terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Estufas Psíquicas da Depressão

Escutando Sentimentos - Capítulo 5


"Apenas, Deus, em sua misericórdia infinita, vos pôs no fundo do coração uma sentinela vigilante, que se chama consciência. Escutai-a, que somente bons conselhos ela vos dará. As vezes, conseguis entorpecê-la, opondo-lhe o espírito do mal. Ela, então, se cala." 
Um Espírito protetor (Lião, 1860).

O Evangelho Segundo o Espiritismo - capítulo 13 - Item 1

Depressão é uma intimação das Leis da Vida convocando a alma a mudanças inadiáveis. É a "doença-prisão" que caça a liberdade da criatura rebelde, viciada em ter seus caprichos atendidos. Vício sedimentado em milênios de orgulho e rebeldia por não aceitar as frustrações do ato de viver. Em tese, depressão é a reação da alma que não aceitou sua realidade pessoal como ela é, estabelecendo um desajuste interior que a incapacita para viver plenamente.

Desde as crises ocasionais da depressão reativa até os quadros mais severos que avançam aos sombrios labirintos da psicose, encontramos no cerne da enfermidade o Espírito, recusando os alvitres da vida. Através das reações demonstra sua insatisfação em concordar com a Vontade Divina, acerca de Seus Desígnios, em flagrante desajuste. Rebela-se ante a morte e a perda, a mudança e o desgosto, a decepção e os desafios do caminho, criando um litígio com Deus, lançando a si mesmo nos leitos amargos da inconformação e da revolta, do ódio e da insanidade, da apatia e do sofrimento moral.

Neste momento de transição em que os avanços científicos a classificam dentro de limites e códigos, é necessário ampliar a lente das investigações para analisá-la como estado interior de inadequação com a vida, que limita o Espírito para plenificar-se, existir, ser em plenitude. Seu traço psíquico predominante é a diminuição ou ausência de prazer em quaisquer níveis que se manifeste. Portanto, dilatando as classificações dos respeitáveis códigos humanos, vamos conceituá-la como sendo o sofrimento moral capaz de reduzir ou retirar a alegria de viver.

Sob enfoque espiritual, estar deprimido é um estado de insatisfação crônica, não necessariamente incapacitante. As mais graves psicoses nasceram através de "filetes de loucura controlada" que roubam do ser humano a alegria de continuar sua marcha, de cultivar sonhos e lutas pelos ideais de sobrevivência básica. Nessa ótica, tomemos alguns exemplos para ilustrar nosso enfoque de depressão à luz do Espírito imortal em condutas rotineiras:

·        O desânimo no cumprimento do dever.

·        A insegurança obsessiva.

·        A ansiedade inexplicável.

·        A solidão em grupo.

·        A impotência perante o convite das escolhas.

·        A angústia da melhora.

·        A aterrorizante sensação de abandono.

·        Sentir-se inútil.

·        Baixa tolerância às frustrações.

·        O desencanto com os amigos.

·        Medo da vulnerabilidade.

·        A descrença no ato de viver.

·        O hábito sistemático da queixa improdutiva.

·       A revolta com normas coletivas para o bem de todos.

·        A indisposição de conviver com os diferentes.

·        A relação de insatisfação com o corpo.

·        O apego aos fatos passados.

·        O sentimento de menos-valia perante o mundo.

·    O descaso com os conflitos, a negação dos sentimentos.

·        A inveja do sucesso alheio.

·        A desistência de ser feliz.

·        A decisão de não perdoar.

·        A inconformação perante as perdas.

·        Fixação obstinada nos pontos de vista.

·        O desamor aos que nos prejudicam.

·      O cultivo do personalismo - a exacerbada importância pessoal.

·        O gerenciamento ineficaz da culpa.

·        As aflições-fantasma com o futuro.

·        A tormenta de ser rejeitado.

·        As agruras perante as críticas.

·        Rigidez nas atitudes e nos objetivos.

·        Conduta perfeccionista.

·        Sinergia com o pessimismo.

·        Impulso para desistir dos compromissos.

·        Pulsão para controlar a vida.

·        Irritabilidade sem causas conhecidas.


Todas essas ações ou sentimentos são sinais de depressão na alma, porque criam ou refletem um desajuste da criatura com a existência, levando-a, paulatinamente, a roubar de si mesma a energia da vida. São rejeições à Sábia e Justa Vontade Divina - excelsa expressão do bem em nosso favor nas ocorrências de cada dia.

Bilhões e bilhões de homens, na vida física e extrafísica, estão deprimidos ou constroem "estufas psíquicas" para futuras depressões reconhecidas pela ótica clínica. Arrastam-se entre a animalidade e o mundo racional. Lutam para se livrar da pesada crisálida magnética dos instintos e assumir sua gloriosa condição de filhos de Deus e cocriadores na Obra Paternal. Vivem, mas não sabem existir. Perambulam, quase sempre, na alegria de possuir e raramente alcançam o prazer de ser. Ora escravos das lembranças do passado, ora atormentados pelo medo do futuro. Jornadeiam sob os grilhões do ego recusando os apelos do self.

Esse conceito maleável da doença explica o lamentável estado de inquietude interior que assola a humanidade. É a "algazarra do ego" criando mecanismos para continuar seu reinado de ilusões, obstruindo os clarões de serenidade e saúde imanentes do self - a vontade lúcida do Espírito em busca da liberdade.

Devido aos programas coletivos de saneamento psíquico da Terra orientados pelo Mais Alto, vivemos um momento histórico. Nunca foram alcançados índices tão significativos de resgate e socorro nos atoleiros morais da erraticidade. Consequentemente, eleva-se o número de corações que regressam ao corpo carnal sob custódia do remorso. Esse estado psíquico responde pelo crescimento dos episódios depressivos. Seria trágico esse fenômeno social se deixássemos de considerá-lo como indício de mudança nos refolhos da alma. Conquanto não signifique libertação e paz, coloca a criatura a caminho dos primeiros lampejos de consciência lúcida.

