.

No Hospital Esperança, Dona Modesta desenvolve uma atividade de fidelidade aos sentimentos. Chama-se Tribuna da Humildade. É um recurso terapêutico aplicado em pacientes depois de certo tempo de tratamento emocional. Depoimentos, cartas, pedidos de perdão, histórias de vida, fracassos e vitórias são apresentados como forma de cuidar dos sentimentos secretos, não admitidos durante a vida física.

Gostaríamos de passar aos amigos de ideal na carne a síntese de uma carta que foi lida por destacado líder espírita ao ocupar, oportunamente, a Tribuna. Não importa o que se passou ou o que virá, nosso intuito é pensarmos, a todo instante, que a aplicação da misericórdia é a virtude que abranda nossos corações e o testemunho da leveza em nossas almas.

Senhores e senhoras, irmãos de doutrina, paz na alma.

Vir aqui falar de meus sentimentos é uma honra. Só lamento que tenha descoberto tão tarde o bem que me faz falar do que sinto.

A vida física brindou-me com a benção de ser espírita. Três décadas e meia em ininterrupta e afanosa atividade doutrinária.

Sou uma vítima de mim mesmo. É incrível como ouvi tantas e tantas vezes, assim como acredito que tenha ocorrido igualmente com muitos aqui presentes, sobre a importância de perdoar e, no entanto, tal esclarecimento ficou apenas no cérebro. Impermeável ao coração.

Tenho aprendido sob custódia de Dona Modesta que, quando a lembrança de alguém vem em nossa mente e desperta maus sentimentos, estamos magoados. Segundo ela, a mágoa que permanece por mais de uma hora em nossa cabeça, desce para o coração. E só Deus sabe quando sairá daí...

É o meu caso! Deixei a mágoa por mais de uma hora na cabeça!

Talvez alguém possa perguntar: por que apenas sessenta minutos de mágoa na cabeça?

Segundo Dona Modesta, os sessenta minutos são suficientes para perguntar a nós mesmos por que nos magoamos, e descobrir em nós próprios os remédios para curar-nos. Livrar-nos das algemas da ofensa.

A princípio, pode parecer uma atitude ingênua e desproposital, mas somente quem já sofreu o bastante com as mágoas sabe da importância de exonerá-las o quanto antes da intimidade. Ao adquirir coincidência dos males que ela nos traz, temos mais motivos ainda para extirpá-las.

Eu trouxe durante décadas a lembrança desagradável de pessoas e situações que permiti morarem em meu pensamento por mais de uma hora na condição de opositores.

Olhei demais para fora e a doença desceu da cabeça para o coração.

Pois bem! Isso me custou um câncer, o desencarne prematuro, perdas afetivas muito caras, lágrimas sem conta, angústia interminável e isolamento.

Aqui estou eu diante de mim mesmo. E os meus supostos inimigos, aqueles que me feriram, onde e como estão?

Certamente seguem seus caminhos e não levam más lembranças, especialmente de minha pessoa.

Meus amigos, o drama é um só! Tivesse lucidez suficiente e bastariam sessenta minutos para descobri-lo!

Faltou-me honestidade emocional para admitir que fosse invejoso, ciumento, competitivo, avesso a críticas e melindroso. Meu orgulho impediu-me de admitir que outras pessoas fossem tão boas quanto eu naquilo que eu fazia. Fracassei em um dos testes mais difíceis da jornada humana: exaltar a importância do outro com legítima alegria no coração e "diminuir para que o Cristo crescesse". (3)

Em meu favor, apenas tenho as minhas intenções. Em nenhum momento, conscientemente, calculei conflitos ou interesses pessoais. Sou vítima de mim mesmo, do meu passado de semeadura na arrogância.

Tudo passou no tempo, mas ainda trago a mente presa ao passado. Isso é a mágoa no coração.

Permiti-me adoecer. Magoar é admitir ser ferido, machucado.

A cicatrização pode demorar. A minha está se processando somente depois da morte.

Como? Como cicatrizar essas úlceras que eu mesmo provoquei? Como esquecer? Foram as perguntas que fiz desesperadamente ao tomar maior consciência do quanto me faziam sofrer.

Dona Modesta, aqui presente, é testemunha da minha dor.

Como religiosos, raramente escapamos de uma velha armadilha: a presunção. Eu não escapei.

Por presunção tornei-me um exímio juiz dos atos alheios, recheado de certezas sobre a conduta dos outros, um psicólogo implacável do comportamento do próximo. Tinha nos lábios as explicações perfeitas para a atitude de todos que me ofenderam. Quanto a mim, sempre me desculpava.

Como pude ser tão descuidado!

Olhei demais para o argueiro do próximo e não vi minha própria trave.