O planeta em todas as latitudes experimentará uma longa noite de dores psicológicas, em cujo bojo despontará um homem novo e melhorado em busca dos Tesouros Sublimes, ainda desconhecidos em sua intimidade.

Ao formularmos esse foco para a depressão, nossa intenção é estimular a medicina preventiva centrada no Espírito imortal e na educação. É assustador o índice de deprimidos segundo a sintomatologia oficial, no entanto, infinitamente maior é o número daqueles que cultivam, em regime de cultura mental, os embriões de futuros episódios psiquiátricos depressivos.

A solução vem da própria mente. A terapêutica está no imo da criatura. Aprender a ouvir os ditames da consciência: eis o que pouco fazem quando se encontram sob sansão da depressão. Esse é o estado denominado "consciência tranquila", ou seja, quando o self supera as tormentas da culpa e do medo, da ansiedade e do instinto de posse. Aprendendo a arte de ouvir esse guia infalível, a criatura caminha para o sossego íntimo, a serenidade, a plenitude, a alegria.

A saúde decorre de uma relação sinérgica com o self. Dele partem as forças capazes de estabelecer o clima da alegria de ser. Do self procede a energia da vida, o tônus que permite a criatura ampliar seu raio de interação com a natureza - outra fonte de vida -, expressão celeste de Deus no universo. A depressão é ausência dessa energia de base, dessa força de vitalidade e saúde, ensejando a defasagem, o esgotamento. A ausência de contato com o amor - Lei universal de vida e saúde integral - responde pelos reflexos da "morte interior".

Nos apelos da consciência encontraremos o receituário para a liberdade e a paz, o equilíbrio e o progresso.

A ingestão dessa medicação amarga será uma batalha sem tréguas, porque aderir aos ditames conscienciais significa, antes de tudo, deixar de desejar o que se quer para fazer o que se deve. Nessa escola de novas aprendizagens, a alma fará cursos intensivos de novos costumes emoções através do aprendizado de olhar para si.

A ausência de uma percepção muito nítida das nossas reais necessidades interiores leva-nos à busca do prazer estereotipado, aquele que a maioria procura para preencher o "vazio", e não para viver criativamente em paz. Depois vem a culpa e outras manifestações de dor. O prazer real é somente aquele que nos equilibra e preenche sem sofrimentos posteriores.

Somente estando identificados com os "recados do self", construiremos uma vida criativa, adequada ao caminho individual. Jung chamou esse processo de individuação. Descobrir nossa singularidade, saber vivê-la sem afronta ao meio e colocá-la a serviço do bem, essas as etapas do crescimento sistêmico, integrado com o próximo, a vida e a natureza. Individuação só será possível acolhendo a sombra do inconsciente através dos "braços do ego", entregando-a à "inteligência espiritual" do self, para transformá-la em luz e erguimento conforme as aspirações do Espírito.

Depressão - condição mental da alma que começa a resgatar o encontro com a verdade sobre si mesma depois de milênios nos labirintos da ilusão.

"A felicidade terrestre é relativa à posição de cada um. O que basta para a felicidade de um, constitui a desgraça de outro. Haverá, contudo, alguma soma de felicidade comum a todos os homens?"

"Com relação à vida material, é a posse do necessário. Com relação à vida moral, a consciência tranquila e a fé no futuro" (1).

Consciência tranquila e prazer de viver, a maior conquista das pessoas livres e felizes.

1. O Livro dos Espíritos - questão 922.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Infortúnio Oculto nos Grupos Doutrinários

Escutando Sentimentos - Capítulo 4


" Mas, a par desses desastres gerais, há milhares de desastres particulares, que passam despercebidos: os dos que jazem sobre um grabato sem se queixarem. Esses infortúnios discretos e ocultos são os que a verdadeira generosidade sabe descobrir, sem esperar que peçam assistência."

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 13 - Item 4

Com muita frequência, constatam-se medidas e alertas de vigilância contra o orgulho nos abençoados ambientes doutrinários. Verdadeira campanha espontânea tomou conta da seara em torno dos cuidados que se deve ter acerca dos efeitos nocivos do personalismo. Ninguém há de contestar o valor de tais iniciativas. Entretanto, enquanto empenhamo-nos contra esse costume, perceptível pela ostentação com a qual se manifesta, extensa gama de discípulos padece com outro traço moral enfermiço, nem sempre tão evidente na conduta humana: a baixa auto-estima. Um infortúnio oculto que solicita nossa atenção.

A sensibilidade humana tem sido insuficiente para detectar o caos interior em que vivem inúmeras criaturas, escondendo-se por trás das máscaras sociais, temendo tornarem conhecidos seus dramas inenarráveis que configuram um autêntico quadro de "loucura controlada".

A mesma raiz que vitaliza a vaidade é responsável pela carência de estima pessoal. O orgulho que procura brilhar no palco do prestígio, assim como a atitude de desamor a si mesmo, são manifestações do sentimento de menos valia ou complexo de inferioridade, que toma conta de multidões sem conta no orbe terreno.

Podemos facilmente confundir atitudes de baixa auto-estima com comportamentos personalistas. Criaturas com escassez de auto-amor lutam para preservar suas reais intenções demonstrando, para tal, pouca ou nenhuma habilidade através de atitudes desconectadas de seus verdadeiros sentimentos; adotam condutas defensivas que podem ser interpretadas como individualismo e ingratidão. No fundo se debatem com a incapacidade de estabelecerem limites de proteção ao mundo dos seus sentidos pessoais. Estão em conflito e reagem de modo nem sempre adequado ante aquilo que lhes constitui ameaça, deixando clara a complexidade da alma humana que, para ser entendida em suas ações e reações, solicita-nos ampliada complacência e largo discernimento.

Quem analisa um orador, um médium, um dirigente, um tarefeiro iluminado com as luzes da cultura espírita, enquanto em suas movimentações doutrinárias, não imagina a dor íntima que atinge muitos deles na esfera de suas provas silenciosas no reino do coração. Solidão, abandono, conflitos, medo, frustrações, impotência e outros tantos sentimentos estruturam um dilacerante estado de instabilidade e vulnerabilidade, que retratam velhas feridas evolutivas da alma.

Neste momento de tormentas atrozes e de frustrações sem fim, conclamemos o valoroso movimento em torno das idéias espíritas ao serviço inadiável de incentivar o fortalecimento da estima e do valor pessoal. A casa espírita, como avançado núcleo de enfermagem moral, necessita ser o local da educação para que o homem se livre de suas ilusões e promova-se, definitivamente, a legatário de sua Herança Cósmica. Imperioso que os dirigentes tenham lucidez, porque essa missão somente será cumprida com acolhimento fraternal, estímulo à autonomia, tolerância com os limites alheios e tempo.

Decerto, a idolatria e a purpurina da lisonja são dispensáveis. O privilégio e a exaltação são incoerentes com o espírito da espontaneidade. O Espiritismo, convenhamos, combate a atitude egoísta proposital, exclusivista, mas não propõe a morte dos valores individuais que podem e devem fazer parte da comunidade como fator gerador de bênçãos, alegrias e exemplo estimulador. O receio do estrelato e das manifestações individualistas tem culminado em autênticas "fobias éticas", que não educam nossas tendências. A luz foi feita para iluminar, brilhar.

E ninguém, acendendo uma candeia, a cobre com algum vaso, ou a põe debaixo da cama; mas põe-na no velador, para que os que entram vejam a luz (1).

Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; (2).

Que os tarefeiros da causa estejam atentos à fala inspirada do codificador: Esses infortúnios discretos e ocultos são os que a verdadeira generosidade sabe descobrir, sem esperar que peçam assistência.

Olhemos uns pelos outros com olhos de ver. Muita vez onde supomos existir um doente pertinaz em busca de realce, encontra-se um coração ferido e cansado, confuso e amedrontado mendigando amizade autêntica e compreensão. Possivelmente quando sentir a força do amor que lhes votamos será tocado. Sentindo-se amado, pouco a pouco, terá motivos para abandonar as expressões de inferioridade que lhe torturam. Por fim, descobrirá o quanto somos amados, incondicionalmente, pelo Criador que, em Sua Generosidade Excelsa, nos aguarda no espírito glorioso de Filhos de Sua Obra.

Oremos juntos por esse instante de luz:

Senhor,

Tem piedade das nossas necessidades!

Auxilia-nos a sustentar o perdão com as imperfeições que ainda carregamos na intimidade.

Ensina-nos a nos amar, Senhor! A aceitar-nos como somos e a buscar a melhora gradativa. Fortalece nossa capacidade de amar a fim de estendermos a luz da compaixão em relação às falhas que cometemos.

Estende-nos Tuas mãos compassivas! Unge-nos com misericórdia as dores da angústia de viver trazendo por dentro as sombras do passado!

Ampara-nos, Divino Pastor, para jamais esquecermos as vitórias já alcançadas. Que elas nos sirvam de estímulo!

Ante as lutas e conflitos da alma, abençoe-nos sempre, Senhor, para que nunca desistamos de combater-nos.

Obrigada, Jesus, por nos incluir em Teu amor infinito, sem o qual não teríamos forças para nos suportar.

Obrigada, Senhor! Hoje e sempre, obrigada!


1. Lucas 8:16
2. Mateus 5:14

domingo, 11 de dezembro de 2016

Educação Para o Auto-Amor

Escutando Sentimentos - Capítulo 3

"O amor é de essência divina e todos vós, do primeiro ao último, tendes, no fundo do coração, a centelha desse fogo sagrado". - Fénelon. (Bordéus, 1861).

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 11 - Item 9

O mais genuíno ato de amor a si consiste na laboriosa tarefa de fazer brilhar a luz que há em nós. Permitir o fulgor da criatura cósmica que se encontra nos bastidores das máscaras e ilusões. Somente assim, escutando a voz de nosso guia interior, nos esquivaremos das falácias do ego que nos inclina para as atitudes insanas da arrogância.

Quando não nos amamos, queremos agradar mais aos outros que a nós, mendigamos o amor alheio, já que nos julgamos insuficientes ou incapazes de nos querer bem.

Neste momento de perspectivas alvissareiras com a chegada do século XXI, a esperança acena com horizontes iluminados para a caminhada de ascensão espiritual da humanidade.

O resgate de si mesmo há de se tornar meta prioritária das sociedades sintonizadas com o progresso. O bem-estar do homem, no seu mais amplo sentido, se tornará o centro das cogitações da ciência, da religião e de todas as organizações humanas.

Perante esse desafio social, sejamos honestos acerca do quanto ainda temos por laborar para erguer a comunidade espírita ao patamar de "escola capacitadora de virtudes" em favor das conquistas interiores.

Quantos se encontrem investidos da responsabilidade de dirigir e cooperar com os grupamentos do Espiritismo, priorizem como compromisso essencial de suas vinhas o ato corajoso de trabalhar pela formação de ambientes educativos, motivadores da confiança espontânea e do comprometimento pelo coração.

Trabalhar pela felicidade do homem deve ser o objetivo maior das agremiações doutrinárias orientadas pela mensagem de amor do Evangelho. Os modelos e conceitos inspirados nos princípios espíritas que não se adequarem à condição de instrumentos facilitadores para a alegria e a liberdade haverão de ser repensados.

Não podemos ignorar fatores de ordem educacional e social que estimulam vivências íntimas da criatura em sua caminhada de aprendizado. As últimas duas gerações que sofreram de modo mais acentuado os processos históricos e coletivos da repressão atingem a meia idade na atualidade. Renasceram ao longo das décadas de cinquenta e sessenta e se encontram em plena fase de vida produtiva, sofridas pelas sequelas psicológicas marcantes de autodesamor.