É preciso muita coragem para nos confrontar! Admitir a presença da inveja. Reconhecer que todos os nossos dissabores começam em nós mesmos. Conscientizar que somos os únicos responsáveis pelo que sentimos. Que podemos a qualquer momento retomar nossa alegria, nossas metas, nosso processo de crescimento, conforme a orientação evangélica que já possuímos.

Foi então que surgiu uma palavra fundamental na minha recuperação. Misericórdia. Compaixão.

Permitam-me a leitura de um parágrafo que se tornou a fonte de inspiração para minha recuperação:

"Espíritas, jamais vos esqueçais de que, tanto por palavras, como por atos, o perdão das injúrias não deve ser um termo vão. Pois que vos dizeis espíritas, sede-o. Olvidai o mal que vos hajam feito e não penseis senão numa coisa: no bem que podeis fazer. Aquele que enveredou por esse caminho não tem que se afastar daí, ainda que por pensamento, uma vez que sois responsáveis pelos vossos pensamentos, os quais todos Deus conhece. Cuidai, portanto, de os expungir de todo sentimento de rancor. Deus sabe o que demora no fundo do coração de cada um de seus filhos. Feliz, pois, daquele que pode todas as noites adormecer, dizendo: Nada tenho contra o meu próximo. Simeão (Bordéus, 1862)". (4)

Misericórdia! Ao invés de estudar as razões das ofensas, passei a pensar e aplicar a atitude de misericórdia. Mentalizei meus supostos adversários que me traziam más recordações e os envolvia em luzes de cores calmantes. Orei com sinceridade pedindo a Deus por eles.

Lamentavelmente não pude fazer o que faria hoje se estivesse no corpo: os procuraria para um abraço sincero.

Misericórdia, inclusive para mim, foi o que pratiquei, pois perdi, além de tudo, a minha paz. Autoperdão, admitir a minha participação em tudo aquilo que tinha motivo para queixar. Como é doloroso tomar contato com as nossas ilusões.

Incrível! Hoje tenho conhecido dramas terríveis de pessoas que foram efetivamente feridas e dilaceradas na vida física, e que se encontram aqui nessa casa de amor em estados melhores que o meu.

Como nós espíritas nos ferimos sem motivos reais para tanto!

Somente quando conseguirmos rir das atitudes que nos feriram, estaremos nos curando.

Quanta arrogância totalmente necessária em uma obra que nem nos pertence!

Que vergonha a minha! Como eu gostaria que tudo tivesse sido diferente! Sem dissensões, inimizades, perdas.

Só tenho uma virtude em toda a minha história. Não desisti de refazer meus caminhos. Talvez por isso sofra tanto. Por isso estou aplicando a misericórdia comigo também.

Não existe para mim conceito mais claro de misericórdia que acolher com afeto e carinho, estímulo e alegria o valor alheio, ceder da minha importância pessoal em favor da motivação de outrem para sua caminhada.

Hoje, creio sinceramente que se concedermos apenas uma hora para analisarmos as imperfeições e usarmos o restante do tempo para nos amar, a vida nos presenteará com mais motivos para ser feliz.

Penso muito em Jesus. Sabendo de todas as nossas mazelas, mesmo hoje como espíritas, continua contando conosco.

Essa tem sido a minha força.

Saber que o Mestre ainda conta comigo tem sido meu descanso, minha motivação.

Obrigado a todos por me ouvirem.


1. O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 10 - Item 10
2. O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 9 - Item 9
3. João, 3:30
4. O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 10 - Item 14

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Identidade Cósmica

Escutando Sentimentos - Capítulo 6


"E aqui está o segundo que é semelhante ao primeiro: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo."

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 15 - Item 4

Chamamos de atitude amorosa o tratamento benevolente com nosso íntimo através da criação de um relacionamento pacífico com as imperfeições. Desenvolver habilidades benevolentes para consigo é a base da vida saudável e o ponto de partida para o crescimento em harmonia.

Amar a si mesmo é o cerne da proposta educativa do Ser na fieira das reencarnações. O aprendizado do auto-amor tem como requisito essencial a descoberta de nossa "identidade cósmica", ou seja, a realidade do que somos na Obra Incomensurável do Pai, nossa singularidade. A singularidade é a "Marca de Deus" que define nossa história real no trajeto da evolução. É como o Pai nos "conclama" ser na Sua Criação.

Importante frisar que a singularidade é o conjunto de caracteres morais e espirituais peculiares à criatura única que somos. Nela se incluem também as mazelas cujos princípios foram colocados no homem para o bem, conforme acentuam os Sábios e Orientadores da codificação (1).