Outro fator, mais grave ainda, são as crenças alicerçadas em sucessivas vidas reencarnatórias que constituem sólida argamassa psicológica e emocional, agindo e reagindo, continuamente, contra os anseios de crescimento íntimo. O complexo de inferioridade é a condição cármica criada pelo homem em seu próprio desfavor.

Nada, porém, é capaz de bloquear ou diminuir o fluxo de sentimentos naturais e divinos que emanam da alma como apelos de bondade, serenidade e elevação. Nem a formação educacional rígida ou os velhos condicionamentos são suficientes para tolher a escolha do homem por novos aprendizados. O self emite, incessantemente, energias sublimadas, a despeito dos fatores sociais e reencarnatórios que agrilhoam a mente aos cadinhos regenerativos do conflito e da dor.

Paulo, o apóstolo de Tarso, asseverou: "Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço" (1).

Contra os objetivos da vida profunda, temos forças vivas em nós mesmos como efeitos de nossos desatinos nas experiências pretéritas.

Considerando essa manifestação celeste do "ser profundo", compete-nos talhar condições favoráveis para o aprendizado das mensagens da alma. Aprender a ouvir nossos sentimentos verdadeiros, os reclames do Espírito que somos nós mesmos.

A palavra educação vem do latim educare ou educere. Provérbio: e. Verbo: ducare, ducere. Seu significado é trazer à luz uma ideia, levar para fora, fazer sair, extrair. Essa a tarefa dos centros espíritas: oferecer condições para que o homem extraia de si mesmo seu valor divino na Obra da Criação.

Em nossos projetos de religiosidade no centro espírita, o auto-amor deve constituir lição primordial. Espiritualidade significa grandeza de sentidos para viver. Essa é a visão do centro espírita em sintonia com a alma do Espiritismo, uma verdadeira noção de imortalidade sentida e aplicada.

O auto-amor é um aprendizado de longa duração. Conectar seu conceito a fórmulas comportamentais para aquisição de felicidade instantânea é uma atitude própria de quantos se exasperam com a procura do imediatismo. Amar é uma lição para a eternidade.

Que habilidades emocionais temos que desenvolver para o auto-amor? Que cuidados adotar para aprendermos uma relação de amorosidade conosco? Como alcançar a condição de núcleos avançados para desenvolvimento dos valores da alma? Que iniciativas tomar para que as casas espíritas sejam redutos de aprimoramento de nossos sentimentos e escolas eficientes de criatividade para superação de nossas dores? Que técnicas e métodos nos serão úteis para incentivar a alegria e a espontaneidade afetiva? Como implementar escolas do sentimento em nossos grupos doutrinários de estudo sistematizados? Que temas enfocar na melhor compreensão das manifestações profundas da alma?

Fala-se, em nossos ambientes de educação espiritual, que não somos bons ouvintes. De fato, uma das habilidades que carecemos aperfeiçoar nas relações interpessoais é a arte de ouvir. Mas, da mesma forma que guardamos limitações para ouvir o outro, também não sabemos ouvir a nós mesmos. Que técnicas adotar para estimular nossa habilidade de ser um bom ouvinte?

Ouvir a alma é aprender a discernir entre sentimentos e o conjunto variado de manifestações íntimas do ser, sedimentadas na longa trajetória evolutiva, tais como instintos, tendências, hábitos, complexos, traumas, crenças, desejos, interesses e emoções.

Escutar a alma é aprender a discernir o que queremos da vida, nossa intenção-básica. A intenção do Espírito é a força que impulsiona o progresso através do leque dos sentimentos. A intenção genuína da alma reflete na experiência da afetividade humana, construindo a vastidão das vivências do coração - a metamorfose da sensibilidade. A conquista de si mesmo consiste em saber interpretar com fidelidade o que buscamos no ato de existir, a intenção magnânima que brota das profundezas da alma em profusão de sentimentos.

Os discípulos sinceros do Espiritismo reflitam na importância do auto-amor como condição indispensável ao bom aproveitamento da reencarnação. Estar em paz consigo é recurso elementar na boa aplicação dos Talentos Divinos a nós confiados.

Amar-se não significa laborar por privilégios e vantagens pessoais, mas o modo como convivemos conosco. Resume-se, basicamente, na forma como tratamos a nós próprios. A relação que estabelecemos com nosso mundo íntimo. Sobretudo, o respeito que exercemos àquilo que sentimos. A auto-estima surge quando temos atitude cristã com nossos sentimentos.

O amor a si não se confunde com o egoísmo, porque quem tem atitude amorosa consigo está centrado no self. Deslocou o foco de seus sentimentos para a fonte de sabedoria e elevação, criando ressonância com o ritmo de Deus. Amar-se é ir ao encontro do Si Mesmo como denominava Jung.

Alinhavemos alguns tópicos sugestivos que poderão constar no programa de debates para reeducação da vida emocional e psicológica à luz dos fundamentos do Espiritismo. Tomemos por base a análise educacional de Allan Kardec que diz na questão número 917 de O Livro dos Espíritos:

"A educação, convenientemente entendida, constitui a chave do progresso moral. Quando se conhecer a arte de manejar os caracteres, como se conhece a de manejar as inteligências, conseguir-se-á corrigi-los, do mesmo modo que se aprumam plantas novas. Essa arte, porém, exige muito tato, muita experiência e profunda observação. É grave erro pensar-se que, para exercê-la com proveito, baste o conhecimento da Ciência".

Responsabilidade - Somos os únicos responsáveis pelos nossos sentimentos.

Consciência - O sentimento é o espelho da vida profunda do ser e expressa os recados da consciência. Nossos sentimentos são a porta que se abre para esse mundo glorioso que se encontra "oculto", desconhecido.

Ética para conosco - Somos tratados como nos tratamos. Como sermos merecedores de amor do outro, se não recebemos nem o nosso próprio?

Juízo de valor - Não existem sentimentos certos ou errados.

Automatismos e complexos - O sentimento pode ser sustentado por mecanismos alheios à vontade e à intenção.

Auto-amor é um aprendizado - Construir um novo olhar sobre si, desenvolver sentimentos elevados em relação a nós, constitui um longo caminho de experiências nas fieiras da educação.

Domínio de si - Educar sentimentos é tomar posse de nós próprios.

Aceitação - Só existe amor a si através de uma relação pacífica com a sombra.

Renovação do sistema de crenças - Superar os preconceitos. Julgamentos formulados a partir do sistema de crenças desenvolvidas com base na opinião alheia desde a infância.

Ação no bem - Integração em projetos solidários. A aquisição de valor pessoal e convivência com a dor alheia trazem gratidão, estima pelas vivências pessoais. Cuidando bem de nós próprios, somos, simultaneamente, levados a estender ao próximo o tratamento que aplicamos a nós. Quando aprendemos a gostar de nós, independente de sermos amados, passamos a experimentar mais alegria em amar. A ética de amor a si deve estar afinada com o amor ao próximo.

Assertividade - Diálogo interno. Uma negociação íntima para zelar pelos limites do interesse pessoal.

Florescer a singularidade - O maior sinal de maturidade. Estamos muito afastados do que verdadeiramente somos.

Ter as rédeas de si mesmo - Para muitos o personalismo surge nesse ato de gerir a vida pessoal com independência. Pelo simples fato de não saberem como manifestar seus desejos e suas intenções, abdicam do controle íntimo e submetem-se ao controle externo de pessoas e normas.

Construção da autonomia - Autonomia é capacidade de sustentar sentimentos nobres acerca de nós próprios.

Identificação das intenções - Aprender a reconhecer o que queremos, qual nossa busca na vida. Quase sempre somos treinados a saber o que não queremos.

Sentir-se bem consigo é sinônimo de felicidade, acesso à liberdade. É permitir que a centelha sagrada de Deus se acenda em nós. Conhecer a arte de manejar caracteres.

Portanto, a feliz colocação de Fénelon merece a nossa mais ardorosa atenção: O amor é de essência divina e todos vós, do primeiro ao último, tendes, no fundo do coração, a centelha desse fogo sagrado.

Não esqueçamos a recomendação de Lázaro: "O Espírito precisa ser cultivado, como um campo. Toda a riqueza futura depende do labor atual, que vos granjeará muito mais do que bens terrenos:a elevação gloriosa" (2).


1. Romanos, 7:19.
2. O Evangelho Segundo o Espiritismo - capítulo 11 - item 8.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Receituário Oportuno

Escutando Sentimentos - Capítulo 2


"Tereis, contudo, razão, se afirmardes que a felicidade se acha destinada ao homem nesse mundo, desde que ele a procure, não nos gozos materiais, sim no bem."

O Evangelho Segundo o Espiritismo - capítulo 11 - Item 13


Desde o seu desenlace do corpo físico, Doutor Inácio Ferreira tem como tarefa matutina receber doentes em seu consultório no Hospital Esperança. Algumas vezes, devido ao agravamento dos quadros psíquicos, alguns pacientes são acolhidos em alas específicas de recuperação. Acompanhando-o a muitas dessas visitações de amor, viemos a conhecer o caso Anselmo, líder espírita experiente e valoroso por mais de quarenta e cinco anos no Triângulo Mineiro.

Ao chegar à ala, foi recebido por Manoel Roberto, o enfermeiro dedicado ao velho companheiro desde os tempos do sanatório psiquiátrico uberabense. Informado sobre o agravamento do quadro, Doutor Inácio abordou o paciente:

- Anselmo! Anselmo! Como passa meu bom amigo?

- Péssimo!

- Por quê meu filho?

- O senhor tem conhecimento do que passei durante a vida física?

- Sim. Estudo sua ficha há vários dias.

- Então deve saber que um terrível estado de desgosto íntimo acompanhou toda a minha vida. Fiquei firme na atividade espírita na esperança de ter um pouco de sossego neste plano, mas parece que não terei, não é mesmo?

- Cada qual colhe o que plantou!...

- Pois vou dizer ao senhor: só não suicidei no corpo por saber das dificuldades de tal ato. Vontade não me faltou, pois a cada dia que passava, angustiava ver minha penúria. Oração, trabalho e estudo não me curaram a tormenta. Contudo, minha alternativa foi continuar a trabalhar e esperar para depois da morte o alívio, a libertação. Agora chego aqui e o que tenho? Mais tormenta, remédios e internação.

- E como se sente diante disso?

- Eu quero matar a vida, já que não tive coragem de matar o corpo. Doutor, é possível se suicidar por aqui? É possível? Se for, pode me ensinar?!

- Sossegue, homem! Depois de quatro crises ainda pensa nisso? Faça um esforço maior!

- Esforço?! Mais do que fiz na Terra? Para quê? Meus problemas começaram ao reencarnar e continuam depois do meu retorno. Para mim chega de lutas!

- Todos temos problemas, meu filho!

- Vá me dizer que o senhor, como médico nessa casa de luz, tem algum problema! Quem está deitado e queixando sou eu, e não o senhor!

- Tenho mais problemas do que você possa imaginar! Em verdade, Anselmo, nossos problemas iniciaram quando "apartamos" de Deus. Isso se deu há milênios sem conta...

- Eu sou deportado de outro mundo, não sou?

- Deixemos esse assunto para outra hora - esquivou-se o servidor.

- Nunca tive prazer de viver na vida física. Não sei nem se sei bem o que é isso. Não devo ser mesmo deste mundo. Contudo, se aspiro ser feliz, devo ter experimentado isso algum dia. O senhor concorda comigo?