Quando rejeitamos alguns aspectos dessa "identidade exclusiva", nasce o conflito, que é a tormenta interior da alma convocada a transformar para melhor sua condição individual. O Doutor Carl Gustav Jung definiu esse movimento da vida mental como sendo individuação, isto é, viver em busca da individualidade, do Si Mesmo. Não se trata de viver o individualismo, o personalismo, mas aprender a ser, permitindo a expressão de suas características divinas latentes e de sua sombra sem as máscaras sociais. Individuação vem do latim individuus cujo sentido é "indiviso", "inteiro".

O progresso pessoal de cada um de nós é a arte de saber integrar os "fragmentos" da vida íntima, harmonizando-os para que reflitam as leis naturais de cooperação, trabalho e liberdade.

Somente vibrando na frequência do amor, esse movimento educativo da alma plenifica-se sem a angústia e o martírio - patrocinadores de longas e dolorosas crises nesse caminhar evolutivo. A convivência compassiva com nossa sombra só será possível com aceitação de nossa "identidade cósmica". Aceitar os nossos sentimentos, desejos, ações, impulsos e pensamentos. Aceitar é entrar em contato sem reprimir. Criar uma conexão sem julgamento e condenação. Aceitação não significa acomodação ou adesão passiva, mas entender, investigar e redirecionar esse patrimônio sem rigidez e desamor. É cuidar bem de si mesmo com ternura e respeito ao patrimônio adquirido, incluindo os maus pendores. Aceitação é a maneira carinhosa de tratar nossa intimidade, sem rivalidade.

Aceitar-se é confundido com passividade, irresponsabilidade. O conceito é exatamente o inverso, pois quando eu aceito as coisas como são, resgato minha força e poder transformador.

Se nós não nos aceitamos, magoamos a nós mesmos, por isso o auto-amor é também autoperdão. Perdoar é ter uma atitude de compaixão que nos distancie dos julgamentos e críticas severas e inflexíveis.

O remédio será aprender a amar a vida que temos, o que somos, o que detemos e viver um dia após o outro, cultivando na intimidade a certeza de que o percurso que fizemos deve ser visto como o melhor e mais proveitoso às necessidades que carregamos. É a nossa "marca personalizada" na Obra da Criação pela qual devemos responder com siso moral.

Certamente as Leis Divinas, a todo instante, conspiram para que afinemos essa singularidade com a "Freqüência de Deus", sempre elevando-nos e progredindo. A proposta do auto-amor, impele-nos, sobretudo, a conhecer nosso ritmo evolutivo, nossa capacidade pessoal de ajustarmo-nos a essa melodia universal.

Ninguém consegue ultrapassar seus limites pessoais de uma para outra hora. A palavra limite quer dizer o "ponto máximo". Em termos espirituais, só daremos conta daquilo que podemos. Nem mais nem menos. O martírio representa alguém querendo dar além do que consegue, idealizando caminhos, cobrando de si o impossível. Uma postura de inaceitação de sua condição íntima, gerando insatisfações e desequilíbrios.

Quando não amamos a nós mesmos, vivemos à mercê da influência dos palpites e reprimendas. A aprovação alheia é mais importante que a aprovação interior. Nessa situação escasseiam estima e confiança a si próprio, que impossibilitam a expressão da condição particular. Assim sentimo-nos prisioneiros adotando máscaras com as quais procuramos evitar a rejeição social, fazendo-nos infelizes e revoltados.

Ninguém pode definir para nós "o quanto ou o como deveríamos". Podemos ouvir opiniões e conselhos, corretivos e advertências, porém, o exercício do auto-amor nos ensinará a tirar de cada situação aquilo que, de fato, nos será útil ao crescimento. Cada pessoa ou situação de nossas vidas é como o cinzel que auxiliará a esculpir a obra incomparável da ascensão particular. Mas recordemos: apenas um cinzel! Apenas instrumentos! Pois a tarefa intransferível de talhar é com cada um de nós, escultores da individuação.

Quem se ama, imuniza-se contra as mágoas, guarda serenidade perante acusações, desapega-se da exterioridade como condição para o bem-estar, foca as soluções e valores, cultiva indulgência com o semelhante, tem prazer de viver e colabora espontaneamente com o bem de todos e de tudo.

Por longo tempo ainda exercitaremos esse amor a nós mesmos, alfabetizando nossas habilidades emocionais para um relacionamento intrapessoal fraterno, equilibrado. A primeira condição para nos engajarmos na Lei do Amor é essa caridade conosco, o encontro do self divino, sem o qual ficaremos desnorteados no labirinto das experiências diárias, à mercê de pessoas e fatos, adiando o Instante Celeste de sintonizar nossos passos com a paz interior que todos, afanosamente, estamos perseguindo.

1. O Livro dos Espíritos - Questão 907.