- Certamente!

- Achei que morrendo, depois de tanta dor, fruiria o bem-estar, a paz. Entretanto, creio que devo ter esquecido algo durante a vida corporal... Estranho, Doutor Inácio! Já morri e continuo com vontade de morrer. O que é isto meu Deus?! Quando vai terminar este inferno na mente? Qual a minha doença?

- Depressão!

- Depressão?! E como curar isto?

- Aprendendo a viver.

- Eu não tenho depressão. Pessoas com depressão não lutam como eu lutei.

- Posso lhe aplicar um teste, se você desejar.

- Aplique.

- Responda com sinceridade: você sentia desânimo, inconformação e angústia com frequência na vida física?

- Sim. Muito.

- Isso é depressão.

- Mas nunca nenhum médico jamais diagnosticou! No máximo falavam em cansaço.

- Depressão é cansaço de viver, meu filho.

- E como não sentir isso com a vida que tive?

- A pergunta está mal formulada, Anselmo. Melhor seria dizer assim: "E como não sentir isso deixando de aceitar a vida que tive!" Depressão é não aceitar a vida como ela é.

- Mas fui resignado.

- O que você entende por resignação?

- Suportar as provas da vida com paciência.

- Não é isso!

- Não?! Então o que é Doutor Inácio?

- Você esqueceu uma parte essencial em seu conceito. É suportar as provas da vida com paciência e jamais desistir de buscar-lhes a solução.

- Eu fiz isso! - alegou o paciente.

- Não fez! - retrucou o psiquiatra com sua típica franqueza e ironia.

- Fiz!

- Não fez! Tenho sua ficha e quem o encaminhou para cá me deu detalhes de sua existência. Digamos que você fez isso até por volta dos quarenta anos de idade, em seus primeiros quinze anos de Espiritismo, depois só se queixou. Você desistiu sem assumir que desistiu. Não faliu, porém, deixou de crescer tanto quanto podia. Você cansou por dentro, e não admitiu. Os outros trinta anos passaram na revolta e com esperança de morrer logo para fruir. Continuou sua tarefa por fora, esquivando-se do dever da melhora por dentro. Instalou-se o vazio e a vida passou. Você foi traído pela famosa frase de muitos cristãos distraídos que esbanjam tempo e oportunidades.

- Que frase, Doutor?

- As famosas frases proferidas por todos aqueles que se deixaram abater pelo egoísmo e se cansaram das refregas doutrinárias: "Agora vou cuidar de mim, dar um tempo para mim mesmo! Chega dos espíritas!"

Nesse ínterim, Anselmo modificou sua fisionomia por completo e começou a esbravejar:

- Já ouvi falar na "segunda morte" (1). Ela existe mesmo Doutor? Se existir, prefiro-a a ter que viver. Quero voltar aos reinos inferiores! As coisas não foram como desejei na Terra e, pelo visto, não serão a contento por aqui também.

- A vida o espera rica de oportunidades. Só você não consegue perceber!

- Nada deu certo na minha vida! Não quero tentar mais!

- Engano, meu filho! Talvez, nada tenha saído como você desejou. Isso não significa que não deu certo. Em verdade, deu certo e você não entendeu.

- Se tivesse dado certo, eu não estaria nestas condições.

- Você está nestas condições porque não aceitou; é bem diferente!

- Não aceito mais nada da vida. Chega! Inclusive não quero o senhor como meu médico!

- Isso é fácil de resolver. De fato, não sou dos melhores! - Existe sempre uma resposta honesta nos lábios do Doutor Inácio.

- Eu não quero viver, Doutor Inácio! O senhor entende? - falou aos prantos. Para mim, chega de existir; eu não quero ser nada. Aliás - disse com ódio nos olhos - eu quero ser um verme rastejante que não precisa pensar e se cuidar! Ajude-me, Doutor Inácio! Mate-me, pelo amor de Deus!

Um choro convulsivo tomou conta de Anselmo. Na medida em que aumentava o extravasamento da dor, ele se contorcia pelo leito. Doutor Inácio, percebendo a gravidade, fez um sinal com a cabeça e alguns enfermeiros atentos e delicados lhe sedaram com elevada dose de soníferos. Algumas técnicas de dispersão e aspersão de fluidos foram ministradas quando o paciente adormeceu. Parecia agora uma criança em profundo descanso.

- Vamos retirá-lo desta ala, Doutor? - Indagou Manoel Roberto.

- Vamos levá-lo para as incubadoras.

- Para as incubadoras? Mas...

- Eu já sei o que vai dizer, Manoel! O caso, porém, exige atenção.

- Pensava que as incubadoras fossem apenas para os que se encontram na "segunda morte".

- A priori sim. Casos como o de nosso amigo com crises tão sucessivas podem atingir esse patamar instantaneamente, se não conseguir redirecionar seu pensamento. Esta é sua quinta crise.

- Se ele estivesse nas mãos de alguma "organização do mal"!

- Se estivesse lá, já não seria gente. Com este estado mental, já o teriam transformado no que desejassem, inclusive em "mentor de centro espírita" considerando a vasta experiência doutrinária que tem.

- Vamos transportá-lo aos saguões restritos - solicitou Manoel Roberto a alguns padioleiros.

- Amanhã retornarei ao caso, Manoel. Estudaremos com a junta médica o seu histórico e levantaremos uma anamnese profunda.

No dia seguinte, reuniram-se em pequena sala nos pavilhões inferiores do nosocômio o Doutor Inácio, Dona Modesta, Manoel Roberto, dois psiquiatras da alma e alguns experientes tarefeiros dos abismos. A reunião para estudar o caso Anselmo iniciou-se com a oração dirigida a Jesus. Dona Modesta, na condição de médium, percebeu irradiações da mente de elevada entidade protetora dos vales da sombra e da dor. Tratava-se de Isabel de Portugal, a Rainha e Santa Mãe dos pobres. Uma pequena mensagem fluiu pela psicofonia da médium, que não tinha conhecimento detalhado do caso em estudo:

- "Anselmo é uma esperança dos céus. Sua alma ergueu-se dos lamaçais da penúria e do mal, atingindo as margens seguras do desejo de ser melhor. Saindo das cavernas do exclusivismo e da solidão, formou família e projetou-se ao educandário da convivência. Premido pelas decepções e desgostos, ainda frágil e inseguro, resvalou novamente para o ócio, criando uma redoma no coração temeroso e assustado. Lutou quanto pôde pela conduta reta, considerando a fragilidade de suas forças. O Espiritismo fez luz em sua mente, prevenindo-o de quedas bruscas. Seu coração, no entanto, encontra-se encharcado pela tristeza face os desatinos de outros tempos, pelos quais ainda não realizou o suficiente. Conceda-lhe, em nome de Jesus Cristo, o repouso temporário. Internem-no por alguns meses na "incubadora da inconsciência" sob meu aval. Paz em Cristo, Isabel.

- Agradecemos a ti, oh Rainha do Amor! Os teus alvitres amoráveis nos calam fundo na alma - expressou Doutor Inácio com gratidão.

A reunião prosseguiu sob a inspiração da mensagem alentadora. Dona Modesta expressou-se:

- Meu Deus! Como têm aumentado os casos de espíritas neste quadro!

- Não poderia ser diferente - asseverou Doutor Inácio.

- Como classificar semelhante estado da alma? Será mesmo depressão? - indagou Manoel Roberto.

- Sim. Em conceito mais vasto, evidentemente. Não falo da depressão à qual os homens se referem nos respeitáveis códigos de doenças da medicina.

- Faça uma síntese do quadro, Inácio - solicitou Dona Modesta.

- Ao renascer, o Espírito imprime no corpo os reflexos de sua vida emotiva determinando os caracteres biológicos que melhor atendam a suas necessidades de aperfeiçoamento. Muitas criaturas, neste tempo de transição planetária, passaram longo período em "incubação psíquica" no vales sombrios nos quais adquiriram os traços do derrotismo e da "não vida". Sob o jugo de mentes perversas, esses irmãos foram conduzidos aos charcos da "morte interior". São hipnotizados pela ideia de não merecerem existir após quedas lamentáveis exploradas por essas hordas do mal. Assim, regressam ao corpo sem desejo de viver. Uma "depressão induzida". Uma terrível atração para a paralisia, a culpa e a insatisfação. Desapontados e contrariados em anseios pessoais, só lhes resta desistir e parar. Essa é a ordem mental doentia que colheram em tais regiões.

- E quando encarnados? - atalhou Manoel Roberto.

- Quando encarnados, sentem-se desajustados com o ato de viver e lutar pela sobrevivência. "Negam" psicologicamente a vida física, a ordem social e o próprio corpo. Quando conseguem algo que os motive, logo perdem o encanto. São desajustados com a vida.

- Quando são espíritas, a situação parece ser bem pior! - asseverou Dona Modesta.

- É verdade, Modesta! Como são almas que se sentem inferiores, quando aderem ao Espiritismo e começam uma caminhada valorosa, saltam para o outro extremo, isto é, sentem-se os mais valorosos do planeta. Passam a se julgar muito capazes e com muitas respostas. Fato que não deixa de ter sua parcela de verdade. Todavia, valorizam-se em excesso e criam o jogo das aparências, os estereótipos com os quais tentam crer-se mais fortes que realmente sentem-se. É a tática do orgulho que procura abafar a inferioridade e carcome o mundo íntimo. Para se protegerem de seus complexos de fragilidade, desenvolvem crenças de grandeza com as quais se sugestionam ante a vida para dar conta do próprio ato de existir.

- Não compreendi! - externou com humildade o enfermeiro.

- Muitos deles não têm coragem de admitir, mas detestam viver e ser quem são. Por isso adoram as cantilenas de grandeza e as melodias da ilusão. Se não conhecessem a doutrina, possivelmente, muitos deles, exterminariam a vida. É lamentável! Conhecem abundantemente sobre o mundo dos Espíritos e sabem uma miséria sobre si próprios...

- Inácio, terá sido essa a razão pela qual Isabel ressaltou o progresso de Anselmo?

- Sim, Modesta! Pelo menos no caso de Anselmo, encontramos crescimento.

- Nos demais... - insinuou Dona Modesta.

- Anselmo chegou aqui adoecido. A maioria nem chega... - concluiu o médico.

- Por essa razão, não podemos estipular índices de comportamento para ninguém. Sem conhecer sua história evolutiva, acabamos nos julgamentos estéreis e antifraternos - acrescentou Dona Modesta.

Alguns dos trabalhadores presentes externaram suas participações com sabedoria. Um psiquiatra da alma, cooperador nas responsabilidades do Doutor Inácio no Hospital, habituado ao episódio, destacou:

- Imperioso levar aos amigos espíritas no mundo um receituário oportuno. Nossos irmãos precisam ingerir com freqüência três medicações indispensáveis.

- Quais? - mostrou-se curioso Manoel Roberto.

- A primeira é acreditar que merecem a felicidade, assim como todos os seres humanos. E a segunda é parar de encontrar motivos externos para suas dores, descobrindo-lhes as causas íntimas.

- E a terceira?! - indagou curioso um dos presentes ao debate.

Pedindo licença, foi o próprio Doutor Inácio quem respondeu:

- A terceira é parar de pensar em felicidade para depois da morte e tentar viver a vida do modo o mais feliz possível. Há muito espírita que faz da atividade doutrinária um "depósito bancário" com intuito de "sacar tudo depois da morte". Em casos como o de Anselmo, chegam aqui e encontram suas "contas correntes" zeradas. Sendo assim é justo que perguntem sobre a razão, mas não é justo que se queixem de ninguém, a não ser de si mesmos. O Livro dos Espíritos na questão 920 fala sobre o assunto afirmando: "Dele, porém, depende a suavização de seus males e o ser tão feliz quanto possível na Terra." - e arrematou o médico uberabense: - tudo depende do bem que semearmos e da atenção que damos às nossas reais intenções de crescimento.

1. Nota do médium: Vide o capítulo "Ovoidização" na obra mediúnica "Ícaro Redimido" - Espírito Adamastor - editora INEDE.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Individuação ou Individualismo?

Escutando Sentimentos - Capítulo 1


"Apenas, Deus, em sua misericórdia infinita, vos pôs no fundo do coração uma sentinela vigilante, que se chama consciência. Escutai-a, que somente bons conselhos ela vos dará."

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 13 - Item 10

O que é certo e errado perante a "crise das certezas" que domina a humanidade? Quais são as bússolas para nortear a conduta neste cenário de transformações céleres por que passam as sociedades?

A palavra conceito quer dizer ideia que temos de algo ou alguém. Analisamos a vida e os fatos pela ótica individual de nossas conceituações. Nosso entendimento não ultrapassa esse limite.

Alguns desses conceitos resultam da vivência. Foram estruturados pelo uso de todos nossos sentidos, adquirindo significados. Chamamo-los experiência. Outros são fruto da capacidade de pensar e adquirir conhecimento. Determinam os pensamentos predominantes na vida mental. Quando criamos fixação emocional a esse padrão do pensar, nasce o preconceito.

A experiência leva ao discernimento. O discernimento é a porta para a compreensão. A compreensão identifica a Verdade.

O preconceito conduz ao julgamento. O julgamento sustenta os rótulos. Os rótulos distanciam da realidade.

A atitude construtiva na Obra da Criação depende da habilidade de relativizar. Até mesmo a experiência, por mais preciosa, necessita ser continuamente repensada, evitando a estagnação em clichês.

A vida é regida pela Suprema Lei da Impermanência. Certo e errado são critérios sociais mutáveis sob a perspectiva sistêmica. Apesar disso, são referências úteis à maioria dos habitantes da Terra. Funcionam como "estacas disciplinadoras". Porém, em certa etapa do amadurecimento espiritual, constituem amarras psicológicas na descoberta da realidade pessoal, cuja riqueza está nos significados únicos construídos a partir dos ditames conscienciais.

O Doutor Carl Gustav Jung chamou de individuação o processo paulatino de expressar nossa singularidade, isto é, a "Marca de Deus" em nós; o ato de talhar a individualidade, aquele ser distinto e único que está latente dentro de nós.

Na individuação o critério certo /errado é substituído por algumas perguntas: convém ou não? Quero ou não quero? Serve ou não serve? Necessito ou não necessito? Questões cujas respostas vêm do coração. Somente aprendendo a linguagem dos sentimentos poderemos escutar as mensagens da alma destinadas ao ato de individuar-se. E sentimento é valor moral aferível exclusivamente por nós mesmos no átrio sagrado da intimidade consciencial.

Somos aquilo que sentimos. As máscaras não destroem essa realidade. Quando aprendemos o auto-amor, abandonamos o "crítico interno" que existe em nós e passamos a exercer a generosidade do autoperdão, ou seja, a aceitação incondicional da criatura ainda imperfeita que somos. Nossa integração com a Verdade depende do conhecimento dessa realidade particular: escutar a alma! Ela se manifesta na consciência cujos sentimentos constituem o espelho. Através das sensações, no seu sentido mais amplo, a alma se manifesta.

Escutando a alma, conectados à sua sabedoria interior, desligamos dos padrões, normas, ambientes, pessoas e filosofias contrárias à nossa felicidade e inadequadas ao caminho particular de aprimoramento.

Saber o que nos convém, saber o que é útil, exige dilatado discernimento aliado ao tempo. Quando usamos os rótulos certo/errado, fomentamos a culpa e a punição. Quando sabemos o que nos convém, agimos e escolhemos com responsabilidade na condição de autores do nosso destino. Quando amadurecemos, percebemos que certo e errado se tornam formas de entender, experiências diversificadas.

O caminho de ascensão para todos nós, Filhos de Deus, é o mesmo, apenas muda a maneira de caminhar. Cada criatura tem seu passo, seu ritmo, sua história.

Refletindo sobre conceitos, teçamos algumas ilações para que não nos confundamos: grande distância separa o processo de individuação da atitude de individualismo.

Na individuação encontramos a necessidade, enquanto no individualismo temos a prevalência do interesse pessoal.

Na individuação temos a alma; no individualismo, a personalidade.

Na individuação temos a consciência; no individualismo, o ego.

Na individuação existem descoberta e criatividade; no individualismo, a imitação e a disputa.

Na individuação temos o preparo e o amadurecimento; no individualismo, a precipitação.

Na individuação experimentamos a realização pessoal; no individualismo, a insaciedade.

A individuação é fruto do amor; o individualismo é a leira do egoísmo.

Na individuação floresce o crescimento espiritual; o individualismo é a sementeira do egoísmo.

O individualista, queira ou não, também caminha em seu processo de individuação. Evidentemente, com menos consciência de suas reais necessidades, permitindo larga soma de interesses particularistas.

Sabendo que todos rumam para o melhor, Jesus, em Sua excelsa sapiência, estabeleceu: "Vós julgais segundo a carne, eu a ninguém julgo." (1)

Se Ele, que podia, não julgou, por que nós, que d'Ele seguimos os ensinos, vamos agir como quem pode escutar os alvitres da alma alheia na tentativa de definir oque é certo ou errado? Qual de nós estará em condição de nutrir certeza se a atitude do próximo é uma expressão de individuação ou um cativeiro de personalismo?

1. João, 8:15